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NÃO FESTEJO O 25 DE ABRIL

REGINA SARDOEIRA
Estamos numa época de festejos, de comemorações, de ouvir discursos e assistir a debates, porque passou o dia 25 de Abril e aproxima-se o 1° de Maio. Sentimo-nos compelidos a evocar estas datas; e, aqueles de nós que ainda levam estas efemérides a sério, tomam as mais diversas atitudes, implícitas ou explícitas, calam-se, pensam e sentem, de si para si mesmos, ou falam pelas mesmas razões. 
Para muitos, as datas não passam de feriados e logo oportunidades para descontrair. Qual 25 de Abril, qual 1° de Maio? No meio ou no fim da semana de trabalho, em qualquer dia do mês ou do ano, um feriado vem sempre a propósito, não importa o motivo que o determina.
Quanto a mim, concordo plenamente. Não festejo o 25 de Abril, fico indiferente ao 1° de Maio, porque não é na festa que reconheço, hoje, os valores que, em 1974, criaram estes feriados em Portugal e congratulo-me por ainda serem dias livres, em que posso fazer o que me apetecer, porque me libertaram do trabalho. 
Escrevo estas palavras e sinto-me um pouco perplexa, pois até há pouco tempo rejubilava com os cravos vermelhos, com as canções emblemáticas destas duas datas tão próximas, no tempo e no significado e, mesmo quando não participava em qualquer acção pública, tinha os meus rituais privados de evocação. Este ano vivi o 25 de Abril com indiferença, não comprei cravos vermelhos, não ouvi as músicas de Abril e o 1° de Maio, que vem aí, agrada-me porque vai prolongar-me o fim de semana. E não venham dizer-me que, por esta ou por aquela razão, esta atitude é uma excepção relativamente ao modo de sentir dos portugueses. 
Estarei a proferir uma enorme heresia, eu, que sempre me coloquei bem à esquerda do espectro politico nacional, eu, que há alguns anos fui candidata a Presidente da Câmara de Amarante, eu, que desde sempre pautei a minha acção por iniciativas revolucionárias?
Sim, declaro-me herege, não vejo nenhuma razão para festejos, não acredito na maior parte das palavras dos que fazem ou escrevem discursos ou comentários, detestei ver, num relance, tanto desperdício de cravos vermelhos na Assembleia da República e, ainda mais, de os ver pendurados em certas lapelas. 
Por mim, se pudesse, varria tudo aquilo, mandava homens e mulheres para casa: almoçar ou fazer outra coisa qualquer. E ordenava o silêncio fúnebre e o luto nacional, pelo menos durante uma semana – esta, que medeia entre as duas datas. Aliás, destituía governo e assembleia, acabava com partidos, sindicatos e quejandos, permitia que o caos se instalasse e que cada um ficasse entregue a si mesmo: em suma, creio que, de uma hora para a outra, percebi que este circo lamentável, a que ainda ousam chamar democracia, não é absolutamente nada que valha a pena festejar e prolongar. 
Claro que não tenho poder para tanto; e já sinto os meus hipotéticos leitores a suspirarem de alivio ou a encolherem os ombros, por considerarem estes meus pensamentos um mero devaneio inconsequente. Sim, claro, eu compreendo. 
Há 41 anos foi instituída a democracia, começamos a poder votar, etc., elegemos muitos deputados, autarcas, etc., demos vivas, batemos palmas, manifestámo-nos, fizemos greves, etc., e, daqui a pouco tempo, vamos permitir que se monte de novo o espectáculo ridículo das assembleias de voto, das urnas em cima de mesas, às quais estarão sentados os representantes partidários e, muitos ou poucos, lá estaremos a fazer a cruz num boletim e a sentir que estamos a cumprir o nosso dever! Antes disso – muito antes, porque já começou esse outro espectáculo deprimente – permitimos a montagem do circo da propaganda eleitoral, vamos deixá-los falar, discutir e fingir que debatem; e a tal ponto vai ser bem orquestrado o empreendimento – a prática, a demagogia, a lábia e tudo o mais que foi sendo engendrado durante estas 4 décadas foi passando de geração em geração, cada vez mais apurada – que, no dia aprazado lá estaremos todos, muito compenetrados de que afinal, este ou aquele merece o nosso voto. Todos, não direi: mas os suficientes para que se sagre um vencedor e a farsa continue. 
É a antevisão deste cenário a curto prazo, esta espécie de quase adivinhação que me faz ter a certeza de que os portugueses vão entregar os seus destinos a incompetentes, a ladrões, a corruptos, a gente hipócrita e cínica que quer continuar a servir-se de nós para, de um modo ou de outro, prosperar, que me impede de festejar. Não se trata de saber se estamos melhor ou pior do que antes: penso, honestamente, que não podemos comparar os dois tempos, para aferir e tirar uma conclusão. A bem dizer, é estúpido e fútil aludir a semelhante comparação, porque a verdade é que estamos melhor e pior ao mesmo tempo, ou permanecemos tão ignorantes e ingénuos como aquele homem rústico que, ao ser entrevistado, à saída da mesa de voto nas eleições de 1975, quando lhe perguntaram como votou, respondeu que o fez à sorte, que não viu lá nenhum partido, porque o papel estava inteiro e que tão pouco sabia para o que estava a votar! A diferença é que ele, dos abismos da sua ignorância, quis sair de casa – juntamente com 92℅ da população portuguesa – e, sem saber muito bem como, ajudou a eleger os deputados que elaboraram e aprovaram a constituição que ainda hoje é a nossa lei fundamental; e nós, descontentes, indiferentes ou preguiçosos não vamos lá, sequer, ou, se vamos, também não compreendemos o que estamos a fazer, o que são dois actos inúteis, dado que nem são suficientes, em número, os que ficam, não chegando a inviabilizar, de facto, a farsa eleitoral, nem são representativos do todo os que vão lá e, tal como o ignorante de 1975, votam num papel inteiro, fazendo a cruz no local errado. Porque será, necessariamente, errado. Porque tem sido, obviamente, errado. E nenhum sinal tem sido dado de que o erro, cometido e repetido, vai desta vez ser finalmente corrigido. 
Não consigo compreender esta teimosia, esta absurda obstinação no perpetuar de um embuste. 
Nestes últimos dias ocorreu -me uma comparação (que nem sequer é original ou extraordinária). 
O povo gosta de futebol e o país, há muitos anos, dividiu-se na preferência por dois clubes. Pouco importa que um ou outro
sejam ineptos, sofram derrotas ou percam campeonatos: o clube, eleito pelo adepto, é, em qualquer circunstância, sempre o preferido, o melhor. 
Como se trata de uma diversão, de um jogo, costumo encolher os ombros perante a devoção e a seriedade atribuídas a discussões, debates ou autênticas guerras clubistas. Mas, percebendo que o povo se comporta na política, exactamente como o faz quando está em causa o futebol e que, à semelhança deste, as escolhas e os fanatismos se centram apenas em dois blocos partidários, por mais ineptos que se revelem no acto de governar e por mais eleições que percam, numa alternância monótona, não posso deixar de preocupar-me. É que, sendo assim, jamais nos livraremos desses, que, sozinhos ou emparelhados, têm corrompido a democracia. 
E é por causa destas, e de muitas outras verificações que vou fazendo, que tenho hoje um desejo profundo de me isolar num canto qualquer, utópico, bem sei – e é por isso que, frequentemente me sinto muito melancólica -, um sítio, no meio do mar, da floresta ou no pico de uma montanha, onde nenhuma regra estulta me insulte a inteligência, nenhum dever absurdo me obrigue a tarefas inúteis, nenhum homem ou mulher perverso finja, perante mim, que deseja promover a minha qualidade de vida. 
Nessa ordem de ideias, e embora saiba que o 25 de Abril será sempre uma efeméride que recordará aos portugueses um acontecimento importante, capaz de lhes abrir uma nova era, não o festejarei como usei fazê -lo, enquanto tinha fé. Percebo que essa Revolução, cujo símbolo é uma canção e um cravo, foi arquivada nos anais da História e será narrada às crianças, como um feito do passado, sem qualquer relação com o presente, e que, por tão alienada no tempo, elas não compreenderão porque havia presos políticos e censura, porque eram homens e mulheres obrigados a viver clandestinamente ou a exilar-se no estrangeiro e porque se levantaram, um dia, os militares e depois o povo todo, para expulsar os opressores e começar a construir a liberdade. Ou compreendê-lo-ão bem demais porque o ciclo ter-se-á repetido, mesmo que com novos contornos. 
É uma crónica eivada de cepticismo, sei-o bem; mas a coerência obriga-me a tal, porque sei que só levando ao extremo o cepticismo, expandindo-o, universalizando-o, tornando-o a verdade absoluta de um tempo (este) poderemos recomeçar a crer. 
Uma vez na vida, questionem a fundo as vossas consciências e digam-me, depois, se não vêem nesta lucidez céptica, o único modo de retirar, enfim, as vendas.

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