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A POBREZA ENCARECEU

GABRIEL VILAS BOAS
“Conduzem-me até à fonte mas não me deixam beber!”
Há duas semanas Paulo Guinote encerrou o seu blogue “A Educação Do Meu Umbigo”, provavelmente o blogue sobre Educação mais lido em Portugal. Estava farto e sem paciência para tanto desrespeito por parte das medidas governamentais que cegam a nossa juventude. 
Nos dias que correm apavora-me ler qualquer notícia sobre qualquer medida que o MEC tenha tomado ou tenha ideias de tomar. Envergonhadamente, alguns jornais, durante a pausa letiva da Páscoa, fizeram referência ao facto de, durante este ano letivo, o Governo ter cortado, definitivamente, o apoio às visitas de estudo aos alunos carenciados, ou seja, alunos que usufruem do Escalão A ou B da Ação Social Educativa. 
Na prática o MEC retira a possibilidade das crianças portuguesas, cujos pais estão desempregados ou ganham o salário mínimo, possam ver uma peça de teatro, entrar num Centro de Ciência Viva, conhecer um Parque Biológico, pois os seus pais não podem dispor de 15 euros para pagar a deslocação e o bilhete de entrada (já com desconto). 
Esta situação revolta-me especialmente já que devido à minha condição de professor convivo todos os dias com estes alunos que passam nove/dez anos sem entrarem num museu, assistir a uma peça de teatro, frequentar um centro de ciência experimental. E como eles estão ávidos dessa luz cultural ao fundo do túnel. 
Não posso aceitar que um Agrupamento de Escolas de 2200 alunos não disponha de 5/10 mil euros anuais para levar os seus alunos carenciados a ver aquilo que tanta falta lhes faz, como se apenas tivessem direito a comer arroz e massa toda a vida e tivessem de estar eternamente gratos por isso. 
O Ministério que Nuno Crato queria implodir não tem dinheiro para atender a estes alunos, mas acha razoável gastar alguns milhões numa prova de eliminação de professores da carreira docente, para satisfazer a sua sede de vingança sobre a classe que devia apoiar.
Tenho pena que Nuno Crato não evoque agora o superior interesse das crianças, que não apareça nos jornais e nas televisões a dizer que está a tratar da educação dos jovens portugueses, pois nessa altura um jornalista digno desse nome podia-lhe perguntar com que ousadia sugere um Ministro da Educação que as escolas públicas portuguesas vão buscar, ao lucro das papelarias e bares escolares, o dinheiro para pagar as visitas de estudo dos alunos carenciados. Não saberá o senhor que esse espantoso lucro de um /dois cêntimos por produto é todo aplicado para dar um suplemento alimentar às crianças que não jantaram nem tomaram o pequeno-almoço em suas casas, porque os pais não tinham nada que lhes dar? 
Já não bastava que os alunos vindos de família pobres tivessem de se confrontar, diariamente, com os colegas que veem televisão por cabo, que usam a internet no smartphone, que vão regularmente ao cinema ou a uma exposição com os pais. Agora também devem ficar privados do único momento anual a que acediam a um mundo que normalmente lhes está vedado. 
Ao que parece a pobreza está cara! E então a pobreza de espírito nem se fala…

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