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A FOME DO PÃO E A FOME DA CARNE…

HÉLDER BARROS
O Sr. Manuel do lugar de Arrabães, freguesia de Torgueda, no distrito de Vila Real, era um cantoneiro da antiga Junta Autónoma das Estradas. Estávamos no ano de 1965, em pleno mês de junho e Manuel encontrava-se a trabalhar na Estrada Nacional N.º 15. Estava muito quente e não era fácil trabalhar com o calor forte de junho, em Ansiães, Amarante, entre a Pousada do Marão e o Viveiro de Trutas, se bem que a paisagem circundante de vasto pinhal e a existência de pequenos regatos de água, que conferiam algum conforto térmico e sensação de bem estar, a quem passa… mas, a trabalhar é sempre bem duro e diferente; a beleza da natureza nas montanhas é sempre esplendorosa, mas tem tanto de belo, como de rude e agreste! E para quem tem que dar no duro diariamente, pouca disponibilidade de espírito tem para apreciar a beleza que há em todas as coisas naturais, mormente, na Serra do Marão.

Manuel acordava às 6h00 da manhã, todos os dias, de segunda a sábado, por forma a poder deslocar-se a pé, para o local onde estava a limpar as bermas, com a força das suas mãos, a firmeza dos seus calos e a musculatura dos seus membros superiores, que era bastante desenvolvida, pela força de anos e anos de trabalho duro, manobrando a enxada quase todos os dias, numa rotina diária de muitos anos de labuta intensa e maioritariamente solitária.

Homem bem constituído, estatura mediana, de pele morena, com quarenta e poucos anos, pai de quatro filhos que dependiam de si, enquanto chefe de família, dado que era o único elemento que trabalhava com uma remuneração fixa, embora muito baixa, para o sustento da mesma. Assim, num contexto do Portugal cinzento da ditadura, num pais de pouco dinheiro, recursos, oportunidades, pão e de muita repressão política, o Manuel já não esperava nada de muito extraordinário da sua vida, a não ser o de cumprir a sua dura rotina, de segunda a sábado. Aos domingos e fins de tarde, trabalhava no seu quintal, numa horta variada, que produzia muitos alimentos frescos, que pudessem ser a base da alimentação da sua família, designadamente, produção de batatas, cebolas, pimentos, tomate, vinho e azeite. Um complemento que, para aquela família, era absolutamente necessário e fundamental.
A esposa do Manuel, a Dona Emília, uma típica dona de casa da altura, tratava de todo o acompanhamento familiar, dos filhos, do marido, de uma tia idosa que vivia com eles, da lide doméstica e vivia os dias, igualmente, numa rotina, muito fastidiosa e absolutamente pobre em todos os sentidos. Tomar conta dos filhos, tratar do marido, dos animais domésticos, cães e gatos e dos animais de sustento ou de criação: galinhas, patos, porcos, perus, coelhos, ovelhas, cabras; uma vida dura e sem horizontes de mudanças, pelo menos, para melhor. Os dias sucediam-se sempre com a mesma certeza: trabalhar de sol a sol e viver com pouco, sem grandes surpresas…

Foi neste contexto do Portugal típico do tempo da outra senhora, na região da Serra do Marão, que aconteceu um episódio que abalou um pouco este ambiente calmo e rotineiro. Assim, qualquer acontecimento inopinado e incomum não poderia passar em vão, no meio da pacatez da localidade de Arrabães e arredores, tal como aconteceu com a estória que vos vou narrar e que me foi transmitida por uns anciães da Serra do Marão, na freguesia Ansiães, Amarante, quando dei aulas na Escola EB1 2/3 do Marão, há sensivelmente 18 anos.

Numa bela tarde de sol e de calor, no dia 15 de junho de 1965, em que o Manuel Cantoneiro roçava as bordas e as valetas da estrada nacional n.º 15 em Ansiães, na altura única e mítica via ligando o Porto a Trás-os-Montes, portanto com bastante tráfego, que seguia serpenteando as curvas do Marão; inopinadamente, parou um carro descapotável, com matrícula alemã, ocupado por duas belas mulheres loiras, falando uma língua que o Manuel nunca poderia entender, mas que estavam decididas a seduzir o Manuel por via gestual, convidando-o para entrar na sua viatura.
O Manuel pouco habituado a que lhe dessem atenção e tratando-se de duas belas e jovens mulheres, ainda que meio atarantado, pois quando a esmola é grande, o pobre deve sempre desconfiar, já lá diz o velho adágio popular, entrou e foi conduzido por estas a um local recôndito e ermo da serra, depois de terem seguido por um caminho florestal, um entre muitos dos que existiam na altura e que estavam muito bem conservados e transitáveis. 
Perante um homem transpirado e sujo, mas com um físico e uma pele morena que as cativou, ofereceram-lhe bebidas alcoólicas, que foram tomadas de bom grado pelo pobre Manuel, que mal poderia imaginar ter um tratamento deste tipo, o que só lhe poderia mesmo acontecer no limiar de qualquer acontecimento fatal. Assim, passada uma hora, já as mulheres induziam o Manuel a praticar atividades sexuais com elas, numa diversidade e ritmo de diferentes loucuras que jamais poderia sequer sonhar, que algum dia pudesse ter. Manuel sentiu-se no paraíso, nunca poderia sequer sonhar com uma coisa daquelas, de matar a fome de carne e de ir ao encontro dos seus desejos mais loucos, das suas mais escaldantes fantasias sexuais.
As mulheres, oriundas da classe média-alta Alemã, procuravam saciar os seus desejos de carne, usando um homem rústico que as excitava com o seu suor animalesco e para que saíssem completamente satisfeitas desta aventura no Marão, adicionaram nas bebidas potentes afrodisíacos, que fizeram do Manuel uma autêntica bomba sexual. O Manuel, perante esta inesperada festa e sentindo-se mais homem do que nunca, nesse dia já não regressou a casa à hora do costume, acabando por sucumbir a um ataque cardíaco fulminante, muito provavelmente, ligado aos aditivos colocados nas bebidas, ou ao calor, ou porque foi sujeito a um esforço violento sem autocontrole…

Viviam-se então em Portugal tempos de silêncios e de medos, de esconder o que fosse escandaloso ou fora da normalidade convencionada, pelo que, as causas da morte apuradas, resumiram-se a uma síncope cardíaca, oficialmente devido às muitas horas seguidas de trabalho do Manuel, sob um sol escaldante, que se mostrou mais forte, nesse fatídico dia.

Moral de uma estória que poderá não a ter: é difícil e improvável matar a fome de pão, com manjares de carne; quem tem fome de carne, não a tem de pão; certos banquetes de carnes, não são para todos; o que
tem fome de pão deve desconfiar sempre, da esmola de quem tem fome de carne; quem tem fome de carne, não se preocupa em usar quem tem fome de pão, para sua satisfação; não há almoços grátis, de pão ou de carne, e, estes podem sempre ser pagos, no limite, com a própria vida; até um cão habituado a comer carne, não vai querer comer pão; que importa a quem tem fome de carne, que morra quem tem fome de pão, para satisfazer os seus caprichos mais incomuns; quem tem fome de pão, se a matar com muita carne, poderá ter uma grave indigestão; quem tem fome de carne, usa geralmente quem tem fome de pão, como carne para canhão; são tantas as ilações que podemos tirar desta simples estória, que seria fastidioso para o leitor, que eu as continuasse a enumerar… cada um retirará o que quiser dela, ou não colherá nada da mesma, conforme o seu livre arbítrio.
Todos os nomes de lugares e de pessoas referenciados nesta estória, embora existam, são fruto de uma ficção que elaborei a partir de outra que me foi transmitida por via oral, por Anciães da Serra do Marão, em Ansiães, pelo que, qualquer aproximação à realidade, trata-se de pura casualidade. Quem conta um conto, diz o povo que sempre acrescenta um ponto… e a nossa memória também se sustenta de criatividade.

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