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JOSÉ MARAFONA – O FOTÓGRAFO DO “RACIONAL-IRRACIONAL”

ALVARO GIESTA 
Dos seguidores da arte de escrever com luz que conheço, há um que me toca particularmente pela sua originalidade em retratar o mundo que, não sendo nova, continua a impressionar. Pelo menos a mim, leitor mais ou menos atento que sou destas manifestações artístico-filosóficas do ser. José Marafona, assim se chama ele. Um fotógrafo diferente. Um fotógrafo conceptualista. Um surrealista, na verdade, carregado com fortes doses de razão!
Assim define, ele, a sua arte conceptual: “O conceptualismo aplicado à fotografia é uma “ferramenta” que pode ser ajustada por forma a criar fronteiras ténues entre estados mentais próximos do surrealismo, mas separados logicamente por uma pequena dose de razão.” (Marafona, 2002) Talvez possamos então ver nele mais um fazedor de imagens usando a razão, do que um fotógrafo; convenhamos, pela análise das transformações racionais que faz às suas imagens depois de capturadas pela objectiva da sua máquina fotográfica. Põe nelas, no remanso do seu estúdio, aquilo que a imaginação lhe dita no momento em que espreita o objecto a capturar.

Deixem-me que, de José Marafona, que conheço pessoalmente mas de quem me vou divorciar neste processo de escrita crítica a fim de separar as águas da razão das águas da emoção, expresse dele o que eu penso da “racionalidade-irracional” das suas imagens.

Há muito que deixei de o ver por aí, em sites e exposições, que eu bem gostaria que tais fossem realizadas com maior frequência. Mas entendo que um artista da sua envergadura, pela exigência que faz de si próprio na execução do seu trabalho, necessita de dias, quiçá semanas ou, até meses, para preparar e levar à execução uma exposição das suas imortais fotografias surrealistas. José Marafona marca a diferença pela diferença das suas imagens. No acto de capturar ele consegue ver, usando a imaginação, para além do normal visto pelo óculo da sua máquina; vê, usando a imaginação, mais do que aquilo que efectivamente o comum dos mortais vê. É, como que, o seu contrário com outro subconsciente a conseguir ver para além do real que aos seus olhos se apresenta. É um poeta a escrever com a luz. Captura o mundo real que lhe fornece a objectiva e transforma-o, depois, duma maneira inquietante e imaginária, mas racional, num mundo outro, um mundo tão seu, instável e transitório. É a fuga do fotógrafo-poeta ou do poeta-fotógrafo para além de si.
Como José Marafona retrata a deformação deste mundo(!), na composição que faz das e nas suas imagens fantasmagóricas, segundo o seu método que me atrevo a classificar quase de “paranóico-crítico”, tão próprio dos surrealistas dos anos 30. Deixem-me que vos diga que o Mestre da imagem José Marafona – meio esquecido pelos mass media – é, dos que conheço da actualidade (e são poucos, mesmo muito poucos, com a sua categoria e craveira), o mais próximo de Salvador Dali. Uma dúvida se me põe, às vezes, a este respeito: “estará ele mais próximo de Dali ou este de Marafona?” – um na fotografia, o outro na pintura, obviamente!

Perdoem-me os seguidores de Dali, pela comparação que faço, mas é o que penso e o que sinto ao ver as imagens de um e de outro. Um desabafo para dizer de Marafona, que muitos dos “pseudo-conceptualistas” que pululam por aí, são apenas “pseudo-coisa nenhuma” ao lado da sua sombra. Devo confessar, nesta altura da escrita, que até eu já fiz uma vergonhosa tentativa e, cabisbaixo, me arredei dessa senda intentada sem sucesso.

Plagiando Salvador Dali nas suas palavras sobre si ditas, José Marafona, também, neste seu método quase “paranoico-crítico” constrói/destrói esta “sociedade de palhaços monstruosamente cínica e tão inconscientemente ingénua, que faz o jogo da seriedade para melhor esconder a sua loucura”. Marafona dá forma à vida a partir dessa “mistificação do mundano”, nessa “transformação ininterrupta do objecto” sob a “visão-exame” paranoica das suas muitas realidades do “mundo exterior”, tão “instável e transitório” – já André Breton o dizia de Salvador Dali e eu o considero agora de Marafona. Tal como aquele via deste na análise das suas telas, também eu leio nesta fotografia conceptual de Marafona, uma maneira distorcida de ver o mundo real.
Fotografia racional-irracional tão suspeita como perturbadora, quantas vezes com um sabor terrífico, até, pela forma que imprime ao mundo nesta sua visão real-irreal da realidade transformada, que impõe aos outros com a precisão imprecisa das multifacetadas leituras a que levam os seus objectos fotográfico-fantasmagóricos. Existe uma “irracionalidade concreta” e única nas fotografias fantasmagóricas com que distorce o mundo em redor do humano depois de o observar sob um cirúrgico olhar crítico sem qualquer laivo de loucura mas, antes, recheado de uma racional lucidez que só os arautos da sabedoria, em dissecar, conseguem. O seu lado místico casando tão bem a fé com o terrífico – ao lado da cruz a representar o Bem, tão presente nas suas imagens, o outro lado a mostrar o Mal. Quase sempre a oposição de forças antagónicas na sua visão “paranóico-crítica” muito além da simples visão de qualquer mortal.
Que pretenderá Marafona neste seu método meio louco de “fabricar” a imagem? Inventar-se a si mesmo nestes clarões súbitos e abruptos em impulsos e por impulsos de tempo sem obedecer a regras, sem seguir um mestre que lhe guie o norte? Na incandescência das suas imagens ele mitiga a sede da diferença, talvez para se mitificar no eu-fotógrafo-conceptual diferente de quaisquer outros que por aí apareceram nos séculos que o antecederam. É um José Marafona sem mestre que se mitificou a ele próprio no seu método sui generis de escrever com a luz. O valor das imagens que cria reside no facto de, em si mesmas, elas se tecerem como símbolo, urdirem elas próprias a sua dignidade, falarem por si mesmas sem necessidade de conhecer o mestre. 
Quanto esforço se faz para se poder ler o seu pensamento sobre as suas imagens, puras invenções surrealistas! Quanto interesse despertam os objectos desconcertados das suas figuras carregadas de “ambulantes fantasmagorias” – figuras que nada têm de abstracto mas tão concretas se apresentam! – ditadas pela exploração sábia que faz do eu-subconsciente. É na incandescência das suas imagens únicas, que se distingue como mestre de si próprio. Sabe explorar tão bem o seu subconsciente para poder ver para além do real! Impede que, nesta sua maneira paranoica e única de transformar a real

idade tão difícil de se dar a ler nas imagens fantasmagóricas que cria, que outros que por aí andam em tentativas de imitar o Mestre, o transformem no seu mito.

A maneira como tenta ir para além da definição da imagem visual e da sua função dando ao seu acto da visão a capacidade do ver-psicológico, do ver- imaginário, fazem-no olhar para o interior das coisas e transformá-las radicalmente num puro acto racional-irracional, dando-lhe (a sua própria) voz interior, imprimindo-lhe alucinação visual, e fazendo pairar, quem as analisa, numa atmosfera de sonhos. E quantas vezes de sonhos doloridos! Os objectos móveis e silenciosos que compõem as suas fotografias tão racionais quanto irracionais, pelo desconcertante no aspecto absurdo que têm, respondendo a fantasias e desejos claramente latentes, mais que latentes, expressamente manifestados, são talvez o grito da lucidez que ainda existe nesta sociedade de carneiros que seguem o seu pastor de varapau erguido e ameaçador, em que o povo – surdo-mudo e já sem “querer” parece ter perdido a vontade para se opor aos governantes que lhe sugam a seiva e lhe põem a pata em cima do cachaço – é o único a suportar e a puxar o peso da desgraça.

Impressionam-me os seus “Delírios”, os seus “Devaneios” e os seus “Estados de Alma”. E uma pergunta me fica na garganta e sem resposta: Será que o importante em José Marafona é a “obra” que cria forma nesses delírios, nasce desses devaneios e cresce e vive desses e nesses estados de alma, ou são as “ideias-leituras” que a sua arte transmite e fica sem tradução para muita gente que olha a obra e não (se) interroga pela simples razão de que, “pensar” incomoda muita gente?

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