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BIRD Magazine

A ÚLTIMA CONSULTA

Susana Dias
A última consulta no IPO ou O elogio da Vida
Quando saí do IPO, depois de receber a notícia da alta, o vento frio e a chuva fizeram-me apressar mas não resisti a voltar-me para um último olhar para aqueles edifícios que conhecia agora de modo tão familiar mas que em tempos me pareceram labirínticos. Nos meus olhos cabiam todas as memórias que guardo ciosa e silenciosamente daquele hospital onde vivenciei a ténue linha que separa a vida da morte. Uma linha demasiado frágil porque o cancro não brinca em serviço e as lutas que se travam entre o corpo doente e os tratamentos não têm um desfecho consensualmente previsível. A medicina é uma ciência em franco progresso mas cada corpo individual é um campo de batalha de características muito particulares o que faz com que o sucesso ou fracasso dependa de inúmeros factores. Por isso, o lema nas enfermarias tem uma linha pragmática, “viver 1 dia de cada vez”. Nesta luta, coube-me a sorte de ser sobrevivente. Não há maior fortuna. Por isso, quando saí da consulta em que a minha médica me deu alta, olhei a montra da papelaria do IPO, no auge da minha exultação, quase me deixei entrar para comprar uma raspadinha. Mas estanquei à entrada e, claramente, disse a mim própria que tinha ganho novamente o direito a sonhar com 2 dias de cada vez e que isso haveria de me bastar para completar o sentido da minha existência, sem lhe querer acrescentar algo mais.
Estou, ainda, um pouco anestesiada com esta ideia de deixar o estado de doente oncológica. Foram 6 anos e meio a viver com uma doença estigmante e esta vivência deixa marcas profundas na pessoa que se reconstrói a partir da sentença da doença. 
A fama medonha do cancro, que exalava o cheiro a morte, chegava sempre antes de mim, por isso, lutar contra o estigma da “coitadinha” que conseguia vislumbrar em tantos olhares, no início da doença, exigiu que quisesse continuar igual a mim mesma, com o direito à normalidade que eu queria manter mesmo sabendo que um sacana qualquer se alojara dentro de mim e se entretinha a sugar-me a vida no sentido mais biológico. E se o meu corpo perdia o vigor com a quimioterapia e com exames invasivos, se o cabelo me caía, se o medo rondava à minha volta, na minha alma aumentava o desejo de viver e de sobreviver. Ao longo desta luta que se travou em muitas frentes, tive o privilégio de contar com os melhores reforços, a família e as minhas amigas ( e os ex alunos, claro!) Foi graças a este eixo aliado, imprescindível sempre em todos os momentos, que estou hoje aqui a cantar vitória sobre o gajo que entrou em mim sem licença, em 2008. Ah, houve momentos verdadeiramente inesquecíveis como aquele em que as grandes amigas me acompanharam no corte de cabelo, simbolicamente cortando parte do seu… Momento único de cumplicidade da amizade! 
Nesta narrativa de percurso de doente de uma doença maldita, reforcei a convicção muito minha de que o sentido da existência de qualquer homem tem origem nos vínculos que estabelece com as pessoas próximas. Na bonança dos dias soalheiros ( sim, gosto do sentido desta afirmação. ) em que a alma exulta de satisfação ou na penumbra dos dias de desespero, a presença do Outro é o que nos lança na esperança do futuro porque ao vivenciar um ou outro estado acompanhados criamos laços de profunda cumplicidade que reforçam a nossa vontade de viver. Ivan Ilich, personagem mártir da novela de Tolstoi com o mesmo nome, agoniza moribundo, na mais solitária dor existencial porque em nada nem ninguém encontra consolo e sentido para o seu sofrimento, concluindo, no final da sua existência, que todo o investimento da sua vida tinha sido um erro, incluindo a sua profissão e família. Esta é a mais extrema solidão humana, a constatação derradeira da negação do sentido. 
Sucumbirmos à vivência de uma fachada, encurralados pelas exigências extenuantes e alienantes da profissão e do dia a dia, sem tempo para a boa cavaqueira com os amigos, para partilha dos risos, dos sorrisos, dos gestos de dádiva com aqueles que amamos, afastados da contemplação e fruição da natureza, mais empenhados em viver a vida dos outros que a nossa, é a mais séria hipoteca do sentido na nossa existência. Como hoje já as pessoas que eu amo me ouviram dizer, se ganhei alguma coisa com esta doença foi o compromisso de viver profundamente, sem deixar a vida passar-me ao lado, saboreando intensa e apaixonadamente todos os pequenos momentos com aqueles que amo.
Se tenho medo que ele volte? Esse é um assunto que não me preocupa porque tenho uma vida para viver. E talvez uma raspadinha para comprar amanhã.

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