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SETE DIAS EM PARIS. DIÁRIO. DIA 5# (#Cimetière du Père-Lachaise #Musée Picasso #Centre Georges Pompidou)

“Je suis Charlie – Cemitério Père Lachaise”

“A morte virá para ti como para todos. Pensa que os títulos não te pouparão a ela; que podes ser atingido amanhã, hoje ou daqui a uma hora; e se te fechas no teu orgulho, então eu te lastimo, pois serás digno de piedade”.

Allan Kardec (sepultado no cemitério de Père-Lachaise)

Família Borges Lopes
Da parte da manhã, estava programado fazermos uma visita ao famoso Cemitério de Père-Lachaise. O Père-Lachaise não é apenas um cemitério: é uma das atrações turísticas mais visitadas de Paris, e que consta nos guias de viagem da cidade-luz. Várias personalidades estão enterradas ali, das mais diferentes actividades.
O cemitério, num intrincado conjunto de divisões (ruas, praças, avenidas, escadarias…), tem de ser visitado com mapa. O território é extensíssimo.
Atravessar os portões transporta-nos automaticamente para um outro mundo. E, de repente, parece que estamos afastados da cidade, da grande Paris, de tudo. O silêncio é agradável e convida à contemplação dos túmulos mais variados que se possa imaginar, desde os centenários aos actuais, muitos deles tombados pela força do tempo, carregados de mantos rugosos e musgos, de cruzes e anjos partidos. Os corvos sobrevoam constantemente o cemitério, avançando pelas altas copas das árvores. O tempo sempre presente, a seguir cada um dos nossos passos, acompanhando-nos; o ar carregado de cinza e uma névoa esparsa e húmida.
À mediada que avançamos, vamos descobrindo coisas curiosas. Que, por exemplo, os visitantes tinham o hábito de beijar o túmulo de Oscar Wilde, por isso ele é protegido por um alto muro em acrílico; nele são visíveis recentes marcas de batom. Além de Wilde, entre os escritores, encontramos Honoré de Balzac, La Fontaine, Molière, e Marcel Proust. Entre artistas, os pintores Delacroix, Ingres, ou Jacques-Louis David.
Facilmente se percebe que um dos túmulos mais visitados actualmente é o de Edith Piaf, mas também não ficam esquecidos os de Yves Montand ou de Maria Callas. A minha filha mais velha correu tudo para ver a campa de Chopin, que é, de facto, belíssima e singular.
A mais nova e o pai vão fazendo de guias, interpretando o mapa marcado por “divisões”.
Entre os túmulos mais famosos está o de Jim Morrison, protegido por um largo gradeamento onde os jovens, por vezes em delírio, deixam lembranças, como pulseiras e outros pertences.
O Cemitério é um verdadeiro museu a céu aberto, com túmulos, esculturas, murais, monumentos e capelas de todas as épocas e estilos.
Entre os túmulos mais recentes está o de Bernard Verlhac, conhecido como Tignous, cartoonista do ‘Charlie Hebdo’, uma das vítimas do atentado terrorista de 7 de Janeiro deste ano. Não é possível esconder a comoção perante acontecimentos terríficos tão recentes, tão perto de nós que lhes sentimos o bafo, que roçam a pele aos dias e nos tiram o sono. 
A tarde presenteou-nos com um pouco de sol. As nuvens afastaram-se. Já não havia sinais da chuva do dia anterior.
Cobertos ainda da contemplação dos que já partiram, e dessa bênção da luz de Paris de princípio de tarde, fomos ao Musée Picasso. Este está situado num palacete no alto do bairro Marais. O local abriga uma das maiores coleções do mundo da obra de Picasso. É sempre um assombro contemplar Picasso, um desassossego maior.
Vale a pena visitar. O museu está muito bem organizado, a visita faz-se com a devida calma e tempo necessário de observação. Não é todos os dias que podemos contemplar as obras de um dos mais influentes artistas do século XX.
Em viagem o cansaço não nos vence. Foi momento de apanhar o metropolitano, atravessar a cidade, e dar cumprimento a mais um desejo das filhas: visitar o Hard Rock Café. É, de facto, um local emblemático. E elas não perdoavam à T-shirt. Claro, havia fila de para comprar as ditas, por isso, ficámos por ali, calmamente, apreciámos todo o espaço, e depois fomos comer um gelado para recobrar forças. 
O fim de tarde e noite estavam reservados para o Centro Georges Pompidou (Centre National d’Art et de Culture Georges-Pompidou). Este complexo construído na década de 70 abriga museu, biblioteca, teatros, entre outros aparelhos culturais. Trata-se, sem dúvida, de um projecto arrojado, inserido na arquitectura moderna high-tech, inspirada na arquitectura industrial e nas novas tecnologias, e continua a ser amado por uns e odiado por outros. A forma como está implementado configura um espaço público (a praça do Centro) para o qual as suas atividades internas se estendem.
Quando se tem duas filhas interessadas em artes, uma delas, efectivamente, aspirante a arquitecta (estudante de Artes), é um orgulho disfrutar (d)estes momentos, trocando ideias, impressões; uns criando mais empatia aqui, outros ali. Torna-se uma viagem bastante enriquecedora.
Quer na arquitectura, quer nas obras expostas e instalações, é deveras interessante observar a conjugação dos elementos tecnológicos como objetos estéticos, como é, por exemplo, o caso das grandes tubulações, das escadas rolantes externas e do sistema estrutural em aço. É de um espanto exorbitante!
No Centro Georges Pompidou encontra-se o segundo maior acervo

de arte moderna e contemporânea do mundo, com obras-primas de todas as partes do planeta. Podem ver como nos sentimos importantes, então. Estão lá muitas das mais importantes obras-primas modernas da Europa, que representam os movimentos artísticos do fauvismo, cubismo, surrealismo e expressionismo abstracto. Está lá o nosso Amadeo de Souza-Cardoso, “nosso” também conterrâneo!

Quando acabámos a visita às diversas galerias do museu, a minha filha mais velha (depois de ter visitado o Louvre, o D’Orsay, o Rodin, o Picasso…) disse, com um certo ar de estranheza: “Pronto, já vi o meu livro (quase) todo de História e Cultura das Artes. Só falta Itália”.
Bem. Parece que a nossa próxima viagem já ficou aqui prenunciada.
Ao cair da tarde, observávamos Paris do alto do Pompidou, um belíssimo pôr-do-sol, um dourado maravilhoso de aquecer a alma e puxar o sonho às entranhas.
Contrastando com as históricas fachadas de pedra dos edifícios de Paris, o Centro Pompidou ali estava, um espanto ao pôr-do-sol da cidade, uma construção propositadamente inacabada, pós-moderna, de aspecto industrial, em beges-azuis-e-laranjas, de aço e vidro. Como li algures, “a disposição de abraçar o novo”.
Aspectos positivos: Se há dias perfeitos, poderemos dizer que este foi um deles. O Pôr-do-sol é lindo em Paris. Mais uma vez, revelou-se muito agradável passear a pé em Paris.
Aspectos negativos: Deveriam existir mapas no guiché do cemitério; afinal, é um lugar (também) turístico e as pessoas, literalmente, andam em círculos e não encontram as campas que pretendem visitar se não estiverem devidamente orientadas. Nós comprámos um mapa numa lojinha ali em volta, que descobrimos por mero acaso. 

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