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PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE

ANABELA BORGES
Hoje é o primeiro dia do novo ano, dia um de Janeiro do ano da graça de 2015. Outro Natal passou.
Os poucos dias destinados a folga sucederam-se na azáfama dos preparativos daquela que é, desde que me conheço, a grande festa de reunião familiar.
Somos uma família numerosa. E falo apenas da família mais chegada, da família directa: avós, filhos e netos.

E ninguém falta, ninguém arranja pretextos para não estar presente no Natal. Não é algo que se pense (estar ou não estar presente), é algo que veio com a educação, que se faz com naturalidade e que acaba sempre numa felicidade imensa, difícil de traduzir em palavras – uma felicidade que dilata o peito, acende um brilho inconfundível nos olhos e rasga sorrisos, gargalhadas e sobrepõe conversas num atravessar longínquo de três gerações (neste momento, o mais jovem elemento tem dois anos e é meu sobrinho, e o mais velho tem 80 que é o meu querido pai).

Ao longo do ano, são muitas as vezes em que nos reunimos em família, em festas de aniversário, festas de Primavera, de Verão, de despedida do Verão, enfim, com ou sem pretexto, reunimo-nos muitas vezes em família e somos mais que muitos (os jovens sobrinhos trazem as respectivas namoradas e um ou outro amigo). E dá-se, por vezes, o caso de um ou outro elemento não poder estar presente, pelos mais variadíssimos motivos. Mas no Natal ninguém vai de férias, ninguém vai sair com os amigos, ninguém vai trabalhar. Todos estão presentes. Os mais jovens (as minhas filhas incluídas) já têm esta mentalidade também. Já são elas que, ano após ano, dizem “Neste ano, o Natal é na casa da avó Julieta, com os tios e os primos tal e tal”, “Neste ano, é na casa da avó Albertina, com os tios e os primos tal e tal”.

De há uns anos para cá, desde que a família foi ficando mais numerosa, com os casamentos e os netos (os nossos filhos), deixamos de nos reunir na casa dos nossos pais, que é pequenina, contribuindo assim também para poupá-los às canseiras e azáfama que envolvem esta época festiva, dadas as suas idades avançadas. Assim, nós, os filhos, organizamos os natais nas nossas casas, de forma mais ou menos alternada. Inquestionavelmente, com o espírito de sempre – a vontade de reunir a família para celebrar o Natal.

Sei que muita gente celebra e que muita gente não celebra o Natal assim. Eu não critico. Sei que muita gente não valoriza a união familiar, particularmente nesta época, sei dos que dizem que isso tem de ser trabalhado durante todo o ano – pois tem, e na minha família assim é (que não o fosse, ficaria feliz se nos pudéssemos reunir ainda que apenas no Natal). Não comento. Verifico que há pessoas que dizem detestar o Natal. E chamam-lhe muitos nomes, ao Natal e às suas festividades: festa hipócrita, comercial, superficial (vejo que não sei dizer os nomes, por isso dou uma espreitadela no Facebook, que é um meio de fácil acesso, e peço a todos desculpas por isso, para verificar os nomes que algumas pessoas atiram para cima do Natal, porque não os sei, não fui habituada a conhecer o Natal dessa maneira), conjunto de excessos, materialista, uma farsa… Tenho pena. Mas não condeno.

Eram as férias de Natal. Enquanto a geada caía, a pôr as ervas duras como palitos e as águas dos tanques lisas como espelhos finos, os vidros embaciados transpiravam o calor da casa rente à terra. E os seis irmãos espreitavam lá para fora, acenando com as palmas das mãos, fazendo deslizar pequenas gotas, rápidas como lágrimas de desejo.
Até que veio o dia em que o pai só trabalhou meio dia e chegou com o cabaz. Era o dia em que a casa cheirava aos sonhos de Natal. A mãe tinha a panela ao lume para amouchar a troncha e a mais velha das filhas estava a tratar dos doces. E a casa ch

eirava aos sonhos de Natal, que era um cheiro feito de mel e canela e Vinho do Porto, os sonhos dourados que enchiam a casa com promessas de dias benfazejos para um ano inteiro. Era um cheiro que se entranhava nas roupas e nos cabelos, metia-se nas madeiras, subia ao teto e esbarrava nos cantos da casa.
Pôs-se a mesa com uma tolha imaculada, mas sujou-se logo no entusiasmo de passar o galheteiro de mão em mão para regar o bacalhau com o azeite. E a noite avançou, lenta e mágica, com cheiro a sonhos de Natal.
No fim da ceia, era costume o pai jogar com os filhos ao rapa-tira-deixa-põe. O maior azar do jogo era a quem saísse o P, porque tinha de pôr no centro da mesa os pinhões que tivesse arrecadado até aí. No fim do jogo, restabelecia-se o equilíbrio das coisas, porque iam todos para a bancada da cozinha partir, repartir e comer os pinhões conquistados.”*

Quem cresceu num Natal assim, não pode odiar o Natal, não pode deixar de valorizar a celebração da festa da família – pai, mãe, filhos.

Este é verdadeiramente o momento para estreitar os laços familiares.

Não há famílias perfeitas. Não há natais perfeitos. Como todas as famílias, também temos tido a nossa dose de natais ensombrados de doença, de sofrimento, de dúvida. Não podemos renegar a graça de podermos estar junto dos nossos pais, dos nossos irmãos, dos nossos filhos. A graça de estarmos juntos é reafirmada ali.  

E o que verdadeiramente deveríamos ver, deveríamos querer, deveríamos relembrar nesta época, se cremos, um bocadinho que seja, nessa história cristã do Homem que viveu como os homens, para lhes deixar lições de simples humanidade, para lhes dizer “PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE”. E se não cremos nesse homem de nome Jesus, também. Creiamos na boa vontade dos homens, pois é ela que faz evoluir todas as humanidades da Humanidade de que somos revestidos. É principalmente disso que se trata – de vontade. Falta vontade aos homens, não apenas vontade de fazer, mas também vontade de ser. Só através do motor que trabalha a vontade, a Humanidade evoluirá para um patamar superior, de paz e maior igualdade entre os homens.

A vontade respira dentro de cada um de nós. E a segurança nessa vontade, a força, a mão de agir vem da família. Os (bons) amigos são também essa família, qualquer um que seja, que venha por bem, será acolhido como família – de boa vontade. Ninguém será feliz sozinho, por mais que procure convencer-se disso. Da mesma forma, também ninguém será feliz por seguir alguém por influência social, ou por outra qualquer forma que não seja o instinto puro que é revocado no silêncio interior. Cada um de nós tem o seu silêncio interior. E é necessário saber escutá-lo. E, sim, devemos sempre preocupar-nos com o que os outros pensam, pois isso é que vai pôr à prova o nosso carácter, a nossa individualidade, a capacidade de pensarmos por nós mesmos e de tirarmos as nossas conclusões sobre o(s) caminho(s) a seguir.

Precisamos da nossa trupe – família. Precisamos de quem faça o caminho ao nosso lado para sermos felizes. Precisamos da partilha: de dar a mão, o abraço, o beijo, o olhar. Precisamos, acima de tudo, de partilhar o verbo, de acalentar a palavra, aconchego ao espírito. E se aqueles que seguimos se limitam a ser contra tudo, se limitam a criticar, se limitam a derrotar as mais simples alegrias dos outros, por vezes de forma inconsciente (pois esses não souberam ainda ouvir a sua voz interior), pensemos melhor – se é por aí que queremos ir, se somos felizes assim, ou se seremos apenas imitadores, pessoas revoltadas sem válidas razões, se, afinal, ainda não aprendemos a viver a vida de dentro de nós para fora, para o outro. Porque esses, senhores, muitos desses não sabem o que andam cá a fazer, e vivem nadando em muita arrogância e variadíssima presunção, e nem sequer perceberam qual é a sua missão neste espaço terreno.
Todos estamos em tempo de seguir o instinto primordial da nossa humanidade e, em ascensão, ajudando-nos, corrigindo os erros uns dos outros, estaremos em condições de deixar um mundo melhor aos vindouros.
Homens de boa vontade – não estejamos à espera que seja o outro. Sejamo-lo nós primeiramente.
Perante isto, o que posso desejar para o ano que hoje começa?
Que seja um ano mais ciente e vivo de humanidade.

*Passagem do meu conto de Natal de 2013, “Acordar os Sonhos de Natal”, publicado pela editora Lugar da Palavra.

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