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A INEFÁVEL REALIDADE DOS SONHOS

REGINA SARDOEIRA
Escrever pode constituir-se em acto de prazer, quando aquele que escreve sente o impulso inadiável de transformar pensamentos, ecos do âmago, impressões que palpitam na ponta dos dedos na metamorfose do texto. Mas escrever pode transformar-se em tortura, sempre que a página em branco nos agride na sua plana vacuidade e os sentidos tardam a serenar para que a palavra, perra e fugidia, encontre o caminho no deslizar das linhas. Contudo, basta um ligeiro toque, uma ligeira brisa; e eis que os cenários abrem para o alto levando-nos, feitos meteoros, para muito além de nós próprios. Exactamente, eis o que acima de tudo desejo: superar-me. 
Basta de caminhar rente ao chão, sorvendo poeira, basta de arrastar passadas em caminhos sempre iguais, basta de esbarrar pelas paredes do tempo e não saber no fim por onde nos perdemos. O encontro maior é sempre vivido no limiar da surpresa e, não raro, somos nós que estamos lá, apenas nós, enovelados em ilusões centríptas, sempre nós na inalterável solidão do eu – e apenas nesse momento ímpar seremos capazes de nos abrir ao outro. 


Falo de quê, afinal? Que poderá dizer a quem lê este encadeado de rumores mentais, feito palavras, feito discurso? 

Mais do que tudo, importa ao homem preservar de si a abertura para o alto, seja noite escura, ou dia pleno, abertura para o alto e para o longe, onde se perfilam nuvens e depois os sonhos. Sim, os sonhos, esses que nos acontecem no seio da escuridão e trazem estonteantes brilhos diamantinos pendurados em cálices de prata, que o oiro cega e pode matar o que não se preparou devidamente para os fulgores do dia. Os sonhos, nossa garantia única de aceder a todos os futuros possíveis, nosso pacto misterioso com divindades inefáveis, achadas num vislumbre de arco-íris e logo perdidas em ventos outonais, os sonhos, essa ordem vinda dos hemisférios turbulentos ou das suaves regiões intocáveis prontos para nos deslumbrarem o pensamento e nos atirarem mais para além. 
Percebo que de tudo o que conquistamos, enquanto racionalidade, é a memória difusa das visões nocturnas que deve guiar-nos os passos da vigília: porque há um esclarecimento a brotar na hora do descanso, uma direcção tornada certeira se soubermos ler todos os sinais. Se assim ousarmos proceder, nenhum erro advirá, excepto naqueles hiatos obscuros que necessitamos de preencher com doses consideráveis de realidade. Eis aí a razão de todos os nossos logros, esse esquecimento, decerto constitucional, como tragédia de nascença, à semelhança da amnésia cognitiva das almas quando encarnadas em corpos espúrios. 
Pouco importa a realidade: mais do que os sonhos, ela traz em si todos os gérmenes de uma insolente loucura com a qual nos ludibria, enquanto sentimos estar a viver em sensata e lúcida caminhada; e, se não fosse o exílio do sonho, acontecido em horas que jamais dominaremos, em consciência, difícil e árdua seria toda e qualquer das jornadas humanas. 

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