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VIII ENCONTRO DE BLOGUEIROS DO PLANALTO MIRANDÊS

TERESA ALMEIDA SUBTIL
Sabia que, a partir de 1999, Portugal passou a ter duas línguas oficiais? Reconhecida, politicamente, pela Lei 7/99 (aprovada por unanimidade), a língua mirandesa subiu ao lugar a que tinha direito, enriquecendo o nosso património imaterial.
Mercê de estudos e acordos vários, chegou-se a uma convenção ortográfica que serve de apoio a quem nela se queira expressar, na escrita ou na oralidade. O mirandês é falado no concelho de Miranda do Douro, entrando ainda nalgumas aldeias do concelho de Vimioso.
Sabia que a língua mirandesa é leccionada no Agrupamento de escolas de Miranda do Douro, passo que representa um forte incentivo para que esta língua (representativa da identidade de um povo), cresça e evolua?
Conhecida como língua “amerosa” e “campechana”- na verdade – já se tinha mundializado através da canção. De sonoridade melódica, faz-se eco nos dedos perdidos dos poetas.
Apraz-me dizer aqui que eu sempre a cantei e bailei, desde que vim dar aulas neste concelho. Foi e é uma verdadeira paixão.
O grupo de folclore de professores do planalto mirandês (do qual faço parte) levou pela primeira vez as danças mistas à Índia e, com elas, a língua mirandesa.
Sabia que, no mês de Julho, há um festival em que podem participar todos os que quiserem cantar em mirandês?
Sabia que, no dia próximo dia 22, se realizará o VIII Encontro de Blogueiros do Planalto Mirandês?
A ideia deste encontro de blogueiros nasceu debaixo duns carvalhos e cresceu à volta duma posta, duma fogaça e duma pinga de vinho.
Na verdade, ainda eu não tinha entrado para este grupo e já o tema me fascinava. Já via a cultura a ser pesquisada e partilhada pelos caminhos das terras do planalto.
Se não formos a árvore que vai fundo aos fios de seiva com todos os elementos indispensáveis à vida, se não formos a ave que respira a liberdade de sentir, de dizer, de cruzar fronteiras físicas e mentais; então de que serve este fôlego de vida que tão incrivelmente nos foi dado?
É um dia, do meu ponto de vista, de grande aprendizagem.
Há, também, muito para desfrutar no blogue “Froles Mirandesas” acerca destes invulgares encontros.
O pendão foi o chamariz de Thiegui (mordomo principal em 2014), o ponto fulcral do encontro em Cicouro. Pega-se numa ponta e a história vai-se desenrolando …
Este ano tenho um osso do metatarso partido e dói esta impossibilidade em calcorrear caminhos. As canadianas ainda são, para mim, empecilhos. Mas não faltarei, não sou capaz.
Confesso que gostaria de estar no recital de guitarra de Dinis Meirinhos – logo à entrada, na igreja matriz -, um neto da terra, gostaria ir ao forno, às cruzes dos caminhos, à fonte do cerejal e à igreja do Naso. Ah, e nos poemas atirados ao ar (em mirandês, lionês e asturiano), quem não gostaria de estar?
Talvez consiga estar presente nas palestras sobre pendões e carris mouriscos, temas da terra e das gentes, temas a ressumar história.
Talvez consiga estar no “taquito” e na merenda em casa da mordoma principal e no almoço de carne assada na brasa, por baixo dos carvalhos, a relembrar o 1º encontro. Juntarmo-nos a comer é, realmente, um ato sagrado, disse num desses preciosos momentos em que Amadeu Ferreira pensava alto, connosco (como um raio de luz, encaixou-se-me aqui a última ceia de Cristo). Era sempre simples e alto o pensamento deste blogueiro, um líder natural, como o malmequer que rompe a dureza do chão e nos diz que a luz existe.
A língua mirandesa começou a ser divulgada na Internet (blogues de cariz literário e com objectivos de estudo e desenvolvimento), talvez a partir de 2007. Este encontro anual nasceu, naturalmente, da necessidade de união por uma causa comum e trouxe como mais-valia o convívio e a amizade entre os participantes. É um encontro aberto a todos os que desejam conhecer de perto a língua e cultura mirandesas, e é certo que, nestes encontros, vamos caminhando com quem vive abraçado a ela. É, com avidez, que bebo cada palavra, cada pedaço da arquitectura e da história do planalto, histórias curiosas de famílias, toponímia, arte sacra, enfim: registos que guardam as memórias e o saber das gentes do planalto mirandês.
É uma paixão que, como todas as paixões, necessita de ser alimentada. Este ano prosseguiremos na Especiosa e Naso.
Insiro aqui um poema, em mirandês, um dos que irá ser dito pelos caminhos da aldeia da Especiosa – Miranda do Do Douro.
Assomadeiros resbalinos

Ardo ne l deseio de bolar,

anque saba q´hai assomadeiros resbalinos,
altas faias an que puoda amouchar.
i nuobos i retrocidos caminos que l suonho percura
i anque l miu pensar
quede suspenso i tremble mirando l peligro,
sien la palabra q´amante
la berdade i l resfuolgo de l miu sentir.

Tengo ganas de bolar.
Esta paixon ye cumo un riu de querer perfundo,
defícle de secar. Chama-se lhéngua mirandesa.
Solo se ousa quando se sinte la bertige de la queda,
mas ye ende que l bolo lheba gozo i plenitude.

Talbeç seia un bolo de colo, buído na calor
I nos beisos de la fala
quando inda nun se sabe falar. Cuido you
que quien me dou de mamar, dou-me, tamien,
este deseio, sien frenos, de sbolaciar.

Traço l risco nas alturas,
percuro fuorça nas alas que la curjidade me dou.
Nun quiero quedar a meicamino,
quiero antrar na sonoridade i na beleza deste falar.
La felecidade stá an ateimar.

Mirantes escorregadios


Ardo no desejo de voar,
ainda que saiba que há mirantes escorregadios,
altos penhascos em que possa encalhar,
e até novos e retorcidos caminhos que o sonho procura
e onde o meu pensamento
fica suspenso e treme ao olhar o precipício
sem a palavra que diga
a verdade e o ímpeto do meu sentir.

Tenho fome de voar
por dentro da tua simplicidade e beleza
Esta paixão é como um rio de querer profundo,
difícil de secar. Chama-se língua mirandesa.
Só se ousa quando se sente a vertigem da queda,
mas é assim que o voo ganha gozo e plenitude.

Talvez seja um voo de colo, bebido no calor
e nos beijos da fala
quando ainda não se sabe falar.
Quem me deu de mamar, deu-me, também,
este desejo, sem freios, de esvoaçar.

Traço o risco nas alturas,
Procuro força nas asas que a audácia me deu.
Não quero ficar a meio caminho
Quero entrar na sonoridade e na beleza deste falar.
A felicidade está em ousar.

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