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QUANDO AS FÁBRICAS ERAM AS FÁBRICAS

ANABELA BORGES
Este é uma matéria que me é muito cara: falar sobre as fábricas da Tabopan e das minhas impressões, de quando era pequena e vivia muito próxima delas, na verdade quase dentro delas.
Durante os anos 70 e 80, a indústria de aglomerados de madeira de Amarante exportava para mais de 50 países e até deixou a marca nos tectos do Palácio de Buckingham. Mas havia muito mais nas e com as fábricas. Havia todo um movimento de famílias que trabalhavam e garantiam o pão diário através das fábricas. Até à falência, nos anos 90.
Nasci ali, numa casa inserida nos terrenos abrangentes à fábrica. Saí. Fui estudar. Regressei. E ali vivi até casar.
Eu costumo dizer, para quem conhece Amarante – para me situarem – que sou das fábricas.
“Antigamente, as fábricas laboravam vigorosamente, dando trabalho a grande parte das famílias da região. Os operários trabalhavam com ânimo e devoção e enchiam aquela estrada nacional, numa incursão alegre, despachada, a pé, em bicicletas, ou motociclos, à hora da saída, animados para irem para os seus quintais e para as suas casas, tratar ainda de vida, antes que fosse noite. Aquela actividade preenchia a vida económica da vila. E a casa de Lisinha também. Eram os seus clientes, os que almoçavam, espalhando-se pelas mesas da loja e da adega, os que merendavam, pelas grades do grande portão vermelho de ferro das fábricas, com uma moeda, “Menina, traz-me uma cerveja e uma sandes de queijo, e fica com o troco”. E a filha da Carminha costureira fazia o recado, mais um proveito para a Lisinha. Eram também os que compravam cigarros e guloseimas e mercearia. A casa de Lisinha era uma casa farta – de gente, de géneros, de tabaco e de fritos. Às vezes, as crianças chegavam lá, “Doiskentukies, Lisinha”, e ela, a iludir-se, a fazer-se de despercebida, “Não são para vós, os cigarros, pois não”, “Não Lisinha, são para o senhor José”, “Então, está bem”. Aquilo era uma roda-viva, uma casa de muita lida. O que importava era vender, “Amealhar hoje, porque amanhã ninguém sabe”. Agora, o povo antes quer supermercados e cafés e aquelas lojas onde as máquinas fazem tudo. E os computadores também. As fábricas fecharam. E a loja de Lisinha fechou com elas. Tudo muda com o tempo, tudo muda.”*

Eu era pequenina, e entrava por aqueles altos portões vermelhos de ferro. Corria pelo meio das máquinas, os senhores a trabalhar cada um no seu labor, “Bom dia, menina”. E eu, “Bom dia”, corria até ao escritório onde trabalhava o meu pai. O meu pai a preencher boletins e facturas, a assinalar coisas com o lápis vermelho toscamente afiado à navalha. E eu mexia em tudo: o papel para fazer desenhos, os carimbos.

Depois de me dar um beijo, o meu pai terminava pacientemente a tarefa que estivesse a fazer. depois, olhava para mim e eu para ele. Dava-me a mão. Já sabia: era a hora de fazer a ronda com ele, a entregar papéis aqui e ali.

*Excerto do meu conto premiado pela editora “A Tundra (Cemitério de Memórias)”, (editora Alfarroba), o primeiro conto que publiquei.

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