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A ESTRADA POMBALINA QUE ATRAVESSA AMARANTE E AS SUAS ESTÓRIAS

HÉLDER BARROS
Há lugares que são especiais, onde a História parece estar escrita em cada muro, em cada casa, em cada caminho, em cada fonte… pois falo-vos hoje de Manhufe, Mancelos, a Terra viu nascer e inspirou o grande pintor Português Amadeo de Souza Cardozo.
Pode-se dizer com alguma assertividade, que se trata de uma aldeia bem preservada, um local que ainda não se descaracterizou, facto muito importante para que mantenha uma certa mística; afinal registaram-se aqui importantes acontecimentos históricos contribuindo para a sua importância num passado ainda muito presente.
Neste local lindíssimo, passa a Estrada Pombalina, agora esquecida e vilipendiada, mas que foi um meio viário privilegiado de ligação entre a Cidade do Porto, até Amarante e Régua e vice-versa. Antes da ligação ferroviária entre Porto e Régua, esta via assumia uma importância fundamental, que, no entanto, nunca deixou de ter até ao último quartel do Século XX.
No que concerne às Invasões Francesas, Amarante foi um concelho fortemente fustigado pela onda de destruição que resultou da retirada dos Franceses, em que todas as pequenas aldeias à época que estes encontravam pela frente, aproveitaram para saquear e destruir. Em termos históricos duzentos anos representam muito pouco e, penso que seria bom que Portugal, na sua representação ao mais alto nível, não deixasse de reivindicar esse prejuízo patrimonial, dado que as perdas humanas provocadas são irreversíveis. Numa União Europeia que tendo à cabeça um diretório Alemanha-França, que se fartaram de destruir a Europa nos séculos XIX e XX, com guerras e investidas que pouco contribuíram para a coesão do velho continente, sofremos agora os malefícios desta dupla de nações que comanda os destinos da União Europeia, mas numa investida enformada de Liberalismo Selvagem, tornando os países do Sul, periféricos… pelo menos, para os interesses deles! Segundo Pedro Vilas Boas Tavares “faltam todavia estudos sobre as exactas proporções das depradações causadas em Guimarães, Felgueiras, Penafiel, na própria Amarante e no seu profano convento de S. Gonçalo, ou noutras localidades menores como Pildre, Manhufe e Vila Meã …”.
«As tropas francesas à chegada a Aboadela e à semelhança do que faziam noutros lugares por onde passavam serviam-se da população, ou seja, procuravam abastecimento junto desta. Seguidamente, não tinham qualquer gesto de piedade, pilhando e destruindo tudo que pudessem. Contudo, há a registar a derrota das tropas francesas contra três corpos de cavalaria portuguesa enfraquecendo deste modo, o lado francês.» in “Rapina e Saques das “Aguais Napoleónicas” em Portugal: Dados e Reflexões” (O Porto e as Invasões Francesas 1809).
Mas voltando à Estrada Pombalina de que muito gosto, penso que deveríamos aproveitar o roteiro que nos leva desde Ataíde, Manhufe, Pidre, Fregim, Amarante (Solar de Magalhães, Igreja e Ponte de São Gonçalo), Ovelhinha em Gondar e Aboadela, para potenciar o Turismo Histórico que a brava resistência das nossas gentes potenciou, com marcas indeléveis da nossa luta contra a crueldade dos homens de Napoleão.
O lugar de Manhufe tem ainda a feliz particularidade de ter implantada a casa onde nasceu Amadeo de Souza Cardoso, um local lindíssimo e relativamente bem preservado, onde estão as raízes deste enorme pintor de Amarante e do mundo. Trata-se de uma casa rural importante que se destaca pelo seu espantoso enquadramento telúrico, num local todo ele marcado pela harmonia entre a paisagem natural e património construído e bem preservado. Contou-me a minha Mãe que, nas cavalariças desta casa, a Dona Laura, pessoa de muito bom trato, com uma educação aprimorada e de grande generosidade, irmã do grande pintor, tratou de instalar uma espécie de lar que abrigava com os cuidados possíveis naquele tempo, os dementes e indigentes que vagueavam por Mancelos e nas freguesias limítrofes, onde o Dr. Armando do Convento prestava os cuidados médicos de forma gratuita e altruísta, como era apanágio da sua forma de estar na vida. Aliás, a minha Mãe recorda com muita saudade, a forma sempre muito simpática e cordial, com que a Dona Laura a recebia nesta casa, uma Senhora na verdadeira acepção da palavra. Também a veneranda prima do grande pintor, Sílvia Cardoso, cujo processo de beatificação já está aberto pelo Vaticano, teve um papel importante na ajuda aos mais desprotegidos e na criação de algumas Alminhas na Estrada Pombalina e não só, com destaque para as que se encontram à frente da Casa de Manhufe e na Casa da Lage, em Fregim, também pertencente à família. Aliás, a freguesia de Mancelos teve outra figura muito importante que se dedicou na luta contra a pneumónica, a Dona Ana Guedes, da Casa da Costa e que fez da sua casa uma autêntica enfermaria na luta pelo tratamento e controlo deste flagelo que, por obra infeliz do destino, acabou por levar desta vida o grande escritor de Manhufe, muito precocemente, não impedindo, no entanto, que este deixasse um legado cultural de enorme importância para o mundo: a este propósito referiu Almada Negreiros que Amadeu foi a maior descoberta de Portugal no século XX.
Voltando à Estrada Pombalina que atravessa o nosso concelho, tinha um traçado muito bucólico e em alguns pontos mesmo de uma selvagem poética, sendo palco certamente de algumas grandes aventuras. Não nos esqueçamos que era muitas vezes calcorreada por exemplo, por Zé do Telhado e seu bando que ao que parece escolhia alguns locais mais recônditos do percurso, para assaltar as diligências de nobres ou burgueses mais abastados. Igualmente os grandes escritores Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, entre muitas personalidades da vida cultural portuguesa do século IXX, foram inspirados por estas paisagens, por estes caminhos mágicos, por esta paisagem telúrica… por esta Terra que nos enforma!

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