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AUTORIDADE FATAL

Estado da perna de Regina Sardoeira
 Não gosto de publicar fotografias, gratuitamente, sem uma razão de fundo, seja ela óbvia ou não, para quem vê. Mas penso que hoje fará algum sentido mostrar esta que tirei agora mesmo e da qual fiz um propositado zoom. Trata-se da minha perna direita, desde o joelho até ao meio, esfolada, arranhada, ferida, pisada. Caí, é verdade, caí na rua, no degrau de um passeio de pedra…e isso acontece. Mas a questão não esteve propriamente na queda e nos momentos de forte indisposição que me acometeram, pois eram pouco mais de 2 e meia da tarde, estava um calor intenso e acabara há pouco de almoçar. A questão é que eu dirigia-me para o carro, apressada, pois estava mal estacionado e um agente da GNR preparava-se para me multar. Com razão -digo. Mas eu caí à frente dele, ele viu o estado em que ficou a minha perna, eu disse-lhe que me sentia mal… E a prioridade dele foi, depois de uma displicente pergunta – A senhora está bem? – e de poder verificar que não estava, foi pedir-me os documentos, escrutiná-los e ao carro, escrever o documento da multa, fazer-me esta e mais aquela pergunta, ignorando as minhas idas para o carro, sentar-me para não cair, inconsciente, ou refugiar-me numa sombra, para minorar o mal estar. Disse-lhe: É por causa destas actuações que as pessoas não gostam da polícia ou da guarda… Imperturbável, levou a tarefa até ao fim, fez-me assinar papéis e pagar a multa! Refugiei-me num estabelecimento. E, de imediato, o agente diz-me: Tem que tirar o carro daqui! E eu, a cair para o lado, disse: Não posso, tire-o o senhor! E ele: Julga que sou seu filho (sim, era um agente jovem) para me dar ordens? Acuso-a de desrespeito à autoridade! Saí, aos tropeções, não havia sitio para estacionar e segui para o hospital. Fui examinada, tratada, etc., não aconteceu nada de grave (a não ser os ferimentos e a queda de tensão)… Mas desde então até agora, questiono-me: O agente cumpriu o dever? É assim que devem proceder os homens que foram formados para servir os cidadãos?

Muito bem: eu e mais dois ou três condutores estávamos em transgressão, não discuto a multa. Mas não deveria o agente assegurar-se das minhas condições físicas, ajudar-me no que fosse preciso e depois passar a multa? Pois, nem ele, nem ninguém que por ali passava, deu o menor auxílio… Sozinha me ergui do chão, sozinha lidei com dores e mal estar, sozinha fui, depois, ao hospital…

Esta história verídica é, sem dúvida, pouco relevante, num mundo de misérias maiores: mas demonstra, só por si, o estado de degradação a que chegou o mundo dos homens. Tanto mais abominável quanto os protagonistas eram agentes da GNR e tinham obrigação de saber a ordem certa dos seus deveres e dos seus actos num caso destes. (E dizer que, ontem mesmo, vi num documentário sobre a vida animal, um orangotango gigantesco a tirar da água, cuidadosamente, usando uma folha, uma ave minúscula, que agarrou com extrema delicadeza e entregou à mãe!)

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