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PROPOSTA ELEITORAL

GABRIEL VILAS BOAS
Daqui por umas horas chegará ao fim uma das mais pífias e desinteressantes campanhas eleitorais de que tenho memória. Suponho que o anunciado resultado final trará uma inusitada vantagem à sociedade portuguesa: a partir de 5 de outubro, os portugueses deixarão de ter o direito moral de se queixarem permanentemente daqueles que os governam. Acho que já não há mais paciência para os estafados “são uns enganadores, prometem uma coisa e fazem outra”, “estão sempre a cortar nos direitos dos trabalhadores” ou aquele comum “são uns ladrões que apenas defendem o capital”. Desta vez não há como reclamar. 
Aquela espécie de cidadãos, que tem a arte de nos fazer babar com todo o tipo de patranhas, foi honesta: assumiu que enganou, que falhou, que cortou nas pensões. Acho que o povo adorou a sinceridade dos estupores e vai renovar-lhes o contrato por mais quatro anos. Sem qualquer tipo de ironia, os políticos deixaram de ser os piores de nós.
Mas o objetivo da crónica de hoje é diferente. Porque gosto de tradições e tempo de eleições não é tempo de eleições sem uma boa promessa ou uma ideia interessante para resolver maleitas coletivas, resolvi lançar a minha proposta. Aproveitando a pobreza franciscana dos partidos do arco da governação, gostaria de propor algo para melhorar dois setores que me são muito caros: a educação e a cultura.

Quase todos os professores acham primordial para a boa formação dos alunos portugueses que estes vão ao cinema e ao teatro, visitem exposições, conheçam os principais museus nacionais, sejam capazes de ouvir um concerto de música clássica ou assistir a um espetáculo de dança. Ao mesmo tempo, os agentes culturais suspiram por malta nova nas salas vazias de quase todas as sessões.

O problema é o de sempre: o custo. O bilhete, a deslocação, as refeições… Sempre achei que esse nem era o principal obstáculo, mas antes a falta de uma mentalidade artística que a escola não conseguiu formar.
Infelizmente as únicas memórias que centenas de milhares de portugueses têm de uma sala de espetáculos foram “aquela vez em que o professor de Português os levou a ver o Auto da Barca do Inferno”. Entretanto passaram décadas e muitos já se tornaram sócios do Futebol Clube do Seu Coração e deram por concluídos os seus investimentos em lazer, arte e desporto.
Claro que há ainda uma minoria de jovens que viaja, que lê, vai à ópera e não perde uma estreia no D. Maria II ou no S. João, no Porto. Esse pessoal até aparece na televisão e normalmente sofre de uma doença rara em Portugal: tem bom gosto e pensa pela própria cabeça. Obviamente são uns “chatos” e não dão maiorias a ninguém sem fazerem muitas perguntas e várias exigências. Felizmente para os afortunados que nos governam, eles são poucos. E para sossego de todos, eles acham que assim deve continuar a ser.
Eu não penso assim! Gostaria que a imensa legião de alunos pobres e remediados que cruza as nossas escolas durante doze anos tivesse a oportunidade abrir a boca de espanto perante a magnificência duma peça de teatro ou a excelência de uma ópera.
Por isso advogo que todos os cartões magnéticos que as escolas distribuem no início do ano letivo a cada aluno trouxessem incluídos o acesso gratuito a doze espetáculos / eventos culturais por ano. E que nesses espetáculos não houvesse exclusões significativas. Devia ser possível assistir gratuitamente a um espetáculo de ópera no S. Carlos como a um concerto de música clássica na Casa da Música ou entrar livremente tanto em Serralves como no Palácio da Pena. O aluno poderia usar as suas doze entradas anuais em qualquer altura do ano, em qualquer ponto do país, mas teria a obrigação de proceder a, pelo menos, seis entradas, apresentando na escola um relatório do espetáculo assistido ou exposição visitada.
Por cada entrada efetiva, o MEC devia pagar às instituições culturais um valor entre um a dois euros. Como se pode rapidamente concluir, o investimento não seria tão avultado assim, até porque o dinheiro efetivamente gasto pelo Estado estava sempre dependente do uso do cartão e, em muitos casos, para as mãos do Estado voltava.
No meu entender, este projeto teria de ser implementado durante um mínimo de dez anos, pois qualquer tentativa de mudança de paradigma ou de mentalidade precisa de um período mais ou menos longo para se consolidar.

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