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DO DESPREZO DAS ARTES

GABRIEL VILAS BOAS
Há poucas horas, os dois principais candidatos a governar Portugal nos próximos quatro anos debateram sobre as propostas que cada um dos seus partidos apresenta para Portugal. Foram quase duas horas de perguntas, respostas, réplicas, ataques e contra-ataques, mas não conseguiram encontrar tempo para dedicar um minuto a falar de Educação. Os três experimentados jornalistas também não acharam necessário… É muito triste e lamentável, mas é o que é!

Se a Educação, no geral, não mereceu uma palavra porque haveriam de se pronunciar sobra a Educação Artística, que teve e continua a ter uma condução ministerial vergonhosa, durante os últimos quatro anos? 

Apesar de nada disto não nos surpreender, não deveríamos deixar de nos indignar. O ministro da educação acha que já faz muito em garantir a escola do ler, contar e escrever. Tudo o resto parece supérfluo e desnecessário. Apesar de as aulas terem terminado há três meses, ainda só agora colocou psicólogos nas escolas e só na semana passada informou as escolas do ensino artístico da música dos profundos cortes que atingirão mais de oito mil alunos. Escuso de lembrar que o ano letivo passado começou com quase dois meses de atraso porque o MEC não colocava professores, nem libertava verbas para contratos nem se comprometia com futuros pagamentos. 
Durante quatro anos a política governamental para as artes em geral e a música em particular foi de rude desprezo. O ensino da música e da dança parece ser aquela coisinha menor e fofinha que se deve apoiar, de vez em quando, porque se está bem-disposto ou fica bem na fotografia. 
Cabe lembrar que a cultura em Portugal paga impostos como qualquer outra área, que tem aumentado as receitas do estado através dos impostos cobrados nas entradas de museus, espetáculos de música, teatro e dança. O público português está cada vez mais interessado em produtos culturais e, por isso, exige, que os seus filhos possam desenvolver as suas aptidões artísticas. A cultura só crescerá em Portugal quando o seu gosto for desenvolvido na Escola. Na Escola Pública, obviamente, porque a cultura não deve ser um produto de elites nem para elites. Investir recursos numa turma de ensino articulado é investir na libertação futura da cultura do jugo dos subsídios estatais. É possível que apenas um ou outro aluno consiga singrar como bailarino, músico ou ator, mas é certo que mais de 50% daqueles alunos serão assíduos consumidores de teatro, música ou dança, enchendo, no futuro, as salas de espetáculos do mesmo modo que vão a um jogo de futebol ou viajam. 

Além do enriquecimento pessoal, colheremos frutos a nível geracional, na medida em que teremos filhos e netos mais cultos e sensíveis às artes. 

A campanha eleitoral está a começar. Daqui a dias Passos Coelho, Paulo Portas e António Costa percorrerão as ruas das nossas cidades e aldeias a distribuir beijinhos, abraços e acenos. Aproveitem a presença dos jornalistas e perguntem-lhes o que farão eles para que o vosso filho possa aprender a tocar viola de uma maneira consistente ou a vossa filha a dançar e a representar. Peçam explicações a quem governou sobre os cortes no apoio ao ensino da música para o próximo ano letivo e relembrem-lhes os atrasos nos pagamentos do ano passado. Afinal de contas, não nos aumentaram o IRS, o IVA, não vos cortaram salários? Perguntem-lhes para onde foi o dinheiro que lhes entregámos todos os meses. Se não o fizeram agora, não se venham lamuriar nos próximos anos. A altura de falar, de reclamar, criticar é agora. E também de decidir se aquilo que desprezamos é a retórica política ou o ensino artístico das futuras gerações de portugueses.

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