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A INVISIVEL MÃO QUE EMBALA O BERÇO

GABRIEL VILAS BOAS
Hoje, em muitas escolas, os alunos não tiveram aulas, porque grande parte do pessoal não docente fez greve. 
O assunto não tem merecido grande atenção da população, mas devia porque as reivindicações desta classe profissional são muito justas. 
Depois de verem as suas carreiras congeladas durante anos, mantendo um salário médio que não chega aos 600 euros, os agora pomposamente chamados “Assistentes Operacionais” assistem à degradação e desqualificação completa do seu trabalho, quando a solução encontrada pelo ministério da educação é o despudorado aproveitamento das pessoas inscritas nos centros de emprego para preencher provisoriamente postos de trabalho de necessidade permanente. 
Aparecem nas escolas pessoas que não fazem a mínima ideia do que é o ambiente escolar, como lidar com crianças, adolescentes e jovens, prontos para ganhar três euros, à hora, em contratos dum mês ou menos. 
Esta ideia de que para tomar conta das crianças qualquer um serve é indigna e completamente errada. Quem trabalha numa escola ou simplesmente quem tem filhos em idade escolar sabe, perfeitamente, que são necessárias uma série de qualificações sociais, humanas, afetivas e técnicas para lidar com os alunos portugueses. 
Como é possível achar que um mecânico ou um trabalhador da construção civil podem lidar com crianças de oito, dez ou doze anos, com eficácia e ponderação? Estes profissionais são altamente qualificados, pois muitas vezes têm de gerir conflitos entre jovens, zelar pelo mobiliário escolar, desempenhar múltiplas tarefas na escola, gerir comportamentos provocatórios. Cabe-lhes verificar se os nossos filhos se alimentam corretamente, cuidar da segurança das crianças, impedir que gente mal-intencionada introduza nas escolas vícios nefastos. Devem estar aptos a prestar serviço numa biblioteca, na reprografia ou atender e fazer chamadas institucionais. 
Tanto lhes cabe comunicar com os pais como com instituições públicas e privadas.  
É um trabalho precioso e de muita responsabilidade que não pode estar a cargo de qualquer um que aceita o trabalho porque não o pode recusar, mas que revela total inaptidão para a tarefa. 
Os pais e encarregados de educação devem perceber que não pode servir qualquer um para ajudar na educação dos seus filhos, porque isso é uma irresponsabilidade e uma falta de amor evidentes. 
A escola não é um armazém nem as crianças que nela aprendem são objetos. A escola é um sítio fundamental para a vida de qualquer pessoa e nela deve apenas trabalhar quem está qualificado para o fazer. 
O ordenado ganho por estes profissionais já é tão baixo, face àquilo que lhes é pedido, que torna ainda mais injustificada a atitude do ministério da educação em recrutar, sem critério, assistentes operacionais, à hora, para as escolas portuguesas.
Não é possível aceitar que tenhamos voltado ao tempo do trabalho à jorna, sem direitos, completamente desregulado, como era típico do tempo da ditadura. Não é aceitável o silêncio culpado do ministro Crato, sempre tão lesto a humilhar professores, que neste assunto fica calado como um rato. 
Mais do que ficar aborrecido com o facto de os filhos não terem hoje aulas e não saberem onde os deixar enquanto trabalham, os pais e as mães portugueses devem compreender e apoiar as justas reivindicações desta gente que há muito tempo faz o seu trabalho e o do colega que se aposentou, que vê o seu trabalho desqualificado, desconsiderado e entregue ao desempregado que estiver mais à mão e aceitar trabalhar por uma senha de refeição.

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