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CORAÇÃO DE DULCE PONTES VEM BAILAR A AMARANTE

DULCE PONTES
GABRIEL VILAS BOAS

Normalmente quem ouve Dulce Pontes pela primeira vez fica encantado. A sua voz límpida, potente, sedutora traz-nos ao coração e à alma emoções fortes e profundas que julgávamos bem guardadas, no mais secreto lugar do nosso ser.

Dulce começou por escolher o Fado para mostrar a beleza, a paixão, a carga dramática da sua música, mas rapidamente ficou claro que estávamos perante uma cantora versátil, que tanto reinventa o fado de Amália como entoa obras clássicas ou produz world music.
A jovem que estudara piano, dança e teatro, emerge para o estrelato num festival da canção, no início dos

anos 90 com “Lusitânia Paixão”, que nos levaria ao 8.º lugar no Festival Eurovisão da Canção. A letra era lindíssima, como normalmente acontece nos fados, mas a voz de Dulce fazia a diferença. Essa voz ímpar havia de triunfar pouco tempo depois com a fabulosa “Canção do Mar”, um dos maiores êxitos de sempre da canção portuguesa. A estrela mais brilhante da constelação de Dulce Pontes tem um longo instrumental inicial, onde são notórias influências árabes. A canção portuguesa mais conhecida fora de Portugal apaixonou Richard Gare de tal modo que haveria de se tornar na Banda sonora do filme “As duas faces de um crime”, protagonizado pelo ator americano.

O álbum donde fora extraída “Canção do Mar” continha ainda outras preciosidades, entre as quais se destacam “Povo Que Lavas No Rio”, “Lágrima” e “Estranha Forma de Vida”, onde se percebe que Dulce Pontes está apostada em abordar o fado de uma maneira pouco ortodoxa, misturando sonoridades árabes e búlgaros com ritmos mais ibéricos. O fado tradicional surgia misturado com instrumentos modernos e canções icónicas do fado português eram reinterpretadas na voz de Dulce. O disco foi um sucesso tremendo e a jovem cantora era vista como a herdeira natural de Amália Rodrigues.
Só que, na verdade, Dulce nunca assumiu o trono. Em primeiro lugar, porque sempre quis ser mais do que uma cantora de fado, aproveitando toda a versatilidade da sua voz para experimentar, inovar, reinventar. Por outro lado, Dulce nunca gerou uma empatia muito forte com o público português, devido à sua personalidade mais reservada e distante. Sempre me pareceu que Dulce Pontes era muito respeitada, mas não amada. O facto de ter escolhido um tipo de carreira muito internacionalizado também a afastou do contacto com o seu povo que gosta de sentir a proximidade dos seus heróis. 
Dulce continuou a evoluir, produzindo “Brisa do Coração” (1995), que a crítica acolheu com enorme entusiasmo, mas faltava outra canção tão arrebatadora como “Canção do Mar”, o que verdadeiramente nunca mais aconteceu. Todavia, a artista portuguesa continuava a somar êxitos além-fronteiras, gravando ao lado de monstros sagrados como Ennio Morricone ou José Carreras e marcando presença em acontecimentos importantes, tal como acontece no dia de hoje em que Dulce Ponte foi convidada a cantar o hino nacional na cerimónia de transladação do corpo de Eusébio para o Panteão Nacional. 
Amanhã Dulce estará entre nós, junto ao Tâmega, rodeada por um mar de gente.
Dulce, vens cá para ver bailar o nosso coração, pois também foi contigo que ele aprendeu a sorrir, a bailar, a viver!

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