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NOVENTA ANOS DE UMA VIDA SINGULAR

Quis ser, e teria sido, “uma grande atriz”, mas a política – e um político – atravessaram-se. Noventa anos de uma vida singular.

MARIA BARROSO

Maria de Jesus Simões Barroso, nascida a 2 de maio de 1925, filha de uma professora primária e de um tenente do exército e do reviralho, castigado, preso e finalmente deportado para os Açores, neta de avós divorciados do lado da mãe, irmã de nove irmãos, dois mortos em bebés como morriam então tantos; pequena, esguia, sempre direita e de cabeça erguida, cuidadosa nos passos e na aparência, de voz bem modulada e colocada, porém sem afetação; teimosa, obstinada, corajosa, compassiva; moderna a ponto de decidir, menina da média burguesia dos portugueses anos 40 e contra as convenções e fados, que o teatro era o seu destino, mas reservando-se sempre de um meio “propício à instabilidade pessoal”; amiga de Mourão-Ferreira, Sebastião da Gama, Matilde Rosa Araújo, Lindley Cintra, Eurico Lisboa, Joel Serrão, e depois de Sophia e muitos outros “grandes nomes” das artes, literatura, pensamento; desde cedo seguindo a senda do pai numa rebeldia e desalinhamento que lhe decretarão ser expulsa do Teatro Nacional e interrogada pela polícia política por declamar poemas subversivos. Isto tudo (e mais, decerto). E também mulher de, a mulher de Mário Soares. O apodo que sempre a precede há mais de 60 anos e, como no contraste físico entre a fragilidade diminuta dela e a estatura formidável dele, de algum modo a foi invisibilizando. Mas olhemos, tentemos ver. Quem é?

“Muito tímida”, disse de si própria à biógrafa e amiga Leonor Xavier, em Maria Barroso – Um Olhar sobre a Vida (primeira edição 1996, a mais recente 2012). Uma tímida que, escolhendo do nome todo o de guerra, pelo qual hoje a conhecemos, sobe aos palcos, ergue a voz e, nos primeiros papéis de “ingénua”, então termo utilizado para um tipo teatral e para o qual é contratada, deslumbra os críticos. Logo na estreia, numa peça do Teatro Ginásio, o Diário Popular anuncia-a “uma promessa radiosa com a qual o teatro português deve contar”. Ainda vai na segunda peça e Luís Francisco Rebello já se lhe rende, num artigo de 26 de abril de 1945: “Uma grande intuição dramática, uma voz lindamente timbrada, bela presença e notável segurança em todos os seus gestos, compreensão absoluta da personagem interpretada, tudo isto casado com um não sei quê de suave espiritualidade.” O êxito instantâneo abre-lhe o caminho para o sonho, o de fazer parte da companhia de Amélia Rey Colaço (que a recorda anos depois como “uma pequena com muita vergonha, com dificuldade em comunicar. Mas no ensaio começava a falar e era espantosa, dizia as frases com veemência!”) no Teatro Nacional, onde os encómios continuam a jorrar: “Uma ingénua dramática de indisputáveis recursos, dotada de uma grande sinceridade emotiva, limpa de truques e de um invulgar poder de persuasão, através de uma encantadora simplicidade de processos”, di-la Jorge de Faria no Diário Popular, enquanto Luís Francisco Rebello, num registo de 17 de maio de 1945, a descreve no papel de uma datilógrafa chamada Elsa que contracena com Raul de Carvalho e José Gamboa: “Maria Barroso realizou uma notável criação. Na intensa cena final do segundo ato, com Raul e Gamboa, cena em que se aflora o cruciante problema da mulher que pretende viver honestamente o seu trabalho (fixei esta penetrante afirmação: quando nos contratam os homens já estão a tomar posse de nós com os olhos), o seu belo talento ergueu-se a grande altura.” Se não soubesse já, ler e saber tudo isto tê-la-ia convencido de que estava ali a sua verdade, o seu caminho. Di-lo, determinada, numa entrevista ao Diário Popular nesse ano: “O teatro é a minha profissão definitiva. O curso superior que frequento será um auxiliar. A minha maior ambição é ser uma grande atriz.”
O curso superior que frequenta, na Faculdade de Letras, então à Academia de Ciências, é Histórico-Filosóficas, escolhido por conselho de uma professora de Filosofia do liceu quando Maria de Jesus tinha pensado em Direito – uma ideia que de resto acalentava ainda anos depois, quando já casada e mãe um dos cunhados a impele a cumpri-la: “A Faculdade de Direito era mesmo ao pé de nossa casa e fiquei entusiasmada com a possibilidade… [Como já tinha dois cursos] podia entrar em Direito sem fazer exame.” Mas, conta na última grande entrevista, ao i, “o meu entusiasmo esbarrou no meu marido, que achou um disparate. “Já tens dois cursos!”, exclamou logo. Engraçado como são as coisas.” As coisas são engraçadas, sim: o marido, que também queria entrar para Direito (ingressou em 1953) e a dissuadiu disso, conheceu-o na Faculdade de Letras, num dia em que chorava por um professor não lhe ter permitido fazer um exame, recusando-se a retirar-lhe uma falta justificada por ter ido aos ensaios no Nacional. Já o conhecia de vista, diz a Leonor Xavier, e quando, dias depois, a 8 de maio, é assinado o armistício – com rendição incondicional da Alemanha – faz parte do grupo que Soares desafia a celebrá-lo nas ruas, numa manifestação com vivas à liberdade e morras ao fascismo, V da vitória e hino nacional, que a polícia, inusitadamente, não reprime. Uma ocasião única que Maria de Jesus tem de abandonar a meio, para correr para o Nacional, deixando para trás, na confusão da alegria, a pasta da faculdade, que o colega e poeta Sebastião da Gama vai entregar-lhe ao teatro.
Mas abandonada, nem a meio sequer, será também a “profissão definitiva”, e, logo após a consagração no papel principal de Benilde ou a Virgem Mãe, de José Régio, o sonho de se tornar “uma grande atriz”. O namoro com Soares, que começa ainda em 1945 e pega de estaca – “Logo que nos conhecemos, o Mário deu-se muito bem com os meus pais e ficou amigo dos meus irmãos. Achava muita graça ao meu pai, que era um velho republicano e contava muitas histórias” – alicerçado também na coincidência de os pais de ambos serem opositores ao regime comungando de deportação nos Açores e de perseguições avulsas, será um dos fatores a determinar que em 1948, quando Soares já ia na terceira prisão (a primeira fora por quatro meses e meio em 1947), lhe sejam comunicadas por Rey Colaço as ordens da polícia e do governo: não pode continuar no Teatro Nacional. Anos mais tarde, conta Maria Barroso, a diretora propor-lhe-á regressar, “com uma condição: escrever uma carta a garantir que estava afastada das atividades políticas. Recusei.” Vendo-a “figura mítica” desde os tempos da faculdade, Mourão–Ferreira lamentará a perda: “Era de uma verticalidade espantosa, tingida de um certo puritanismo. Havia nela “um nimbo trágico”, penso que foi uma das raras atrizes portuguesas que tiveram um sentido do trágico. (…) Podemos supor o que teria sido a sua evolução no teatro português.”
Antes dessa sentença (voltará a fazer teatro e terá várias participações em filmes de Oliveira, assim como de Paulo Rocha, mas o esteio da sua vida não passará mais aí) tivera já, em 1947, o privilégio de conhecer por dentro as instalações da Rua António Maria Cardoso. O motivo fora o declamar de poemas “subversivos” ou, talvez, declamar subversivamente poemas. Diz ter tido o cuidado de ir “o mais bem arranjada possível, para não dar o ar de mulher derrotada”: “Começaram por querer intimidar-me. No primeiro dia, ouvi uma mulher a gritar, no terceiro andar. Senti um calafrio na espinha.” Um agente entra e diz: “Isto ia de outra maneira.” Mas nos “cinco dias inteiros” que a coisa durou certifica nunca ter “dado com a língua nos dentes”.
Casa com Soares, de novo preso, no ano seguinte, por procuração, e suspende o curso na Faculdade de Letras, indo morar no Colégio Moderno, que passará a dirigir e a administrar a partir de 1971, ano da morte do sogro (João Soares). Ainda em 1949 nasce o filho João e em 1951 é a vez de Isabel. Os seus destinos confundem-se, doravante, até na atividade política – será deputada pelo PS em 1976, 1979, 1980 e 1983, e assume o equívoco estatuto de “primeira-dama” durante os dez anos da presidência Soares, de 1986 a 1996. O que leva talvez a negligenciar o facto de ela ter sido a única mulher a falar na sessão de abertura do III Congresso da Oposição Democrática (pela qual fora candidata a deputada em 1969), em Aveiro, em 1973, e também a única mulher presente no grupo que funda o PS, a 19 de abril do mesmo ano, na Alemanha – evento no qual, de resto, votara contra a opinião do marido, como explica na citada entrevista ao i: “Compreendeu, embora tenha ficado muito chateado, claro. O grupo que veio de Lisboa, éramos uns cinco, fomos portadores do voto de Salgado Zenha, do Magalhães Godinho e de outros… Julgávamos que não era bem a altura de formar o PS, devíamos esperar um bocadinho antes de tomar a decisão. Estávamos errados e Mário Soares estava certo, a história provou-o. Todos lhe demos razão a partir do momento em que surgiram movimentos que colocaram logo muita pressão em Marcelo Caetano.” Um momento raro de dissenso naquilo que descreve como uma relação na qual teve “sempre a ideia de não fazer nada que o enervasse e o contrariasse”, facto a que atribui a longevidade do enlace: “Temos uma relação excelente que é fruto dessa compreensão. (…) Quis acompanhá-lo sempre, acompanhá-lo mesmo nos momentos mais difíceis. Quis ser a companheira dele constante.”
No pós-presidência, dirigirá a Cruz Vermelha portuguesa, saindo em 2003 em conflito com o então ministro da Defesa Paulo Portas; tendo criado a Fundação Pro Dignitate em 1993, é sua presidente na atualidade. Discreta, frugal na pose (e até na alimentação: há muito deixou de comer carne), fervorosa no catolicismo que, tardio, lhe veio com o acidente do filho João em 1989, costuma, contou a Leonor Xavier, dizer ao marido “Gosto de representar no palco e não na vida.” O amor, confessou ao i, é sua palavra preferida, a que ecoa no poema de Sophia por si escolhido na trasladação da poetisa para o Panteão, Carta aos Amigos Mortos: “E eu vos peço por este amor cortado / Que vos lembreis de mim lá onde o amor / Já não pode morrer nem ser quebrado.”

TEXTO: DR DIÁRIO DE NOTÍCIAS

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