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O TRABALHO É QUE NOS DÁ VIDA

GABRIEL VILAS BOAS
O que vale o Trabalho nos dias de hoje? Não me refiro ao valor monetário, mas ao estatuto social do Trabalho. 
Quando observo as horas de intenso labor com que muitos trabalhadores pontuam os seus dias e as comparo com os parcos euros ou dólares que esses mesmos trabalhadores levam para casa, não deixo de me interrogar se não estamos a desvalorizar demasiado um dos valores fundamentais de qualquer sociedade.
A sociedade deve organizar-se de maneira a remunerar justamente todo e qualquer trabalho. Não é admissível que quem trabalha oito/dez horas por dia não consiga angaria o suficiente para viver com dignidade. No entanto, grande parte dos trabalhadores portugueses e de outros países apenas consegue sobreviver com aquilo que lhe pagam. Outros nem isso… 
Injusto, imoral, socialmente inaceitável, economicamente discutível, este moderno pensamento da oligarquia que governa o mundo é também muito perigoso.
Quando os jovens perceberem claramente que não é pelo esforço, pelo trabalho realizado que melhoram substancialmente as suas vidas, deixarão de eleger o Trabalho como um valor referencial e perseguirão outros deuses bem menos recomendáveis. 
Como se pode fazer um trabalhador ter espírito de equipa, ter brio nas tarefas que executa, mostrar responsabilidade, quando nunca é convidado a sentar-se à mesa dos lucros, os elogios ficam sempre para os administradores e os problemas que os outros criaram se resolvem invariavelmente à custa do seu salário?
Há trinta anos, os empregadores queixavam-se dos trabalhadores faltosos que inventavam doenças para faltarem ao trabalho. Hoje, os patrões coagem os empregados a fazerem horas extraordinárias que nunca pensaram em lhes pagar; humilham-nos no dia 1 de maio, obrigando-os a trabalhar a dobrar; não fazem nenhum esforço por manter os postos de trabalho quando surgem as primeiras contrariedades do mercado. Em ambos os casos o erro é o mesmo: o Trabalho, enquanto valor âncora duma sociedade, foi desconsiderado. Depois seguem-se as respetivos acertos de contas entre agentes que deviam ter confianças uns nos outros e ajudarem-se. E não saímos desta luta irracional e desgastante.
Valorizar o trabalho é remunerá-lo justamente; valorizar o trabalho é respeitar as regras previamente acordadas entre as partes; valorizar o trabalho é fazer todos participarem das perdas e dos lucros; valorizar o trabalho é entender que quem trabalho tem uma outra vida (social, familiar, cultural…) além do emprego; valorizar o trabalho torná-lo num espaço humano; valorizar o trabalho é fazê-lo o último pagador das crises e o primeiro beneficiário das “retomas”; valorizar o trabalho é perceber que o trabalhador tem de descansar; valorizar o trabalho é entender que o investimento deve ter retorno; valorizar o trabalho é fazer do local de trabalho um espaço plural, livre, solidário.
O Trabalho é um dever e um direito, não um privilégio nem uma esmola.

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