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O DIA CINCO DE OUTUBRO DE 2015

Hoje, 5 de Outubro de 2015, é um dia estranho para escrever uma crónica.
REGINA SARDOEIRA 
Em primeiro lugar, celebra -se a Implantação da República. Mas, como já não é feriado, a data tornou-se comum e os discursos – se os há – repercutem no vazio.
Em segundo lugar, hoje é o dia seguinte às eleições legislativas. E os resultados, pelo que li, não são suficientemente esclarecedores, nem auguram um futuro promissor.
Em terceiro lugar (e esta é uma reflexão mais íntima), o dia 5 de Outubro teve sempre, para mim, um cariz duplicado de festa, pois é o aniversário do meu pai.
Questiono a razão de ser dos feriados. E faço-o a ver se encontro uma razão de peso para que eles existam no calendário…ou deixem de existir.
O nosso tempo cronológico – que não o tempo cósmico, esse que renega toda e qualquer cronometração – é sagrado e é profano. Quando emerge o sagrado, rompe -se a linearidade do tempo profano, onde avultam as rotinas quotidianas com vista à sobrevivência, e um halo redentor e mágico pode abrir-se, a fim de que seja reactualizado o acontecimento a celebrar. É um momento de ruptura com a marcação mecânica do tempo, já que a celebração repõe o passado, fazendo luz sobre o acontecimento a celebrar e permitindo uma reorganização da memória, legitimando o presente e abrindo, nessa medida, as linhas do futuro.
Nesta perspectiva, os feriados são marcadores importantes do calendário, não somente por nos libertarem de um dia de trabalho, mas por possibilitarem a evocação e darem azo à celebração de um acontecimento, inscrito na história e logo motor de transformações. A humanidade necessita destes lapsos de tempo para reafirmar a sua identidade.
Enquanto portugueses, vivemos numa república desde 5 de Outubro de 1910. Nessa data e após uma saga histórica de 800 anos, durante os quais quatro dinastias de reis se alternaram a governar o país, o Partido Republicano venceu o conflito, depôs o regime monárquico e um novo ciclo teve início. Até hoje.

E não precisei de consultar nenhum tratado de história para encontrar um resumo dessa ocorrência.

“A Implantação da República Portuguesa foi o resultado de uma revolução organizada pelo Partido Republicano Português, iniciada no dia 2 e vitoriosa na madrugada do dia 5 de Outubro de 1910, que destituiu a monarquia constitucional e implantou um regime republicano em Portugal.
A subjugação do país aos interesses coloniais britânicos, os gastos da família real, o poder da igreja, a instabilidade política e social, o sistema de alternância de dois partidos no poder (o Partido Progressista e o Partido Regenerador), a ditadura de João Franco, a aparente incapacidade de acompanhar a evolução dos tempos e se adaptar à modernidade — tudo contribuiu para um inexorável processo de erosão da monarquia portuguesa do qual os defensores da república, particularmente o Partido Republicano, souberam tirar o melhor proveito. Por contraponto, o partido republicano apresentava-se como o único que tinha um programa capaz de devolver ao país o prestígio perdido e colocar Portugal na senda do progresso.
Após a relutância do exército em combater os cerca de dois mil soldados e marinheiros revoltosos entre 3 e 4 de Outubro de 1910, a República foi proclamada às 9 horas da manhã do dia seguinte da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Após a revolução, um governo provisório chefiado por Teófilo Braga dirigiu os destinos do país até à aprovação da Constituição de 1911 que deu início à Primeira República. Entre outras mudanças, com a implantação da República, foram substituídos os símbolos nacionais: o hino nacional e a bandeira”
(https://pt.wikipedia.org/wiki/Implanta%C3%A7%C3%A3o_da_Rep%C3%BAblica_Portuguesa)

Deveremos, enquanto portugueses, celebrar esta efeméride? Romper o curso normal do quotidiano e determo-nos, por um dia, a fim de reactualizar o acontecimento? Ou, em prol de um discutível incremento da produção, em tempo de crise, deveremos renunciar à celebração e prosseguir nas actividades do tempo normal, como se não fosse importante parar e, ao menos, perceber a diferença e reflectir?
A resposta, quanto a mim é óbvia: não é apenas por sermos animais que trabalham, em ordem aos lucros, que nos destacamos da restante animalidade, mas também pela memória histórica. Nessa condição, celebrar e evocar recorda-nos quem somos e eleva a nossa condição de humanos. E assim, este dia deveria permanecer feriado, possibilitando às novas gerações um espaço /tempo de reactualizacão de si próprios e aos mais velhos o reafirmar da sua identidade.
No que diz respeito ao acto eleitoral, ontem levado a cabo, cumpre-me efectuar uma brevíssima reflexão – porque o evento não merece mais do que umas escassas palavras.
Há vários meses que tive a percepção nítida de que o governo que nos traçou os destinos, nos últimos quatro anos, iria ganhar, uma vez mais, a preferência dos portugueses. Percebi à saciedade todo o conjunto de manobras – umas subliminares, outras bem patenteadas em múltiplos e espectaculares episódios – que as alternativas foram (lentamente, umas vezes, outras em saltos bruscos) completamente desacreditadas e que nenhum conjunto de seres lúcidos saiu das trevas para salvar o que ainda resta e construir o que há para construir.
Numa monotonia atroz, as personagens que se apresentaram na liça eleitoralista, proferiram centenas de falácias, orquestraram dezenas de acontecimentos, ergueram e derrubaram muitas reputações, lançaram, sempre para os outros, fossem eles quem fossem, as culpas dos insucessos. Tudo se confundiu; e quando chegou a hora de votar, tantas mentes confusas teriam que gerar uma resposta confusa.
Podem tecer-se inúmeras e contraditórias considerações, análises e críticas acerca do resultado eleitoral. Certamente

que muitos o têm vindo a fazer desde que, ao fim do dia de ontem se tornaram públicos os resultados. Sem dúvida que os vencedores soltaram Vivas! e decerto os vencidos puxaram pelos cabelos. Certamente os que viram crescer a sua percentagem de votos – muito embora essa circunstância venha a ter pouco significado prático – puseram na face um sorriso rasgado, mesmo sabendo à saciedade que muitos dos que neles votaram agiram por desespero.

Pela parte que me toca, ausentei-me destas eleições. Não vi debates, não li programas, pouco vi das acções e manifestações de rua. Recusei a todos o direito de me influenciarem ou de me fazerem ter a esperança de que, por fim, a democracia – esta democracia – pode funcionar. E, muito embora tenha o meu perfil ideológico e julgue saber o que deve ser feito, na prática, não dei o meu voto a ninguém. Abstive-me.
Pouco me importa a plêiade de teorias acerca do significado da abstenção e da necessidade de, pelo menos, ir até à mesa de voto votar em branco ou anular o boletim. Não me preocupa que digam que temos o dever de ir, ou que, neste acto decisório, estabelecemos o nosso futuro enquanto cidadãos da democracia. Não quero saber desta pseudoliberdade com a qual nos enganam, fazendo-nos crer que, votando aqui ou ali, estamos a governar-nos a nós mesmos. O certo é que, no acto de votar, perpetuamos um sistema corrupto e irmanamo-nos com todos aqueles que nos querem usurpar o próprio pensamento. Por isso, prescindo do meu direito de marcar uma cruz num boletim e recuso enfileirar no rebanho dos que se obstinam em manter este ruinoso paradigma.
Durante os próximos tempos não verei/ouvirei noticiários, não prestarei atenção a debates, não permitirei ser guiada por quem quer que seja na tarefa de compreender o mundo que me cerca. Observei sobejamente o comportamento daqueles que nos governaram nos últimos quatro anos e também prestei uma profunda atenção aos actos e às palavras dos que almejavam suceder-lhes. Nem uns nem outros me convenceram e os que, à revelia dos primeiros e dos segundos, se mantiveram fiéis a si mesmos não puderam nunca fazer-lhes frente. A mim mesma provei que este sistema de alternância no poder e de luta por protagonismo, individualizado, personalizado em figuras guindadas à categoria de deuses não traduz a democracia porque não passa de um embuste. Um embuste assente numa legislação ultrapassada, viciado num sistema de cartas marcadas, anquilosado em vícios espalhados à escala global. Por isso, ignorar todo o séquito de acções que precederam o acto eleitoral, abster-me de participar, pelo voto, no que reputo uma vilania, não ver e não ouvir os apupos dos vencedores e os gemidos camuflados dos vencidos parece-me ser, para já, a atitude mais digna.
Por fim, e muito embora hoje não seja feriado, procedi como se fosse e celebrei o aniversário do meu pai, em família, tal como havíamos estabelecido aquando da sua morte. Ainda ali está o retrato dele iluminado por duas velas, tal como presidiu à mesa do jantar. E acabo por entender que, lançando um véu de ignorância sobre o triste espectáculo das eleições legislativas, pude evocar o dia da Implantação da República (e o outro, do tratado de Zamora, em 1143)* e regozijar-me com a luta bem sucedida de homens que pugnaram pelo que estava certo, ao mesmo tempo que me deleitava festivamente com a circunstância de ser filha de um homem cheio de dignidade que apenas logrou trair-me uma vez: no dia da sua morte.

* Tratado de Zamora foi um diploma resultante da conferência de paz entre D. Afonso Henriques e o seu primo, Afonso VII de Leão e Castela. Celebrado a 5 de Outubro de 1143, esta é considerada como a data da independência de Portugal e o início da dinastia afonsina.

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