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BIRD Magazine

ABISMO (OU DE COMO CUMPRIMOS DESEJOS DENTRO DO ABISMO)

        Pieta(detalhe), de William Bouguereau. 
Dedico à Filomena Teixeira, mãe do Rui Pedro.

Era um desejo que eu trazia cá por dentro que quase me pareceu impossível de cumprir.
Era um desejo em forma de vontade, que nem chegava talvez a assemelhar-se a uma ambição. Era simples, pequenino, despretensioso, mas que, ainda assim, me pareceu quase impossível de concretizar.
Durou mais de um ano, essa vontade. Não se apagou. E mais duraria, outro e outro e outro ano, até conseguir concretizá-la. E mais duraria, parafraseando Camões, se não fora, para tão simples desejo, “tão curta a vida”.
Em janeiro de 2014, eu publicava a minha antologia de contos ATÉ SER PRIMAVERA. O desejo que eu trazia dentro de mim estava, portanto, guardado nesse livro. Estava conjugado, portanto, na forma de palavras. Não eram palavras que as levassem o vento. Não eram palavras que me tivessem saído ligeiras da ideia, não eram palavras sem peso. Eram palavras que, juntas, formavam um pequeno conto. Um conto que não ganhara um título fácil, não era um título sem peso: ABISMO.
ABISMO: eram palavras escritas, da primeira à última letra, a pensar numa pessoa em especial. Eram palavras que estavam guardadas dentro de mim e quiseram sair para a forma escrita e, mais do que isso, passaram a ser palavras publicadas. Era justo, então, na minha ideia, que a pessoa a quem dedicara cada gesto na escrita daquele conto, cada letra, cada pausa, cada cadência, cada respirar, cada sopro, tomasse conhecimento de que havia um conto que lhe era dedicado. Era para a Filomena, mãe do Rui Pedro. É assim que a senhora é conhecida: Filomena. Qual Filomena? A MÃE DO RUI PEDRO.
Comecei logo a tratar de arranjar forma de a contactar. O meu desejo era simples, tão simples e pequenino: eu queria, apenas e simplesmente, fazer-lhe chegar o livro, para que ela soubesse que o conto ABISMO lhe era dedicado, para que ela, se quisesse, pudesse lê-lo. Eu pretendia concretizar essa minha vontade – a de lhe fazer chegar o livro – da forma mais simples, da forma que causasse o mínimo de perturbação à sua vida, sem querer criar qualquer tipo de transtorno. Pensei então que a melhor forma seria fazer-lho chegar via correio. Não era também minha pretensão obter o endereço da senhora, bastava-me que alguém, de boa-vontade, que a conhecesse, se dispusesse a fornecer-me um endereço para onde eu pudesse enviar o livro e que essa pessoa de boa-vontade se comprometesse a entregar-lho. Para desejos simples, procedimentos simples. 
Há pessoas que não gostam de ajudar. Nunca tive dúvidas disso. Não estão vocacionadas para ajudar. Estou constantemente a deparar-me com essas pessoas e com o oposto dessas. E logo havia de me deparar com alguém que dizia ser seu familiar, que, na sua ânsia de não querer saber, de não querer ser parte no assunto – que me desculpem todos, mas foi essa a impressão que me ficou –, logo começou a entrar em contradições: que não, que não me arranjava uma morada, que a senhora estava sempre a ser incomodada por estranhos (nada que eu não soubesse ou de que não tivesse a mais clara consciência); que eu fosse lá, a Lousada, e procurasse por ela. Mas, então, o incómodo para a senhora não seria muito maior se (mais) uma pessoa estranha andasse por lá a perguntar por ela, a tentar falar com ela? Eu disse ao senhor: o senhor não tem vontade de ajudar, não tem. Pronto. Desejei-lhe sorte na vida. E despedi-me. Isto foi tudo por mensagem. Foi um contacto que eu tinha conseguido e que me parecia aquilo que vulgarmente designamos de “luz ao fundo do túnel”. Enganara-me. 
Posto isto, foram contactos e mais contactos, pesquisas na internet, redes sociais, buscas pelos canais de televisão, por instituições ligadas ao Rui Pedro e a crianças desaparecidas, só não contactei com as autoridades porque não quis chegar lá. Muitas mensagens enviadas. Nem uma resposta.
O tempo, essa heradeira que tudo cobre, foi passando, e eu sempre com o meu desejo aconchegado, mantido e bem hidratado cá dentro num cantinho.
De vez em quando, publico um excerto do conto ABISMO, no meu mural do Facebook. Tenho o hábito de partilhar muito do que publico. Gosto de ver reacções ao que escrevo. 
E foi então que apareceu aquela pessoa de boa-vontade que eu procurava. E tudo foi feito como eu tinha entendido, ou seja, via CTT, com o mínimo de perturbação possível.
Estou eternamente grata a essa pessoa e já tive a oportunidade de lho dizer. Fez o apanágio ao título metafórico do livro – não desistir: ATÉ SER PRIMAVERA.
O livro chegou às mãos da Filomena, a Filomena já leu o conto.
ABISMO
Diz a mãe:
«Desci a profundidades que julguei não me estarem destinadas.
Por vezes solta-se um tempo que atravessa tudo, atravessa espaço, e parece atravessar o próprio tempo, não deixando margem para mais nada que não a saudade profunda que se crava como um punhal no meu peito. É como se eu tivesse outra vida e volta e meia ando a vivê-la, sombras encarniçadas, sobre mim como fantasmas. Não têm nome as pedras que piso, ou sequer os dias. Assola-me o frio cada dia mais frio. Estremeço a cada instante, como assombrada por uma debandada de morcegos, varados por um tremor inesperado na noite escura, no negrume lúgubre da noite. De repente, um bafo morno como os que antecedem as tempestades.
Aprendo a viver a vida a metade, as cicatrizes crescem-me no corpo diminuído. Dizem que vivo para ser forte, mas só eu sei dos braços tenebrosos em que caí, só eu sei que não vejo o tempo, que vejo a demora incessante que leva a voltar-me a luz aos olhos.  
E a casa: há uma retentiva por toda a casa, da tua presença. A casa está cheia de memórias, são as memórias que suportam a casa.»*
Diz o filho:
«Fazes-te a juntar peças, a recolher evidências: provas, fotografias e amostras. Escreves tudo, apontas as horas. Sabes o que os outros pensam disso, que contribuis para o enorme arquivo que é o mundo do crime, do caos por resolver, dos horrores que nunca chegam a ser vingados. Sabes o que pensam, mas prossegues, silenciosa. Fazes o teu retiro nas solidões do deserto, alimentas-te da água da esperança e das raízes que te seguram pelos fios finos do tempo. Para os que andam em viagem pelos longos e inóspitos caminhos, não existe melhor visão do que uma fímbria de luz. Mas tu não vês a luz. Caminhas rente à escuridão.
Tu, que andas por aí perdida, entre a multidão, viajando por entre as trémulas aragens do vento, tu. És tão distante de tudo, que mais pareces irreal. Que guardas na memória? O que vês no abismo?»*


FILOMENA TEIXEIRA
A Filomena recebeu o livro e leu o conto. E a resposta não se fez esperar. A Filomena deixou um comentário no meu mural e comunicou comigo por mensagem, sensibilizada com o conto, agradecida.
Cara Filomena, não pode imaginar a honra que é para mim saber que tem o conto / livro nas mãos. Tenho por si o maior respeito e admiração. Não sei explicar a sua dor, mas sei que não há maior dor no mundo, isso eu sei.
Escrevi o conto a duas vozes, mãe e filho, como se me fosse soprado ao ouvido um acanhado entendimento, na minha imensa pequenez, do que é esse (não) viver.


ABISMO
Diz a mãe:
«O passado é planta trepadeira que me cobre o corpo e me suga o líquido. E já não me recordando como então chorei, choro de novo agora.
Porque esta vida é um veneno lento, porque consome lentamente o que sobra de mim.»*
*Excertos do conto ‘ABISMO (de um filho desaparecido sem deixar rasto)’, em ATÉ SER PRIMAVERA (anthologia de contos), de Anabela Borges, Pastelaria Studios Editora, 2013. Crónica de Anabela Borges.

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