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É NECESSÁRIO APRENDER A LER

REGINA SARDOEIRA
Efémero. Termo que se opõe ao eterno e traduz um estado transitório entre dois momentos, dias, horas ou mesmo segundos, nos quais houve acesso a situações e sentimentos que, bruscamente, ou aos poucos, nos abandonaram para, numa sequência limitada, darem lugar a novas aventuras, também elas efémeras, também elas destinadas a serem tragadas na voragem do devir. 
Dizem que a vida de uma borboleta é efémera. Ao sair do casulo onde foi larva e crisálida, solta as asas na derradeira metamorfose, desdobra-se em cores, voando rasamente por entre os arbustos , deixando breves sulcos no ar, que brandamente agita, e depois desaparece, enquanto vida, sem deixar história que mereça ser contada. E no entanto eu não acredito no efémero. 
Enquanto ligeiramente discorria sobre o carácter transitório e fútil do voejar da borboleta, no instante em que afirmava ser a sua vida uma ínfima sucessão de ínfimas metamorfoses, das quais não ficará no mundo a sombra de uma história, dei comigo a negar o meu próprio raciocínio e a evocar a trajectória subtil de um ente da natureza submetido, como todos os outros, a um processo complexo de indícios evolutivos. E lembrei-me da teoria do caos, segundo a qual, um invisível bater de asas de uma borboleta na Amazónia pode ser a ruptura da estabilidade cósmica, a ponto de desencadear um furacão em Miami. 
Efémera, a borboleta? Todos os dias, minúsculas hélices irrisadas, em minúsculas e aleatórias batidas desencadeiam, pelo mundo, as mais fantásticas explosões e tempestades! 
E eis que a borboleta se tornou metáfora; e logo afirmo, com Nietzsche, que “os maiores acontecimentos não são as tuas horas mais ruidosas, mas as horas de profundo silêncio” e também que “não é ao som das grandes algazarras que a terra gravita, mas por obra dos criadores de novos valores… e ela gravita, em silêncio” e ainda que “são as patas das pombas que transportam as certezas do mundo” , e com ele reafirmo a importância infinita e perene dos pequenos hiatos, com que separamos os grandes acontecimentos, ou dos símbolos que nos envolvem e de que, escassamente, damos conta. 
Assim, a efemeridade de tudo contém o eterno e este reside, invisível, no âmago das pequenas coisas, sem as quais perderia substância e sentido. 
Dizemos que tudo passa e que tudo é vão. Hoje vivemos um amor ou um sonho que amanhã não lembraremos e dos quais não encontrámos já o reflexo ou os contornos; e todavia, na trama que vamos urdindo, enquanto a vida transcorre, esse amor e esse sonho foram o arabesco de uma volta da alavanca do tear e estarão lá, para sempre intrincados, na tessitura da nossa existência. 
Mais uma vez renego o efémero, para afirmar o eterno, atendo-me ao sinal que pareceu fugaz à nossa limitada perspectiva e contudo subjaz, para rechear de sentido o futuro, erguendo o presente e preenchendo o passado de solidez e substância. 
Hoje, um homem morre, deixa vago um lugar, não somente sentimental ou histórico, mas o espaço pelo qual foi arrastando a existência corpórea. E dizemos: qual o sentido desta morte, neste dia, nesta hora? Porque se desvaneceu, por fim, esta vida e que faremos, doravante, dos lugares que lhe pertenceram, enquanto moradia terrena? Percebemos, daí a pouco, que aquela morte e a aparente insensatez de um desaparecimento físico, que a nossa razão teima em rejeitar, foram a oportunidade bem vinda da existência de um outro, ali instalado para dar sentido ao seu próprio destino, perpetuando a vida do que, morrendo, criou sentido para outrem. Nenhum dos dois o soube, porém. Um, porque partiu e não deixou no testamento a outorgação da sua residência ao posterior ocupante; este, porque quando viu partir o primeiro não sabia que um sentido, para si, deveria advir daquela morte. 
Volto a negar o efémero, para me ocupar a ilustrar a perenidade dos pequenos feitos e o carácter eterno dos mais ínfimos sinais. Quem diria que, naquele dia concreto, a uma certa hora, um homem morria para que dessa morte nascesse a condição do recomeço da vida de um outro e que nenhum deles teve o poder de pressenti-lo? 
“A lei da vida é o eterno, não o efémero” , escreveu Teixeira de Pascoaes, e “na humanidade transluz o divino e temos Deus em Jesus Cristo” . 
Na mitologia panteísta do poeta das “Sombras” e nestas linhas, citadas de cor, de “A Minha Cartilha” vemos a transição e a simbiose, em dialéctica inelutável, do que acreditamos serem duas partes, de duas diversas realidades, e no entanto coexistem, unidas, na inextrincável necessidade que, não somente junta as partes, como necessariamente as funde. 
E outra vez nego o efémero, na sua efectividade, pois a lógica transhumana da realidade cósmica obriga a pequenez dos sinais transitórios, em fugaz percurso, a tornarem-se as inevitáveis cadeias, muitas vezes intangíveis, da imensa e misteriosa dinâmica daquilo a que chamamos vida. 
Uma abelha, por exemplo, é um insecto minúsculo que só nos prende a atenção por duas razões: ou queremos fugir-lhe, e eventualmente matá-la, para que não nos pique, ou aprisionamos o enxame em colmeias para retirarmos delas, o mel. E contudo, estes actos efémeros de afastar a abelha, ou de extrair-lhe o mel escondem um segredo imenso, no que concerne à existência de abelhas no mundo: caso elas desapareçam da terra, o homem saberá que, em quatro anos, as condições da sua existência biológica na terra terão desaparecido para sempre. As abelhas, pequenos entes efémeros, na sua existência aparentemente desrazoável, são, no limite, o sinal irrevogável da nossa perda, enquanto seres da terra. 
Sinto que a minha vida, sendo uma sucessão de episódios e processos, onde o fluxo ordeiro se interrompe, aqui e ali, no sobressalto ou no ápice de uma surpresa, traz em si, no próprio instante do brusco acontecimento efémero, o segredo de uma eternidade, cujo sentido me será revelado, depois, quando permitir libertar-me das vendas que o raciocínio redutor engendra. 
Por isso nada lamento daquilo que me vai encrespando de sobressaltos

e de dores, obliterando felicidades, desvanecendo prazeres, cravando farpas na pele do meu espírito. Esses átomos de desespero, essas sombras agónicas, esses crepúsculos sombrios onde a angústia se acoitou são, afinal, os símbolos indeléveis de muitas realidades paralelas, em mim, todas unidas num sentido, nem sempre legível. 

É necessário, pois, aprender a ler.

Citações de:
Friedrich Nietzsche,  Assim Falava Zaratustra
Teixeira de Pascoaes,  A Minha Cartilha

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