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ACERCA (DE CERTA ESCURIDÃO) DA ESCRITA

ALVARO GIESTA 
O grande poder de escrever com recurso à profusão de imagens – esse poder dos símbolos – que possuem uma força expansiva tal que captam a vasta realidade, falseando-a, deve ser usado com método e a devida atenção à subtileza e ao rigor da palavra. POrque, não sendo assim, ainda que a significação que se extrai do uso desses símbolos seja uma riqueza, o real falseia-se e a narrativa ou verso multiplica-se de ambiguidade e falta de qualidade que, pela realidade ficcionada, melhor diremos, pela realidade criada através dessa profusão de imagens, não permite, que o leitor menos atento separe o trigo do joio. Dá, a estes, a tal miragem do deserto e fá-los perder na sua imensidão de areias julgando estar ali, à mão, a tal imagem que desejam alcançar para se dessedentarem da sede que os aflige. É que, nem sempre tudo o que é luz é oiro!…
É no e do recurso que se faz no uso da imagem no processo da escrita, que permite distinguir o grande intérprete da palavra do medíocre escritor. E a literatura, neste caso, fica ameaçada pela confusão de ideias, pela profusão de linhas de força que se criam no texto com a intenção de o tornar mais atractivo – não ao leitor que o interpreta mas ao ego do seu autor -, que breve entram em tensão e fracturas. Fica, assim, ameaçado o texto pelas ambivalências e ambiguidades criadas, pelas difusas trajectórias, de choque e fuga, entrecruzadas na narrativa, seja o texto prosa ou poesia. Nestas linhas de força formadas pela aglutinação de palavras como se fossem palavras-chave de qualquer dilema, ficam perdidas ideias que não se encontram no meio dessa profusão de imagens nascidas da imaginações férteis mas mal cultivadas, não apenas pela falta de leituras fundamentais para uma boa aprendizagem da escrita mas, também, pela falta de rigor e critério de quem incentiva à escrita e à publicação de obras.
A urgência da palavra mete-nos, muitas vezes, medo de a usar. Também nos impulsiona a usá-la sem regra nem método e sem rigor, nessa urgência que temos em darmo-nos a conhecer no mundo da escrita. Fugidios são os tempos e tudo fazemos, e quantas vezes de qualquer modo, na ânsia de protagonismo. E, então, para sermos o sol que queremos mais brilhante que os outros astros, ficamos cegos às evidências e enfrentamos, sem medir o risco da falta de qualidade, o tal frenesim inquietante e sem método da escrita – o da proliferação das imagens. Elas toldam-nos os sentidos impedindo-nos de acordar do sono em que andámos uma vida envolvidos. Há uma sensação estranha que nos acabrunha e quase atormenta e nos impede de nos interrogarmos sobre a qualidade da coisa, “porque temos medo” de mudar esse imaginário da escrita com mais medo, ainda, de perdermos o protagonismo.
Por outras palavras: a urgência da palavra escrita afoita-nos de tal ordem que nos esquecemos das regras elementares do seu uso e cometemos, nesse uso, o abuso de as escrevermos sem nos darmos ao trabalho de analisar o erro, o sentido e/ou significado que ela tem no texto; se ela enquadra no que pretendemos transmitir; ou seja, se ela não rouba a ideia ao contexto e se com ela, naquele sítio exacto em que a colocamos no texto para o significado que lhe pretendemos dar, não prejudicamos a interpretação que se faça da sua leitura. É nessa urgência da escrita que o autor deve saber criar o seu símbolo com método e regra.

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