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O TÂMEGA PARA O MANETA

JOSÉ EMANUEL QUEIRÓS
DR adbasto
Pende sobre o Tâmega uma velha e gravíssima problemática, capaz de modificar definitivamente o curso do rio e degenerar o ambiente gerado e evoluído na sua passagem correndo livre. Mas, perante a absurda decisão governamental de adoptar a patranha do famigerado Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH) fabricado pelas eléctricas REN e EDP, farejam as autarquias por algum retorno financeiro em troca daquilo que não tem preço. 
Com o plano de artificialização do rio Tâmega em território português e o afogamento do vale numa sucessão de barragens, de Vidago (Chaves) à foz (Alpendorada – Marco de Canaveses), as populações autóctones, os que cá estão e os que virão – mesmo aqueles que se julgam do lado certo, na decisão induzida ao Governo pelas eléctricas -, do Alto ao Baixo-Tâmega, ninguém é merecedor, em tempo algum, nem deveria ficar alheado a tamanha ‘oferenda’ implosiva, como não é compreensível a tolerância e a complacência das populações com poderes políticos farsantes, neurasténicos ou inconsequentes. Do ponto de vista sócio-económico, o vale do Tâmega, tal com o conhecemos em sua integridade natural, é o algarve de toda a região, mesmo sem colher o atendimento de valorização das suas qualidades naturais-monumentais que qualificaram os concelhos de Chaves, Vila Pouca de Aguiar, Ribeira de Pena, Cabeceiras de Basto, Mondim de Basto, Celorico de Basto e Amarante. 
Sem o esclarecimento necessário à formação de uma opinião cívica adulta e interessada nos seus destinos, qualquer comunidade humana pode facilmente ser vergada a interesses escusos, submetida por algum prato de alpista ou mesmo sem ele. Argumentos fortíssimos à contestação deste garimpo que as eléctricas nacionais prepararam sobre o Tâmega não faltam da parte de quem não se deixou vencer por ignorância do problema ou não caiu rendido ao ‘milho’ das contrapartidas pelas perdas à vista. No entanto, os ruídos tergiversantes que a Câmara de Amarante adoptou pela voz do seu presidente, seguido em suas pegadas por algumas oposições e por outras autarquias do Baixo-Tâmega, excepções feitas às Juntas de Freguesia Mondim de Basto e de Arco de Baúlhe (Cabeceiras de Basto), imobilizaram uma parte substancial das populações que serão directa ou indirectamente afectadas. 
O receio de contestar a posição de uma autarquia municipal e a falta de uma liderança política local e regional legitimada pelo voto popular teve o efeito gerador de uma surdez pública generalizada e de tornar as pessoas reservadas ou indiferentes às razões de quem teve o encargo de acompanhar e estudar o processo desde que ele mais recentemente, em 2007, veio à luz do dia. A esse trabalho se dispensaram, notoriamente, os titulares de cargos públicos autárquicos e os mais responsáveis por assegurar nos órgãos institucionais a defesa do interesse público das populações. Para um só problema há sempre múltiplas perspectivas de análise consoante os fundamentos conceptuais de partida, o ângulo de observação e a escala de abordagem. Todavia, Amarante, por conta de nós mesmo, passa pelo período de maior provação desde que há 206 anos foi pilhada e dizimada pelas tropas napoleónicas comandadas por Loison, o ‘Maneta’. Em Basto, Celorico acordará tarde tarde sem rio nem ‘peixe’; Mondim terá irremediavelmente perdida a sua monumental paisagem ribeirinha e o usufruto do rio, caída a ilusão dos miríficos cenários fluviais com que enganaram as populações; e Cabeceiras ribeirinha terá de se arregaçar para não ser apanhada nas correntes súbitas das descargas de Daivões. 
No Alto-Tâmega, Vila Pouca de Aguiar deixará afogar o santuário monumental megalítico de Lixa do Alvão, enquanto as férteis terras ribeirinhas flavienses de Anelhe e Vidago ficarão submersas e sem préstimo. Perante o gigantismo deste cenário absurdo, não poderia tornar-me indiferente a esta serena implosão do Tâmega, nem solidarizar-me com a inverosímil subordinação autárquica ao mero interesse rendeiro hidroeléctrico. 
Como não me é indiferente a quadrupla guilhotina que será colocada a montante de Amarante, a armar sobre nossas cabeças, nem sei como aceitar políticos rendidos à pirataria e ao garimpo do interesse de empresas eléctricas sem respeito pela organização do espaço nem respeito por quem cá vive. 
Tudo isto, arquitectado em Lisboa, para o Tâmega ignorado como território habitado, enquanto as horas correm mortas no relógio da torre de São Gonçalo e todo o ambiente ribeirinho está prestes a ‘ir para o maneta’…

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