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DONA SALOMÉ

HÉLDER BARROS

Quero hoje escrever sobre uma grande Pessoa de Amarante, que sempre que encontra a minha Mãe tem a amabilidade de lhe perguntar por mim e lhe refere que tem muitas saudades da criança na imagem, a correr e a brincar no Café Bar, facto que a encantava a ela e ao seu falecido marido, o Prof. Gonçalves. A Senhora de que vos falo é a Dona Salomé, uma muito respeitável Professora de Amarante que, com o seu marido, o Professor Gonçalves, soltavam sonoras gargalhadas, com as minhas diatribes e tonterias de miúdo. 
Trata-se de uma Senhora ligada à Cultura Amarantina, com inúmeras incursões na Escrita, quer de caráter literário, mormente Poesia e Crónica, quer ao nível jornalístico puro. Dotada de uma admirável qualidade na produção literária, encantou muitos amarantino e não só, com a sua colaboração semanal em jornais locais e nacionais. Esta crónica não é mais um elogio, entre tantos merecidos que tem recebido durante a sua vida, quer profissional enquanto Professora de elite, quer enquanto colaboradora em inúmeras publicações locais e âmbito mais abrangente; afinal, quem sou eu para avaliar uma tão Grande figura Amarantina das letras. Quero apenas evidenciar a ideia que alavancou a criação desta crónica: a constante referência e permanência na sua memória do menino que a encantava e que, por acaso era a minha pessoa, facto que me deixa bastante emocionado.
Trata-se da reminiscência dum tempo em que os Cafés de Amarante (Café Bar, O Nosso Café, O Nosso Sonho, O Café Morgado), se constituíam como autênticos areópagos culturais, onde Figuras simples e ao mesmo tempo ilustres da nossa então Vila de Amarante, se encontravam em sessões informais de convívio que, à partida, poderiam não cativar um miúdo de tenra idade, mas que, pelo contrário, me trazem recordações muito importantes para a minha formação enquanto cidadão integral. Figuras como a Dona Salomé, o Sr. Gonçalves, o Sr. Abelámio, o Sr. Pinto Coelho, o Sr. Soares, o Sr. Natal, o Sr. Olegário Rosas, o Eng. Pinha, o Sr. Matias, o Sr. Amaral, o Sr. A. Magalhães, o o Sr. Brandão, Sr. Antunes, o Dr. Luís Coutinho (um intelectual puro), a Dona Amélia Laranjeira, o Sr. Castro e esposa… entre tantos outros que me fazem sentir um privilegiado, só por ter podido conviver com Eles…
A profundeza das suas conversas era de tal ordem, que eu inicialmente não as poderia entender, mas como a nossa mente é algo semelhante a um recipiente de conhecimento, complexo e criterioso, fui ao longo da minha vida afetado positivamente, por tudo o que aqueles seres maravilhosos refletiam, acerca de temáticas diversas, sempre com uma tónica de humor que conferia mais encanto ao que se aprende e apreende. Pessoas com diferenças vincadas, ao nível político, sóciocultural, mantinham sempre pontos de entendimento estribados em laços de amizade e de respeito, que, definitivamente, hoje em dia já não se cultivam.
Eram vários os cafés onde se encontravam estes seres de tão maravilhosa sapiência, encantatório até para um jovem ser que, ao invés de ficar entediado com tão profundas dissertações, ouvia embalado pelas narrativas mágicas e sempre pontuados por um enorme sentido de humor, dos seres em questão. Da Dona Salomé, recordo um registo sempre mais sério e compenetrado, a sua palavra que rematava quase sempre o que se discutia, pois a sua eloquência fascinante, apoiava-se num raciocínio que ia mais além, sabia sair do conhecimento mais imediato, para nos levar a reflexões mais complexas e abrangentes, ligadas ao sonhos e utopias dos homens, o que só vem corroborar a ideia que é profusamente corrente em Amarante: é uma humanista na verdadeira acepção da palavra, em tudo o que diz, escreve, ou faz!
Creia a Dona Salomé que é muito difícil a alguém que era tão novo como eu, esquecer esse casal maravilhoso, que a Senhora formava com o Professor Gonçalves. Este sempre mais efusivo e estridente, no seu estilo de interação com os outros; a Senhora sempre mais circunspecta, atenta e pensativa, no sentido de atribuir aos diálogos um sentimento sempre mais profundo e integral. Afinal a Senhora é uma Professora e uma Poetisa, como poderia ser de outra forma?!
Como a Senhora pergunta à minha Mãe pelo menino que enchia de alegria o Sr. Gonçalves e o Largo de São Gonçalo, eu só posso responder de uma maneira muito simples: “Estou muito melhor Ser humano, por ter assistido a tanta tertúlia informal de seres enformados com uma inteligência, mundividência e humanismo, muito superiores aos comuns mortais”. Pena tive eu, de não ter sido seu aluno… os que o foram podem-se considerar uns privilegiados!
Muito obrigado por se lembrar de mim, a honra é toda minha e mais uma vez tenho que me penitenciar, por não ter conseguido sequer aproximar-me do tanto que tinha para contar de uma tão Nobre Senhora de Amarante que será sempre para mim: a Dona Salomé!

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