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JCR: "AS PESSOAS, TAL COMO AS CIDADES, PODEM SER RECONSTRUÍDAS"

José Carlos Ramalho na palestra
Ser Profissional de Comunicação Além-Fronteiras: Que desafios?
UTAD
José Carlos Ramalho tem 47 anos e atualmente é coordenador da unidade de repórteres de imagem da RTP. Jornalista desde 1988, fez quase todo o seu percurso no canal. Tem a assinatura em mais de 30 documentários e grandes reportagens. Até ao nascimento da sua filha, foi um dos enviados especiais da RTP a vários cenários de guerra, como Bósnia, Sérvia, Kosovo, Paquistão ou Iraque. 
Foi colecionando cursos nas áreas do jornalismo, técnica, pedagogia e escrita, de onde se destaca o Curso Oficial da EBU para Repórteres em Zonas de Conflito e o Curso de Guionismo, ministrado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Foi Coordenador e Militar Adviser nos Cursos para Jornalistas em Zonas de Conflito e Ambiente Hostil
Tem contos publicados em alguns livros e revistas, sendo o mais relevante a coordenação geral do livro “Câmara de Reflexão”. 
Traz consigo histórias que brotaram em lugares, pessoas e momentos únicos e para as contar quase não necessita de palavras. Ainda assim, sabe usá-las com mestria. 
Depois de uma visita à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) na quarta-feira, dia 20 de novembro, para participar na conferência “Ser Profissional de Comunicação Além-Fronteiras: Que Desafios?”, quisemos saber mais sobre o jornalista, o escritor e o pai que deixa ler os olhos e falar o coração.

P- Como se explica à família que se vai fazer a cobertura jornalística de um cenário de guerra?

R- Não se explica! Vai-se explicando! Há que ir habituando os familiares que, um dia, isso pode acontecer. É sempre um choque e é muito mais violento para quem fica, do que para quem vai. Julgo que (pela minha experiência e perceção) é mais fácil a abordagem aos cônjuges, do que aos pais e aos filhos. Os nossos companheiros/as, conhecem a nossa história, sabem da nossa carga profissional. Com os pais, ou os filhos é tudo mais complicado… há sempre um incómodo “porquê” que nos atrapalha e faz pensar. Lembro-me bem de um episódio que se passou com a minha mãe: Durante a guerra do Kosovo, eu fiquei em Belgrado e o meu irmão em Pristina… precisamente nas mesmas datas. A nossa mãe andava num corrupio tal que ia à missa todos os dias! Foi bastante violento para ela.
Quando nasceu a minha filha, achei que não tinha o direito de a fazer passar por estes momentos de ansiedade e facilmente mudei os meus objetivos de trabalho. Facilitou o facto de ter sido pai apenas aos 40 anos e ter um percurso firmado. Se fosse mais novo e não houvesse um percurso profissional firmado, não sei qual teria sido a minha decisão.

P- Como se vivem os primeiros dias e os últimos nesses ambientes?

R- Os primeiros dias são momentos de observação e análise. Normalmente, são realidades que não conhecemos, de culturas bem diferentes da nossa. Povos em situação extrema, onde as emoções humanas caminham à flor da pele. Na verdade, julgo que esses primeiros dias são cruciais para o êxito da missão. Há muito nervosismo misturado com a adrenalina decorrente do momento. Comigo, até a primeira reportagem ser emitida é um sufoco! Depois entrava em velocidade de cruzeiro criando uma certa a normalidade possível num ambiente desses. 
Os últimos dias, dependem muito de como correu o trabalho até aí. Já tive vontade de ficar mais tempo e de não aguentar mais um segundo. No entanto, é sempre uma alegria voltar!

P- Quantas emoções acontecem em si ao contactar com essas realidades?

R- Considero que sou muito frio no terreno. Não sou feito de gelo e não escondo algumas emoções, mas não me posso deixar dominar por elas. É a minha maneira de me proteger. Não posso, não quero trazer fantasmas agarrados! Tenho uma técnica, um esquema de proteção, que funciona comigo. Não é uma receita mágica que se possa aplicar a outras pessoas. A minha catarse é feita in loco no momento em que a reportagem é exibida. Em televisão, quase tudo é instantâneo, quase tudo é efémero. Encaro a história que acabei de por no ar como uma realidade televisiva que se perde no éter hertziano. E se não deixa marcas no ar… também não as deixa em mim!

P- Alguma vez pensou em voltar para casa? Desistir?

R- Não, nunca pensei… mas houve vezes em que desejei não estar naquele, ou noutro local. Mentiria, se dissesse que nunca tive medo. Aliás, eu defendo que é o medo que nos salva, obrigando-nos a pensar e a equacionar os riscos.
Mas, houve uma vez que não embarquei… A RTP, tinha preparado a ida de duas equipas de reportagem para acompanhar a entrada da GNR no Iraque. Uma via Jordânia, e outra via Kuwait. A que tivesse o primeiro visto, partia. Foi o meu visto que chegou primeiro. Francamente, não me apetecia muito ir. Naquela altura viajava bastante e as idas ao Iraque eram uma constante. A (na altura) minha mulher, disse-me que gostava que eu não fosse. Faltavam seis horas para embarcar e pouco tempo antes o visto do meu colega (que queria muito ir) chegou. Ligámos para a GNR e perguntámos se havia hipótese de trocar. A resposta foi positiva! 
Provavelmente, foi a minha sorte. A caravana foi atacada, o Carlos Raleiras raptado e a Maria João Ruela ferida a tiro. Mesmo assim, foi a mestria do colega que foi em meu lugar, que evitou males maiores. 
Provavelmente…hoje não estaria aqui a responder a estas questões!

P- O que mudou em si? (Se é que já consegue ver esses momentos à distância)

R- Não sei… fiquei a conhecer um pouco melhor a condição humana.
A relativizar os meus “enormes” problemas! A encarar a vida com um pouco mais de calma. Lembro-

me de, há uns anos, estar na companhia do Dr. Adolfo Correia da Rocha (Miguel Torga) a beber um Porto. Foi impressionante a forma como ele (não sei se o médico, se o escritor) observava os meus gestos e a forma como saboreava o vinho. Se esta cena, que me ficou gravada na memória, tivesse sido uns anos depois, aquele pequeno prazer das coisas da vida ainda teria sido maior! 

Gostava, e quero acreditar que vim de lá uma pessoa melhor!
Acredito, porque já vi, que as pessoas, tal como as cidades, podem ser reconstruídas!

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