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GATOS E HOMENS

REGINA SARDOEIRA
Um gato não é uma pessoa. Porém, quando vive connosco, adquire e transmite sensações, eflúvios, sentimentos, enfim todo um conjunto de efeitos recíprocos que acabam por fazer dele membro da família, parente próximo e íntimo. Ao cabo de alguns anos de convivência, o gato humanizou-se e nós felinizamo-nos, estabelecendo regras tácitas de partilha de espaços, leituras concordantes de gestos e de sinais e toda a panóplia de pequenos/grandes detalhes constitutivos de uma relação verdadeira. Citando Montaigne, «Quando brinco com a minha gata, quem sabe se ela não está a brincar mais comigo do que eu com ela?» (Montaigne,1533-1592, Essais) , ouso atribuir características muito próximas das humanas aos felinos e afirmo, sem rebuços, que eles pensam e que fazem grande esforço para nos entenderem e comunicarem os seus pensamentos.
Tenho um gato e, até há alguns anos atrás, tinha dois. Um deles morreu e aquela súbita e inesperada desaparição desse elemento da família, da casa, do quotidiano representou, primeiro, um choque, depois, uma saudade intensa e agora, uma espécie de conformação, não isenta de nostalgia. Percebo que, apesar de não estar fisicamente aqui, a sua presença flutua nos espaços, os sítios que ele elegia para dormir ou contemplar persistem os seus sítios e o outro, companheiro de sonos, de brincadeiras e de algumas lutas, alterou comportamentos, como se precisasse de mais afeto e atenção, agora que está só. O espírito do gato permanece aqui, e esta sensação não é uma fantasia ou um surto da imaginação, mas a realidade provada e comprovada diariamente.

Serve esta espécie de introdução para aludir ao fenómeno das relações humanas, sejam elas de pessoas para felinos, sejam elas de pessoas para outras pessoas. E eu pergunto: como pode anular-se, com um gesto ou com uma palavra, o efeito de uma relação? Como pode exorcizar-se o espírito do ente amado e afastá-lo para sempre, quando com ele privámos na intimidade? Como pode tratar-se com frieza ou olhar com indiferença aquele que um dia partilhou o nosso mundo, passeou nos nossos sítios, escutou a nossa voz, sentiu o sopro do nosso espírito e o calor da nossa carne?

Escrevo estas perguntas e só encontro a minha resposta: não pode! Cada um desses que connosco caminhou, por algum tempo, e que depois deixámos ir, ou se foi de livre vontade, integra a nossa história pessoal que, de uma forma ou de outra, nunca mais será a mesma! Cada um desses entes (gatos ou pessoas) a quem deixámos entrever a intimidade da nossa vigília, do nosso sono, das nossas grandezas e das nossas misérias persiste, com um rasto de presença, não só no futuro da nossa história, mas também na alteração do nosso passado e nas emoções do nosso presente. Doravante, novos marcos ganharão ênfase na estrada por onde caminhávamos, certas curvas encontrarão razão de existir, as encruzilhadas e os desvios adquirirão substância e mesmo os retrocessos, as hesitações, o cansaço, próprios de qualquer caminhada, serão vistos e conceptualizados de modo novo, à luz da presença, feita ausência, desse que passou por nós para nos deixar em seguida.
Confesso que não entendo os homens, principalmente os homens-machos, os seres humanos do sexo masculino, não entendo como podem entrar (visceralmente falando) no recesso mais íntimo de uma mulher e aí deixar a sua marca, e depois sacudirem o pó dos sapatos e partirem para nunca mais se lembrarem daquela a que ousaram recolher-se. Não entendo como podem aceitar a oferta generosa e afetiva da interioridade de uma mulher, servirem-se dessa dádiva, no auge de uma mera explosão fisiológica, repetirem o gesto uma e muitas vezes, sabendo que o recetáculo que se lhes rende traz consigo toda uma plêiade de emoções e sentimentos, e a seguir partirem para os seus mundos, passarem para outras experiências, onde farão exatamente os mesmos gestos, com inteira sensação de honestidade. Não posso absorver que sejam capazes de usar a paixão sincera de uma mulher, que deixem consolidar-se o amor, que os aceitem, paixão e amor, como se fossem um direito seu e, mais tarde, no auge do enfado, enviem sinais de necessidade de fuga, aviltem quem os ama com desconsiderações e mentiras e possam, logo a seguir, cair em outros braços, seguir em frente com esses braços e com o corpo todo, e achar que são homens a sério, mesmo deixando rastos de desespero pelo caminho. Penso então que terá que haver para estes predadores um castigo, penso que falta inventar a lei que os puna, penso que, a partir do momento em que cometeram o crime do abuso, jamais deveriam ter direito ao compromisso honesto com outra mulher. Julgo mesmo que essa punição virá, estará escorregando, aos poucos, para o âmago da vida construída após a fraude e que apenas uma questão de tempo os impedirá de ver a própria ruína.

Afirmei que não compreendia essa subespécie de humanos, que são os homens, na medida em que também não entendo os atos de intimidade como meras excreções fisiológicas, como explosões de fluidos orgânicos cujo escoadouro pode ser o ventre de qualquer uma. Atos de intimidade são momentos de partilha durante os quais se entrega tudo e nessa tarefa estão implicados mente e corpo, emoção e sentimento, sensualidade e afeto: como pode um homem propiciar esse ritual fantástico e depois sair, batendo a porta, para não regressar nunca mais? Como pode ele servir-se do recetáculo que o acolheu e, no fim, deixar umas notas de banco sobre a mesa e partir para as suas outras vidas?

Comecei por falar das marcas existenciais que, infalivelmente, deixámos uns nos outros sempre que confluímos, e aí regresso para garantir que todos esses que um dia ousaram tecer histórias de fraude, junto de quem os aceitou de corpo aberto, de mente atuante, de espírito livre, ficarão para sempre com esse rasto de presenças, dentro de si, por mais vidas que construam, por mais famílias que julguem que estabeleceram, por mais honorabilidade que julguem possuir. E, tarde ou cedo virão assombrá-los como se fossem fantasmas e povoar-lhes sonhos e vigílias, porque é este o tecido das relações humanas.

Nada direi sobre as mulheres neste domínio, não as conheço de experiência feita, na intimidade da relação visceral; mas, quanto a mim, declaro que, do mesmo modo que sinto as emanações todas do meu gato persa, que por aqui viveu nove anos e comigo construiu uma história, sinto também as energias de outras ligações que, aparentemente, passaram, porque o outro lado dessas histórias se ausentou
fisicamente; e não entendo como pode esse outro lado criar novos laços, fazendo tábua rasa dos antigos.

Julgo que a humanidade decaiu lentamente, tão lentamente que nos descuidámos e não demos conta. Julgo que atingimos o fundo e que, para lá do fundo, só resta a ignomínia do infra-humano que já começamos a ser; nunca me pareceu tão certeiro o grito de repugnância de Zaratustra quando ouviu o lamento do Mais Hediondo dos Homens e, com Nietzsche, esse homem que nasceu póstumo e de quem, por isso, são tão atuais as profecias, proclamo: «Agora é preciso destruir o homem para que o Super-Homem viva!» (F. Nietzsche, Assim Falava Zaratustra).

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