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LAMENTO NÃO PODER SALVAR O MUNDO

REGINA SARDOEIRA

Nos últimos dias desapareceram alguns criadores. Embora o tempo e a vida dos homens tenham esta
característica – nasce-se e, mais tarde, morre-se – o certo é que a finitude, quando aparece, apanha todos desprevenidos, como se, rendidos à existência, ao pulsar do coração e das veias, ao fluxo regular da respiração, sentíssemos que nenhuma outra condição poderia vir um dia a servir-nos. E, estando ainda vivos, sentimos o choque das ausências que vão acontecendo.

Manoel de Oliveira parecia ser um dos tais, tornado imortal e somando dezenas e dezenas de anos de longevidade até ultrapassar a centena. E, mesmo desconhecendo o homem e a obra, ouvíamos dizer: “O mais velho cineasta em actividade a nível mundial completou cento e quatro, cento e cinco, cento e seis anos de idade…” e congratulávamo-nos. Congratulávamo-nos por ele estar vivo, apenas, e ser, aparentemente, um triunfador da decadência e da morte? Congratulávamo-nos por ele ser português e, ao mesmo tempo, o mais velho cineasta do mundo, ainda apto para a arte de filmar? Congratulávamo-nos por sentirmos apreço pelas obras que ia produzindo, desejando-lhe longa vida para que nos oferecesse mais e mais?
Mesmo aqueles que nunca puseram os olhos numa longa ou curta-metragem de Manoel de Oliveira e até os que francamente o detestaram, enquanto realizador de cinema e fugiam dos seus filmes a sete pés (eu vi isso acontecer quando assisti à longuíssima metragem “O Amor de Perdição”) se sentiam desvanecidos quando vislumbravam aquele homem, mais do que centenário, e ouviam dizer que tinha projectos e continuava a filmar.
Quanto a mim, percebi-o um dia, quando li algumas palavras por ele proferidas numa entrevista ao JN. Soube por que razão, a câmara se movimenta devagar nas mãos do cineasta e a acção se desdobra sem pressas. Simplesmente, Manoel de Oliveira, movido por um impulso, metafísico ou não, situava a máquina num determinado ponto, e captava, com ela, o fluir manso do tempo e a circunstância vária do espaço. Não sentia necessidade de fazer girar o mecanismo, criando vertigem; pelo contrário, deixava-a fazer o trabalho sozinha, depois do momento em que decidira colocá-la, exactamente, ali. 
Se o tivesse feito até aos limites possíveis, talvez pudesse mostrar a incrível acção de uma planta a emergir da terra e a florir e a dar fruto e a estiolar perdendo as folhas. De certo modo, realizou esta proeza, mostrando que um momento de presumível quietude, está prenhe de dinamismo; mas na pressa desenfreada com que vivemos escasseia-nos o tempo para percebê-la ou ficarmos, tão só, maravilhados. 
No filme “O Convento” há uma imagem repetida uma série de vezes. Parece a mesma e mostra uma igreja branca, ao fundo, no centro de um vale. É e não é a mesma imagem, a mesma construção, a mesma brancura: porque o dia passa, as cores alteram-se, a luz esbate-se e o que vemos é a passagem do tempo presa e solta naquela cena que só é sempre igual para quem estiver distraído ou desinteressado. O realizador soltou o tempo e fez com que pudéssemos usufruir dessa libertação, captando os segredos das subtilezas presentes nos pequenos nadas que realizam a mudança.
Manoel de Oliveira não foi reconhecido em Portugal e, se de vez em quando lhe aludiam, era na justa medida em que os ecos vindos de outros países traziam notícias de que recebera este prémio e aquele, sendo presença assídua em festivais europeus de cinema e não só.
Trabalhou com artistas estrangeiros: Catherine Deneuve, Michel Piccoli, John Malkovitch que aqui esteve na cerimónia do seu funeral e para quem o mundo do cinema sem Manoel de Oliveira não será nunca mais o mesmo mundo.
Mas também se calaram vozes de escritores como Gunther Grass, esse polémico prémio Nobel alemão, marcado por uma presumível culpa de ter em tempos servido na Waffen-SS durante o terceiro reich e contudo sentindo que, tal como diz Oskar no seu romance “O Tambor” , “Não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança.”, ou em “Descascando a Cebola”: “No instante em que invoco o garoto de treze anos que eu era na época, em que o tomo como incumbência, e me sinto tentado a julgá-lo, ele escapa-me. Ele não quer ser avaliado ou julgado. Foge para o colo da mãe e diz: ‘Eu era apenas um garoto, apenas um garoto.”
Calou-se também Herberto Hélder, essa figura esquiva e rendida ao anonimato, considerado um dos mais originais poetas de língua portuguesa, figura misantropa, em torno de quem paira uma atmosfera algo misteriosa uma vez que recusou homenagens, prémios ou condecorações e se negava a dar entrevistas ou a ser fotografado. 
E outros se calarão ainda, deixando, decerto, palavras e imagens por acrescentar ao acervo da humanidade. 
Por mim, entristeço-me, como me entristeci antes, em 1994, quando morreu Miguel Torga e eu queria ler o XVII volume do Diário e o XVIII até ao infinito, e depois Saramago, em 2010, e eu soube que nenhum outro romance novo viria a ler deste gigante da literatura. 
Mas se desce sobre mim essa sombra de melancolia é ainda porque creio firmemente que estas e outras desaparições têm um cunho simbólico, pois são a marca do fim de um tempo glorioso e pleno, depois da qual estamos rapidamente a emergir num atoleiro de mediocridade.
Leio os novos escritores à procura do génio, vejo a obra de novos cineastas, buscando a novidade, oiço a nova música, vejo a nova pintura…mediocremente, ou apenas excepcionalmente, consigo vislumbrar os continuadores destes que aqui refiro e de muitos outros que levaram a criação a soberanos píncaros, para caírem, depois, na inevitabilidade da morte física que lhes susteve o gesto para todo o sempre. 
Creio que vogamos todos numa imensa e lamentável ociosidade e pequenez, creio que as opções de vida que vamos colectivamente fazendo ou deixando que façam por nós, estão a ceifar o génio e a travar o fluxo criador. Vivemos arrebanh

ados, sugados por écrans de todos os géneros, tamanhos e fibras, colámos palavras e imagens e sons e chamamos-lhes nossos, tendemos para uma aterrorizante uniformidade, no seio da qual o criador decide calar-se, descrente da própria sanidade.

A qualquer esquina somos visitados pelo escritor, pelo poeta, pelo artista; e quando os perscrutamos um pouco, nada mais encontrámos a não ser o lugar-comum, a necessidade de ostentação e a fraude.
Tento analisar este fenómeno. Percebo que é um sinal dos tempos. Percebo que a mediocridade se arvorou em grandeza e a grandeza se confundiu, remetendo-se à obscuridade. Percebo que se levantaram os néscios, bruscamente investidos de um poder que lhes foi dado pela facilidade informativa e comunicativa, crentes de que propalar mensagens tíbias e angariar adeptos é marca do seu prestígio. Compreendo os silenciosos, esses que temem ser confundidos nas arenas públicas e preferem calar-se. Gostava que alguns quebrassem os muros atrás dos quais se acoitam, ensimesmados, para poder encontrar augúrios capazes de redimir os tempos.
Estamos todos reféns de uma época de gigantesca crise, baçamente representada pelas cifras contraditórias com que nos vão acenando quotidianamente, pois a ferida é de outro género e muito mais profunda. 
Olho crianças e jovens, entretidos em coisa nenhuma e mirando-me de soslaio, descrente do meu poder para fazer neles o milagre da diferença. Sinto uma enorme comiseração por todos eles que esculpirão o amanhã à sua própria custa e desprovidos das necessárias ferramentas. 

Lamento não poder salvar o mundo.

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