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QUANDO VIVER É UMA LIMITAÇÃO

Desta vez, decidi pelo valor da vida. Apresento, por isso, um excerto do meu conto Até Ser Primavera, num elogio à pequenez humana, uma vida dependurada da vida, a desistir e a renascer. De como alguém, num coma profundo, decide que não está morto. Alguém encarcerado no seu próprio corpo. (locked in). De como o sonho agita para a vida.
Espero que gostem.
“Trabalhar a memória e a imaginação são a melhor escapatória. 
A viagem da borboleta: no meu sonho, quando elas chegavam ao seu destino, havia muitos que acreditavam

ANABELA BORGES

que elas eram espíritos, almas dos que já partiram, que vinham do outro mundo visitar aqueles que deixaram, diziam: Ali está aminha mãe, ali está o meu amigo. São aos milhares e recolhem-se numa floresta que é um cobertor microclimático, como mágico. Essas almas contumazes e compassivas enchem o espaço todo, cobrem o chão e povoam o ar, e decoram de mil cores os troncos altos das árvores milenares. 

Com a capacidade de imaginar, posso tudo. Consigo perscrutar o silêncio do hospital, que já lhe conheço as quietudes e os movimentos, o sossego e a azáfama. E era nas horas de silêncio que a imaginação proliferava mais: a minha mente revia cada canto, cada parede clara, cada cama, cada doente, cada moribundo. Tudo me era permitido no silêncio da noite, no meio da penumbra, porque creio que um hospital só fica totalmente escuro quando fechas os olhos de vez.
Certas pessoas só veem o que está mesmo à sua frente; outras só precisam de fé para acreditar. Eu precisava de evidências – de ver para crer – e as evidências estavam ali, mesmo à minha frente. Todos temos como certo o dom da vida, mas, quando menos damos por isso, o dom desaparece. E isso pode despertar coisas incontroláveis e obscuras dentro de nós. Todos temos um lado obscuro. 
Pela primeira vez, dei comigo a pensar nisso, porque a minha vida, ou pelo menos a que tinha, estava a chegar ao fim. 
Agora que voltei a comunicar, não sei se digo o que sinto ou apenas o que recordo. Porque muito do que sei são apenas ideias vãs. É importante dizeres certas coisas enquanto ainda podes, que quando tudo acaba, acaba.
Já não digo que quero morrer. Mesmo que quisesse dizê-lo, não conseguiria, mas não o digo, nem com o piscar de olhos nem na minha cabeça.
Demorei muito tempo a compreender, a devolver a luz aos meus olhos, para mostrar aos outros que também me estou a esforçar. 
A vida é brutalmente simples. Resume-se a conseguir ser feliz e proteger os que se ama – afigura-se-me assim. 
Agora, sei que os sentimentos que terão existido em mim ainda não se esgotaram de todo. 
Para tudo, é preciso aptidão natural ou treino. Sei, agora, que a minha vida era toda diferente do que se me apresenta. Sei também que tenho de reaprender a viver. Se não tenho jeito para levar a cabo estas novas tarefas, terei de aprender a fazê-las, como antes aprendi a fazer tudo o que quis ou precisei. Tenho de melhorar as técnicas, treinar. Ela disse-me, aqui, um dia, perante a minha aparente indiferença, que quando alguém tem grandes dificuldades para ultrapassar, pode tornar-se muito bom nessa matéria, pode ser mesmo insuperável, o melhor, que é só querer, ter força de vontade. E eu pensei: a minha borboleta.
Depois de três semanas no interior do casulo, a sofrer as dores da metamorfose, a lagarta acorda do seu longo sono e dá lugar à borboleta, num caldo de genes que o tempo velho transporta religiosamente: as peças bocais são agora uma probóscide; os doze pequenos olhos fundiram-se em dois; crescem-lhe as antenas e as belas asas. Pesa meio grama. Ainda assim, terá de esperar durante duas horas, nessa eternidade da sua curta vida, para que o corpo se capacite da sua nova condição, se liberte da baba pegajenta e as suas asas endureçam. Só depois, poderá voar. Ela tem um dia certo para iniciar o seu êxodo – um belo dia de outono em que o sol se eleva 52o acima da linha do horizonte. Chegará ao seu destino no início da primavera. 
Agora sei que cada um tem a coragem do tamanho das suas convicções. Acho que era isso que eu defendia antes, na outra vida que tinha. 
Quando acordas de um coma, não sabes o que regressará de ti. 
E agora sei que a escuridão também é necessária, nem que seja apenas para podermos ver as estrelas. 
Para quê temer o amanhã, se hoje é apenas o que tenho? Quero esforçar-me para que não voltem a dizer-me que sofro da doença da doença. Quero aprender a amar e deixar-me ser amado.
O que eu realmente gostaria? Que este meu estado durasse o tempo que dura um sono. Mas não será assim.
No fim das contas, todos nos agarramos a alguma coisa. E se me fazem crer que ainda não sou uma mala velha, não me vou deixar ficar para trás.”
Anabela Borges, ATÉ SER PRIMAVERA, anthologia de contos, da Pastelaria Studios Editora, 2014

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