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A BANALIDADE DO MAL

GABRIEL VILAS BOAS
Passo os olhos pela memória dos últimos dias, que não são assim tão poucos, e tropeço em pedras, cassetetes, agressões, roubos, vandalismo, cargas policiais, humilhações, mortes. 
A violência tomou conta da vida coletiva e já nem nos admiramos que não haja razões que expliquem tudo isto. Muito dificilmente a violência encontra justificação, mas, por vezes, pode explicar-se. Nos últimos dias, nem isso. 
Um clube de futebol conquistava algo inédito em três décadas e no meio do júbilo de centenas de milhares de portugueses, irrompe uma onda de violência tão absurda quanto inquietante. 
Qual a razão para gente feliz e satisfeita vandalizar, roubar, destruir, enquanto esperava que a polícia garantisse condições de segurança para que abandonassem um estádio de futebol? Como entender que algumas centenas entre muitos milhares resolvam estragar a festa de gente sua atirando pedras, garrafas, petardos, cocktails molotov à polícia? Como explicar a fúria encolerizada de um polícia perante um cidadão que a ele se dirige, na presença dos filhos menores e dum velho pai, que desata à cacetada para efetivar a mais simples das detenções? 
A violência já não precisa de justificações sociais nem psicológicas. Existe porque tudo o resto parece aborrecido. Nem as vitórias, os momentos de exaltação, as alegrias desejadas durante meses, conseguem suster esta animalidade grotesca e maligna que se apossa de algumas pessoas. 
Cinco dias passados sobre os acontecimentos, os jornais, as televisões, as rádios conseguiram ouvir quase toda a gente sobre os acontecimentos de domingo passado em Guimarães e Lisboa, mas não conseguiram ouvir os protagonistas. E foram tantos! Sobram os comentários, as análises, os lamentos, os clássicos pedidos de medidas e castigos, as desculpas tardias daqueles que tacitamente concordaram com o esquema da festa no Marquês do Pombal. Já eu gostava de ouvir o que têm para dizer os vândalos que saquearam os bares do estádio do Guimarães, os operacionais da intifada do marquês e, claro, o polícia mais famoso do país, pelos piores motivos. Gostava de perceber PORQUÊ?, mas, talvez, nem eles saibam. Receio que me continuassem a chocar, temo que nenhum arrependimento lhes tenha passado pela consciência. 
Durante algum tempo, pensei que aquele agente graduado da PSP encontraria um meio de pedir desculpa ao avô que esmurrou e à criança que aterrorizou, no final da tarde de domingo, mas o máximo que consegui ler foi um pífio recado mandado aos jornais por um colega: talvez se tenha excedido. 

Não acho, como o professor Marcelo, que estejamos mais sensíveis à violência. O problema é que a violência entra no corpo e na alma de cada vez mais gente e não encontra sensibilidade nenhuma.

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