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CRUZEIROS DE LIXO

GABRIEL VILAS BOAS
Com a chegada da primavera, começa a época dos cruzeiros no mediterrâneo, prometendo fantásticas viagens por Veneza, Roma, Atenas, Barcelona, Istambul ou pelas ilhas gregas. No mesmo mar milhares de migrantes continuam a tentar chegar à europa em pequenos botes que muitas vezes se transformam em urnas coletivas, que depositam os deserdados de África no fundo do mar glamouroso. 
É um problema muito grave, dado que só no ano passado morreram mais de 3400 migrantes por afogamento e em 2015 a contagem já vai em impressionantes 900 pessoas. Que resposta deram os governos europeus a este problema? Choraram lágrimas de crocodilo, mandaram flores no funeral e resolveram reduzir os meios de busca e salvamento. A atitude daqueles que nos dias de hoje governam a europa é desumana e hipócrita, mas não me surpreende. O que me espanta é a indiferença da comunidade internacional, especialmente a europeia, que não exige de quem a governa medidas firmes e eficazes para que todos os anos não afundem titanics de cidadãos africanos em botes que lhes prometem a morte. 
O Super Mário que a tecnocracia europeia pôs em Bruxelas não se lembrará daquilo que os seus olhos viram em Lampedusa há uns anos? É importante e urgente que a europa tome medidas sobre o problema dos migrantes no mediterrâneo. Quantas pessoas tem capacidade para acolher de maneira condigna? Há que ter coragem para definir esse número e depois agir em conformidade, acompanhando a montante e a jusante o problema. 
O problema está em África, donde estas pessoas saem desesperadas em busca duma vida melhor. Se a europa não tem capacidade de acolhimento, então deve prover ajuda humanitária a essa gente nos locais de origem, envolvendo ou não as autoridades locais. Na ONU gostam muito de discutir intervenções militares para salvaguardar a paz; em Bruxelas adoram fazer planos e projetos de pormenor para salvar bancos e fundos das bebedeiras de jogo em que se meteram. Será que podiam arranjar um tempinho para prover a um problema das pessoas que fogem do seu país, quase a nado, porque a fome as ameaça?
Não há soluções perfeitas nem milagrosas, bem sei! Todavia é possível ter uma política coerente, determinada e humana. É isso que faz a Suíça ou o Canadá. 
Entretanto, os paquetes intensificam o tráfego no mediterrâneo. Talvez algum ministro holandês ou austríaco cruze o olhar com um bote cheio de gente a caminho da liberdade e do pão ou da morte! Talvez se lembre que são gente como ele, talvez essa imagem permaneça na sua memória quando regressar a casa ou a Bruxelas, talvez…
Tenho muito receio que a Humanidade morra um dia destes afogada no mediterrâneo e que uns sujeitos que outrora se diziam humanos avistem tudo do varandim dum dos cruzeiros da Royal Caribbean.

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