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CARNAVAL É FOLIA

ANTÓNIO PATRÍCIO
Carnaval é folia, extravasamento de “galderice”, festa onde os homens – alguns – tomam a liberdade de assumir uma identidade que não é a sua.

“Pelo Carnaval ninguém leva a mal” dito popular que, para mais não serve, do que adocicar algum azedume provocado pelo uso e abuso da liberdade – libertinagem – de uns tantos que, aproveitando-se da ocasião, soltam impropérios e fazem partidas nem sempre de gosto acautelado.

O nosso São Gonçalo também esteve envolvido em algumas manifestações populares de base folgazã conhecidas por “Gonçalinas”, do outro lado do Atlântico e, por serem libertinas e tomarem contornos algo controversos e pouco consentâneos com os bons costumes acabaram por ser proibidas. 
O pesquisador brasileiro Francisco Martins dos Santos, numa edição de 26 de Março de 1944 do jornal santista A Tribuna, faz-lhes referência nos termos seguintes: “No século dezoito não havia carnaval no Brasil. O vírus da pagadoeira ainda não se inoculara no sangue do nosso povo e Momo I e Único ainda não descobrira a terra cabralina mas, em alguns lugares, as festas de São Gonçalo eram o próprio Carnaval de agora, um pouco agravado em suas características, o que não deixa de ser lisongeiro para o mal falado século XX.
São Gonçalo era o santo das danças e das festas ruidosas, incluindo-se nessas festas as cavalhadas. Em Santos não havia cavalhadas, mas havia coisa melhor, mais divertida, e na altura de 1770, as “gonçalinas” eram mais do que tudo aquilo, eram o pretexto para certos excessos, para a bacanal, a folia rasgada e desabusada em que se metiam, por dois ou três dias, brancos e negros, pardos e marabás, rameiras e moças do povo, e também as grã-finas da época, as sinhazinhas ricas, que o vulgo em geral só via nas missas domingueiras, tal o seu recato, e todos seduzidos pelo raro encanto daqueles dias e daquelas noites. 
Parece que foi com as gonçalinas que surgiram as máscaras no Brasil, disfarçando a seriedade de alguns, escondendo a identidade de muitos, nivelando e confundindo num divertido anonimato, gente de todo estalão e até circunspectos camaristas, o que parecia não ser do conhecimento dos governadores, instalados em S. Paulo”. E mais adiante cita uma carta que um tal António Siqueira, escrita em 1770, a um amigo no Rio de Janeiro: “As gonçalinas nesta boa terra são a coisa mais divertida deste mundo, misturando ofícios e festas religiosas com festas profanas de gosto e feitio bem tropical, saturnais que lembram aquelas descritas nos velhos autores gregos e romanos, e que vão muito bem na tristeza desolada destas marinhas malcheirosas. A brincadeira passa da rua para dentro das casas e de dentro das casas para a rua, culminando com uma tal de umbigadas que vai ao som de uma banda de música, misturada com vários instrumentos africanos, realizada na praça, e que é verdadeiramente inesquecível. A maior parte das festas são feitas com máscaras as mais diferentes, trazidas da Europa, etc.”. 

São estes escritos que me levam a supor que as manifestações carnavalescas tão propagadas no nosso país irmão têm muito em comum com as censuradas “Gonçalinas”. Numa e noutra há o uso e abuso de actos libertinos, muita música, muita dança, muita comida e bebida e muitas outras coisas mais…
Fevereiro é, pois, o mês de tudo e de nada, uma vez que, acabada a folia se entra de imediato no tempo de recato e de contenção – a Quaresma.

Ao tempo, enquanto as elites se fantasiavam e passavam a tarde e noite em bailes e folganças nos salões engalanados dos clubes privados, os outros, mascaravam-se e bailavam nas ruas e praças dando largas a uma liberdade de procedimentos pouco permitidos nos outros dias.
O homem ao contrário dos outros animais, sempre se soube mascarar para obter o que mais lhe convém e, nos tempos que correm, vivem permanentemente mascarados, se não na apresentação, pelas palavras.
Vejamos, como todos os dias, nos entram casa adentro, sem pedir sequer licença, pelos meios de comunicação social, bem engravatados, soltando frases pré-ensaiadas, suaves ao ouvido mas pejadas de enganos e inverdades agradáveis.

Condena-se e absolvesse, difama-se e branqueia-se com uma ligeireza assustadora criando-se a ideia estapafúrdia de que tudo se pode dizer e fazer em nome da liberdade seja ela de expressão e ou de procedimentos.

Viola-se à esquerda, mata-se à direita em nome da liberdade; bombardeia-se à direita, incendeia-se à esquerda em nome da liberdade. Mas que liberdade? A tua? A minha? A daquele? A do outro?….

Brancos, negros, vermelhos e amarelos clamam liberdade. Cristãos, muçulmanos, judeus clamam liberdade. Mas que liberdade? Uma liberdade universal de base no respeito pelas diferenças, credos, cores, culturas…ou uma liberdade individual, utópica, extremista, intolerante e inconsequente no rasar tudo e todos?

Aproveitemos o mês do Carnaval e façamos um exame de consciência separando o trigo do joio, reflectindo sobre a LIBERDADE e como e quanto iremos trabalhar no sentido de desenharmos um futuro equilibrado onde todos possamos viver e conviver em paz e tolerância.

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