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REMAR CONTRA A MARÉ

Um filme de Bernardo Bertolucci, Os Sonhadores, conta a história de três jovens que, durante o maio de 1968, veem a revolução acontecer pela janela do quarto.

Em Portugal, ano 2013, os jovens ficam-se pela vista da janela, ou antes saem para a rua? 
O maio de 68 foi iniciado com uma série de greves estudantis que irromperam em algumas universidades e escolas de ensino secundário em Paris. A escalada do conflito culminou numa greve geral de estudantes e em greves com ocupações de fábricas em toda a França. 
Em 1974, o 25 de abril foi conduzido pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), constituído na sua maior parte por capitães que tinham participado na Guerra Colonial. Estes foram apoiados por estudantes recrutados, muitos deles universitários. 
Como olham hoje para a política os jovens? Através de uma imagem refletida num qualquer vidro baço? Através de uma imagem que foi passada de geração em geração como aquele furo no queixo? Através de uma caixa mágica que perdeu a magia? Ou antes olham para a política simplesmente com olhos de ver?

Posso Entrar?

André Moreira
DR

Como acorda o interesse para a política? Vem alguém das juventudes partidárias com um despertador? Ou aparecem o pai e a mãe com o pequeno-almoço para “ter uma conversa”? Ou acorda com o barulho que faz lá fora? Cá dentro?

“Eu não vejo a política como uma sala à qual batemos à porta e pedimos para entrar.”, argumenta André Moreira, 19 anos, estudante de Línguas e Relações Empresariais na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).
Não se entra e muito menos se bate à porta. É-se. Nas palavras de Aristóteles, “ o homem é um animal político”. 
André faz uma adaptação. A si e à atualidade do país onde vive. “A política é uma coisa inerente à existência. Se vivemos em sociedade, pensamos em quanto pagamos pela água, pela luz, pelos transportes públicos, pelas propinas. Só ao estabelecer um pensamento à volta destes temas já se está a ser político.”, diz.

O embrião da participação política

André Moreira participa ativamente na política desde os 16 anos, altura em que ainda não tinha capacidade eleitoral, mas em que já mostrava a sua capacidade de iniciativa.
“Sempre fui uma pessoa consciente a nível político. O momento em que eu dei o passo que muita gente não dá, filiar-se num partido, foi por volta dos 16 anos.”, conta.
Tudo o leva de volta à escola, enquanto estudante do ensino secundário. “ A Associação de Estudantes na altura era algo completamente informal. Um grupo de amigos que ia convidando mais um amigo e assim renovava os mandatos.” Quando decidiu dar um passo em frente, alterou as regras do jogo. Candidatou-se à Associação de Estudantes e as ações galgaram as festas e a viagem de finalistas. “Fizemos ciclos de debates. Participámos em manifestações nacionais. Participámos no Dia Europeu de Luta”.
O associativismo estudantil parece favorecer a participação política dos jovens.
Pedro Romeu Alves
DR

“Quando as coisas se passam com o colega do lado, que deixou de estudar por falta de apoios, tocam-nos de uma maneira diferente. Despertam-nos a consciência.”, explica. 

Depois da Associação de Estudantes da escola secundária de Paredes, André Moreira caminhou em direção à presidência de um novo núcleo de estudantes da UTAD. “Este ano assumi a presidência do Núcleo de Estudantes de Línguas. Um núcleo novo que congrega os cursos de Línguas da universidade”.
Pedro Romeu Alves, 22 anos e estudante do mestrado em Comunicação Pública, Política e Intercultural na UTAD garante que a consciência política “se acorda nos corredores das universidades”. Atualmente faz parte do Núcleo de Estudantes de Ciências da Comunicação (NEC.COM) e da Associação Académica da UTAD (AAUTAD).
“Nestes órgãos, faz-se política. Não é partidária, mas não deixa de ser política. A política educativa desperta-me particular interesse e faço por me fazer ouvir e por participar nessa área.”, acrescenta.

Da minha janela, para a minha rua

Quando se atravessa a ponte do associativismo estudantil para a participação ativa na política? Para uma candidatura a uma autarquia?
André atravessou-a aos 19 anos. Nestas últimas autárquicas foi o primeiro candidato do Bloco de Esquerda à Assembleia Municipal de Paredes.
“Fiquei a cerca de 500 votos de ser eleito. Era uma tarefa difícil. O Bloco de Esquerda ainda não tem uma estrutura autárquica coesa, bem estruturada na região.”, explica.
O projeto que integrava era como ele, jovem. “Eu era o mais novo, os outros elementos tinham entre 19 e 25 anos”.
Pedro Romeu não foi candidato, mas acompanhou de perto uma candidatura. “Fiz parte da direção de comunicação de campanha de um candidato a uma câmara municipal”.
Manuel Cordeiro
DR

“Acompanhei de perto tudo o que me foi possível. Fui fotógrafo de todos os momentos marcantes e conheci de perto a realidade das eleições autárquicas.”, acrescenta.

As redes sociais são a praia dos jovens. Com a maré alta das autárquicas, chegaram à praia tesourinhos e sensualidade.
“Tudo o que faça aumentar a participação é ótimo. Houve muitos jovens para quem o primeiro contacto com as eleições autárquicas se deu através das páginas satíricas do Facebook”, diz André.
Manuel Cordeiro, 34 anos, envolvido na política desde 2004, foi candidato à Câmara Municipal de S. João da Pesqueira nas últimas autárquicas e, na sua candidatura, as apostas passaram pela rede.
“Julgo que o Facebook e a página do movimento na Internet foram uma grande ajuda para nós na divulgação daquilo que fazíamos na campanha. Mesmo quem não usa a Internet recebe informação daqueles que a usam.”, adianta.
Contudo, trabalhar as redes sociais como arma política ainda não surtiu o efeito desejado. Os programas não tiveram pedalada que chegasse para os Tesourinhos das Autárquicas ou para as Sexy Autárquicas.


O peso da Minissaia

Mary Quant fê-las nascer. As de hoje fazem-se sozinhas.
Em Portugal, à imagem do que se passava noutros países, o debate à volta do sufrágio feminino passou a fazer parte da agenda política nacional a partir de 1892, data em que a Nova Zelândia deu o primeiro passo nesse campo. A 28 de maio de 1911, Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e “chefe de família”, participou nas eleições para a Assembleia Constituinte. A lei dizia que podiam votar os “cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família”. Carolina Beatriz Ângelo solicitou a sua qualidade de chefe de família alfabetizada, no entanto o pedido foi-lhe negado. O governo rapidamente se apressou a clarificar a sua posição nesta matéria, vedando expressamente o voto às mulheres, pela Lei nº 3 de 3 de julho, do ano de 1913: São eleitores dos cargos políticos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos, ou que completem essa idade até ao termo das operações de recenseamento, que estejam no gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa.
A primeira República nunca chega a reconhecer a capacidade eleitoral às mulheres. O voto é concedido, pela primeira vez e com limitações, no ano de 1931.
No dia 26 de dezembro de 1968 é publicada a Lei n.º 2137. Este diploma legal não faz a distinção entre sexos. Do voto são apenas excluídos os cidadãos que não saibam ler e escrever e nunca tenham sido recenseados ao abrigo da Lei n.º 2015, de 28 de maio de 1946.
Depois do 25 de Abril de 1974 assistimos a uma completa alteração política e social. No dia 14 de maio desse ano é publicada a Lei n.º 621-A/74. Este diploma não acresc

enta qualquer novidade no que concerne ao voto das mulheres, circunscrevendo-se à eleição para a Assembleia Constituinte.

A Constituição da República Portuguesa de 1976 prescreve que O sufrágio é universal, igual e secreto e reconhecido a todos os cidadãos maiores de 18 anos, ressalvadas as incapacidades da lei geral, e o seu exercício é pessoal e constitui um dever cívico. Este preceito teve expressão na Lei n.º 69/78, de 3 de novembro (Lei de Recenseamento Eleitoral). O art. 1.º diz o seguinte: O recenseamento eleitoral é oficioso, obrigatório e único para todas as eleições por sufrágio direto e universal.
Com a entrada em vigor deste diploma legal, eliminou-se toda e qualquer discriminação, uma vez que o seu âmbito de aplicação se estendia não só à Assembleia da República, mas a todas as eleições, inclusivamente aos órgãos das autarquias locais.

Saltos altos que marcam o compasso

Joana Abreu
DR

Joana Abreu tem 24 anos e conta que a sua ligação à política “começou desde muito cedo”. “Lembro-me de, com cerca de 7 ou 8 anos, vibrar e sofrer com as eleições e com os resultados anunciados na televisão”.

Para ela, a política já se faz de saltos altos. “Já se faz muito bem de saltos altos! No entanto, deparamo-nos, ainda, com um processo de adaptação da sociedade e de mentalidades.”, acrescenta. 
Ana Isabel Dias tem 34 anos e é Membro da Comissão Nacional das Mulheres Socialistas desde 2008, Presidente das Mulheres Socialistas do Distrito de Vila Real desde 2012 e atual Coordenadora das Presidentes dos Departamentos Federativos das Mulheres Socialistas de Portugal.
“A minha energia e capacidade de reivindicação têm sido direcionadas para as questões da igualdade de género.”, revela.
Desde cedo se interessou pelas questões que rodeavam a sua vida em sociedade e desde cedo as questionou. 
“A construção de uma sociedade democrática é um processo contínuo e cujo desenvolvimento equilibrado implica o reconhecimento das diferenças biológicas entre homens e mulheres, mas também o reconhecimento do seu igual valor, igual competência e igual mérito para gerir e decidir em todas as esferas da vida.”, explica Ana.
Maria de Lourdes Pintasilgo foi a única mulher que desempenhou o cargo de primeiro-ministro em Portugal, tendo chefiado o V Governo Constitucional.
Maria de Lourdes Pintasilgo foi a terceira mulher a desempenhar o cargo de primeiro-ministro na Europa, logo dois meses depois da tomada de posse da Dama de Ferro, Margaret Thatcher.
Nos nossos dias o compasso é marcado pelo salto de Angela Merkel. Um kitten heel, pouco feminino, mas que, fazendo-se ouvir com clareza, marca o andamento da Europa.

O ano é 2013

“Em Portugal ainda percebemos que a temática da igualdade de género é muitas vezes utilizada e observada como algo politicamente correto, como um gesto de bondade para com as mulheres, às quais se continua a recorrer apressadamente para cumprir as quotas.”, diz Ana Isabel Dias.
Ana Isabel Dias
DR

Mas Ana logo esclarece que “todavia, estas mulheres são empenhadas e muito determinadas como foi Carolina Beatriz Ângelo. Tal como ela, as mulheres que hoje estão e permanecem na política acreditam que a primeira igualdade é a justiça”.
A opinião de Sandra Batista, 28 anos, licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais é muita parecida com a de Ana Isabel Dias, mas pinta o quadro da descredibilização.

Para elaa participação das mulheres na política portuguesa apenas mudou um pouco com a Lei da Paridade que obriga a que as listas dos partidos tenham, no mínimo, 1/3 de mulheres. No entanto, e infelizmente, na maioria das vezes os partidos apenas colocam mulheres para cumprir a lei não lhe dando depois um papel de importância, o que revolta e afasta as mulheres da política.”, explica.

Os “outros jovens”

Um estudo de 2008, encomendado pela Presidência da República, ilustra que as gerações mais novas lideram a insatisfação geral da sociedade com a política. Mais de 23% das pessoas com menos de 24 anos não tem qualquer interesse na política e nunca vota. 
“Acho que uma vasta percentagem dos jovens se acomoda ao panorama político e não tem vontade, nem força, nem coragem para intervir.”, afirma Joana Abreu.
Sandra Batista
DR

Todavia “os partidos carecem de renovação e essa deve ser feita gradualmente. Por isso defendo uma intervenção desde cedo, para que a preparação seja feita com êxito.”, conclui.

Para Sandra Batista o motivo tem como alicerce o facto de os jovens “não sentirem a importância de um direito que sempre tiveram”.
Do lado dos que aguardam pelo voto e pela participação desses jovens, a resposta é outra. “Continuem a fazer política como sempre fizeram e os jovens afastam-se.”, expressa Manuel Cordeiro.
A crise também deve ser aqui ressalvada. Pois pode servir tanto como entrave como estímulo à participação.
André Moreira acredita que a crise é um estímulo. “Se no Estado Novo se mandavam os jovens para combater na Guerra Colonial, hoje pedimos aos jovens que emigrem para que consigam trabalho. ” Por isso, “eles são chamados novamente a intervir no estado das coisas”.
Ana Isabel Dias concorda. “O contexto de crise que hoje vivemos despertou nos jovens um sentimento tal de inconformismo, que, posso dize-lo, se transformou num fenómeno de participação e envolvimento ao qual não assistíamos há alguns anos”.
Remam estes jovens contra a maré? Se sim, fizeram da juventude o barco e dos ideias os remos. Que a maré deu-lha o país.

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