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MANOEL DE OLIVEIRA

Manoel de Oliveira morreu esta quinta-feira, 2 de abril de 2015
Realizador mais velho do mundo em actividade, autor de trinta e duas longas-metragens , Manoel de Oliveira nasceu no seio de uma família da alta burguesia nortenha, com origens na pequena fidalguia, há 106 anos, a 11 de dezembro de 1908.

O que ensinou a vida a um homem centenário que atravessou o século XX? Que se nasce contra vontade e não se é senhor do seu destino. Que o mundo é incompreensível e que a dúvida deve ser a regra. Uma conversa de Pedro Mexia com o histórico realizador, publicada originalmente em 2013 e que o Expresso agora republica, no dia em que perdemos o mestre.
Este breve encontro deveu-se à generosidade de Manoel de Oliveira e dos seus filhos. O cineasta recebeu-nos na sua casa, no Porto, visivelmente debilitado, com dificuldades respiratórias e um discurso espaçado, às vezes incompleto. Mas Adelaide Trêpa disse-nos que o pai ficou bastante mais animado a conversar sobre cinema, ainda que o seu estado de saúde se tivesse agravado justamente nesse dia. Oliveira, que tinha estado internado em Julho, com uma insuficiência pulmonar, foi hospitalizado, com uma infecção bacteriana, no dia a seguir a esta entrevista, e, à data do fechado desta edição, ainda não regressou a casa.
No último ano, o mais velho cineasta em actividade estreou “O Gebo e a Sombra”, lúgubre e oportuna reflexão sobre a miséria material e moral, e fez, para Guimarães – Capital Europeia da Cultura, a curta “O Conquistador Conquistado”. Ao que soubemos, o projecto de filmar, no Brasil, “A Igreja do Diabo” (a partir de Machado de Assis) não terá seguimento, mas, segundo a família, o realizador não quer desistir de “O Velho do Restelo”, com textos de Camões, Cervantes e Pascoaes. Interessado, afável, mas cansado, Oliveira começa por pedir que apaguem a televisão. E responde, atenta e pausadamente, a algumas perguntas. As respostas são aforísticas, pessimistas, às vezes enigmáticas. O realizador interroga a ontologia do cinema, defende o primado da dúvida face à certeza, e resiste, ainda e sempre, à incompreensão. 
O Expresso começou a publicar-se há 40 anos, e é espantoso pensarmos que há 40 anos o Manoel de Oliveira ainda só tinha dirigido duas longas de ficção. Embora isso não tenha acontecido por vontade própria, sente que ganhou alguma coisa em ter esperado tanto tempo?
O meu cinema tem um lado histórico, incluindo o “Aniki-Bobó” [1942], que se tornou um filme extraordinariamente popular. Mal principiado e bem acabado. (risos). 
Mas depois teve aquele longo hiato de trinta anos até “O Passado e o Presente” [1971]. 
Depois do “Aniki-Bobó” estive muito tempo parado, cerca de catorze anos, mas o cinema nunca esteve parado na minha cabeça.
Aliás, os seus projectos não-realizados são tantos ou mais do que os terminados.
São muitos. Mas eu digo que o meu cinema é de certo modo histórico porque o “Aniki-Bobó” representa um pouco a minha infância, e depois os filmes foram tomando um carácter mais histórico. A maior parte dos filmes era uma conversa histórica, evocavam factos históricos. E também me comecei a interessar pelo lado histórico do cinema. O cinema hoje é tido como movimento. Mas o movimento não existe.O que existe são as coisas a moverem-se no espaço. E isso ocupa tempo. Os Lumière, quando fizeram três vezes um filme sobre a saída dos operários das fábricas, quiseram fazer isso, imprimir movimento às figuras.
Além dessa noção da história do cinema, também está presente nos seus filmes o passado histórico, culminando na ousadíssima ideia de filmar a História de Portugal através das suas derrotas, no “Non” [1990]. Porquê essa visão da História como história das derrotas?
Camões põe o Velho do Restelo a dizer “cuidado com as vitórias, porque podem redundar em derrotas”. E isso tem acontecido. Tudo o que gente faz é um prenúncio de derrota. Houve um filósofo que disse que a História acabou, porque agora se escrevem romances. E num filme histórico ninguém conta o que se passou exactamente como se passou.
A História é de certa forma uma ficção?
É uma ficção, e quanto menos sérios formos mais nos ilude a convicção de que estamos a fazer um filme histórico. [Mudando de assunto, ou talvez não]. No “Guerra e Paz”, a certa altura, um nobre [o príncipe André] é ferido e sabe que vai morrer, e então pergunta “o que é a morte”? E depois olha em volta do quarto e encontra uma porta. E ele diz então: “Ah, é uma porta”. E eu acho muito feliz. É uma porta, que tem uma saída, mas desconhece-se a entrada.
Além da História há outro tema central na sua obra, o dos amores frustrados. Porque é que na relação entre os homens e as mulheres também escolheu a frustração?
É a derrota. A vida é uma derrota. A gente vive na derrota. Nasce contra vontade, e não é senhor do seu destino. 
Falou na imagem da porta. Em alguns dos seus filmes, como “Acto da Primavera” [1963 ou “Benilde” [1975], interroga-se sobre o outro lado da porta. Pensa que há alguma coisa para lá da porta?
É uma dúvida. São Paulo dizia que se Cristo não ressuscitou toda a nossa fé é vã. A própria religião é duvidosa. Ninguém pode garantir que para lá da porta há isto ou aquilo. São Paulo, que é um dos grandes, escreve “o que eu digo é fruto do pensamento, mas o pensamento erra”. Mesmo naquilo que parece concreto e plausível. [Esquece-se do que ia dizer]. A memória falha-me muitas vezes. Mas será que devemos confiar na nossa memória? (risos).
Um dos aspectos mais admiráveis do seu percurso é a persistência, a noção de que tinha um caminho a seguir, mesmo quando o público não o compreendia. E isso começou logo com a pateada a “Douro, Faina Fluvial” [1931], continuou com o facto de ter feito uma longa-metragem de tema religioso em pleno PREC [“Benilde”], e teve o apogeu com os ataques ao “Amor de Perdição” [1978], quando foi exibida a versão televisiva.
Eu fui criado numa família católica. E um amigo do meu avô, que era padre, foi visitar outro padre que estava moribundo numa cama de hospital e disse-lhe:

“Ah, mas tu estás com óptimo aspecto”. E ele respondeu-lhe: “Eu não me queixo do meu aspecto”. Isso responde a muita coisa. O aspecto não é concludente. 

Mas a convicção de que o seu cinema era diferente ajudou-o a não desmoralizar?
Eu admiro os santos, muito mais do que os revolucionários.
Porquê?
Porque os santos jogam no abstracto.
Ao longo da sua carreira discutiu-se muito a que publico é que se dirigia. Quem é o seu público?
O meu público é aquele que vai ver os meus filmes. O cinema dá-nos uma visão da vida.E a vida é um mistério.
Propõe aos seus espectadores que estejam abertos ao enigma?
O mundo é complexo, incompreensível, talvez não tanto para quem tem uma crença nalguma coisa firme, mas para aqueles onde a dúvida prevalece. E o que proponho é a dúvida. A dúvida é uma maneira de ser.
E mantém a fé no cinema? Ou também tem dúvidas?
É a mesma coisa que termos fé na honra. O que é a honra? O que é um gesto honroso?

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