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"A VIDA É UMA PEÇA DE TEATRO"

GABRIEL VILAS BOAS
Certo dia, Shakespeare escreveu que “a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso, cante, dance, ria, antes que a cortina desça e a peça termine sem aplausos”.
Não precisamos de fazer das nossas vidas uma peça de teatro, mas a vida de cada um ficará muito mais rica se deixarmos que o teatro faça regularmente parte dela. Como já escrevi noutras ocasiões, o teatro é um espetáculo único, total, apaixonante. É um privilégio fazer parte desse mundo; para o espectador é um deleite.
No Dia Mundial do Teatro, desejo apenas transmitir-vos um pouco da minha paixão por esta arte maravilhosa. Podemos vivê-la sob várias perspetivas que de todos os ângulos sairemos satisfeitos e bem mais ricos. 
A mais arrebatadora forma de sentir o irresistível poder da arte de Molière é representar, embora também seja a mais exigente. A mais fácil é sentarmo-nos na plateia e assistir a uma peça de teatro. 
Devíamos ter o saudável hábito de ver, no mínimo, uma peça de teatro por mês. É um vício bom que enriquece a alma, o espírito e o corpo, que redescobre no teatro gestos esquecidos nas brumas da memória. 
Como todas as coisas extraordinárias, o teatro não é uma arte fácil. Nela apenas triunfa quem tem talento, persistência e personalidade. Uma professora de teatro que tive costumava dizer, frequentemente, que “no teatro não podemos ter medo do ridículo”.

Saber deixar a pessoa que somos e mergulhar na personagem que nos coube é o primeiro grande desafio que o teatro coloca ao candidato a ator. Quem vence este primeiro obstáculo, em cima do palco, frente a um público que conhece do contacto social, está apto para que o encenador trabalhe o seu talento, sob os auspícios das grandes obras dos dramaturgos. Entre estes, prefiro Sófocles, Shakespeare e Molière. 

Um ator de teatro não pode aspirar à glória social nem a uma conta bancária de relevo. Trabalhará sempre por paixão, sem contar as horas noturnas consumidas em ensaios nem reparar no magro salário ou no pouquíssimo público presente na plateia. Mas nada há a lamentar: as paixões são loucas, insensatas, arriscadas… maravilhosas!

O teatro também é exigente com o espectador. Em primeiro lugar, obriga-nos a vencer o sedentarismo que nos envenena o espírito. Depois necessitamos de gastar dinheiro no bilhete, nas viagens, no estacionamento. Por último, requer algum conhecimento sobre a peça a que vamos assistir. Para aqueles que estão habituados às coisas fáceis e sem sabor desta vida, estas são razões mais do que suficientes para desistir. Para aqueles que gostam de desafios, o teatro é uma sedução permanente.

O meu conselho é que deixe que o teatro enriqueça a sua vida. Vença a inércia, entre num teatro e assista a uma peça. E regresse na primeira oportunidade. São raros os casos de intolerância a este medicamento cultural. Hoje é um ótimo dia para começar. Há Teatro um pouco por todo o lado: no Porto, no Teatro Nacional São João temos a peça “Fim das Possibilidades”; em Lisboa, no Teatro Nacional D. Maria II, pode-se ver “Pirandello”. Em ambos os casos a entrada é livre. A minha sugestão para quem está próximo de Vila Real é a imortal peça de Molière “O Avarento”, levada à cena, no teatro local, pela companhia Ensemble – Sociedade de Actores, onde pontificam Jorge Pinto e Emília Silvestre.
Shakespeare tinha absoluta razão: a vida é uma peça que não admite ensaios, por isso deixe de ensaiar mais desculpas e vá ao Teatro!

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