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APONTAMENTO SOBRE "A CIVILIZAÇÃO DO ESPECTÁCULO" DE VARGAS LLOSA

REGINA SARDOEIRA
Acabo de ler a obra de Mario Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo. E sinto uma extrema afinidade com a maior parte dos seus argumentos. E cito-o: 

“(…) porque é que a cultura dentro da qual nos movemos se foi banalizando até se transformar em muitos casos num pálido arremedo do que os nossos pais e avós entendiam por essa palavra? Parece-me que tal deterioração nos mergulha numa crescente confusão da qual poderá resultar, a curto ou longo prazo, um mundo sem valores estéticos, em que as artes e as letras – as humanidades -terão passado a ser pouco mais do que formas secundárias de entretenimento, no seguimento daquilo que os grandes meios audiovisuais oferecem ao grande público e sem maior influência na vida social. (…) “*

Fixo-me nas palavras” entretenimento” e “espectáculo” e percebo que quase tudo o que hoje corre sob o nome de cultura tem por quase exclusiva finalidade divertir, fazer passar o tempo de um modo agradável e leve ou envolver-nos numa apoteose de luzes, de cores, de sons que possa alienar-nos, esbatendo o pesado fardo da nossa vida real. Deste modo, nada é para ser levado muito a sério. Um livro deve ser simples e acessível, uma música, leve e que, de preferência, dê para dançar, uma pintura, feita de cores harmoniosas ou de acordo com a decoração da nossa sala. 
Lendo este ensaio do prémio Nobel da Literatura de 2010, reencontro-me e quase me perdoo por não participar em inúmeros e contínuos eventos “culturais”, redimo-me da minha ausência frequente de múltiplas plateias por onde escorre a “cultura” e justifico a fuga com que me vou demitindo de publicar os livros que, apesar de tudo, não paro de escrever. 
Nada me apetece fazer que tenha alguma semelhança com os actos mais do que frívolos que testemunho, um pouco por toda a parte, actos em que se lançam livros em cerimónias convencionais e repetitivas, ou se descerram lápides e se inauguram monumentos, ou se organizam feiras e exposições para fingir que nessas festividades recreativas se realizou cultura. 
Se, por esta ou por aquela razão me acontece ver-me envolvida numa dessas manifestações, logo me assalta um estranho sentimento e volto a citar Vargas Llosa: 

“Até que, de repente, comecei a sentir que muitos artistas, pensadores e escritores contemporâneos estavam a gozar comigo. E que não era um facto isolado, casual e transitório, mas sim um verdadeiro processo do qual pareciam ser cúmplices, além de certos criadores, os seus críticos, editores, galeristas, produtores e um público de papalvos que aqueles manipulavam a seu bel-prazer, levando-os a engolir gato por lebre, por razões crematísticas e às vezes por puro snobismo. “*

Sim, é isso mesmo e ainda bem que não se trata de uma esquisitice minha, esta de não conseguir levar a sério certos escritores, ou pintores ou músicos, e me sentir incomodada pois não me resigno a fazer coro com elogios, citações e reconhecimento de mérito dos que pouco ou nada valem e contudo lançam correntes e modas. 
A Sociedade do Espectáculo, a do livro de Vargas Llosa, que é esta em que vivemos, tomou conta de tudo, nada nela é profundo ou elaborado, porque a vida de todos os consumos cansa muito e no fim é necessário descontrair. 
Descontrair, na mornidão de um sofá, fazendo deslizar o comando da televisão daqui para ali e só captando fragmentos ligeiros de tudo e de nada; na imobilidade fixa de uma secretária, movendo o rato do computador em busca da pequena informação ou da coscuvilhice banal; no folhear lascivo de brochuras escritas de propósito para preencher o ócio ou remendar vazios. 
Espectáculos, quantas vezes medíocres ou francamente maus, onde se misturam técnicas e se vai saltando de um motivo para outro – dos discursos para o teatro, do teatro para o canto, do canto para os meios audiovisuais… – numa mescla estonteante, de onde não saberemos muito bem como sair. 
O pior é que não vemos indícios de que seja possível reverter esta situação, dificilmente encontraremos, uma vez mais, a pureza nítida que separa o bom do mau, que traça a fronteira para o médio e o medíocre, dificilmente será restaurada a importância dos valores criados pelos grandes génios da literatura , da pintura, da arte, enfim, cujas nobres lições poderiam servir de escola – e qualquer mestre forma, mas deve ser abandonado pelo discípulo – as reputações criam-se e desfazem-se com a velocidade de um relâmpago, sem deixarem a sombra de um lastro que valha a pena reter. 
Penso que apenas uma espécie de cataclismo, capaz de fazer regressar a humanidade a uma era primitiva, na qual não restassem indícios ou memórias deste nosso tempo incaracterístico, poderia devolver ao homem o gérmen original da pureza criadora. E, com a luz do alvorecer, começaríamos de novo.
*Mario Vargas Llosa,  A Civilização do Espectáculo,  Quetzal

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