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O RETORNO AO PRINCÍPIO (numa dialéctica Vida-Morte)

«A morte é a forma que a matéria encontrou para continuar a existir… reproduzindo-se em qualquer suspiro, sublimação ou certeza. A vida, que existe em cada sonho, lágrima ou incerteza». – José Marafona (fotógrafo conceptual) 

«O que extingue a vida e os seus sinais, não é a morte, mas o esquecimento. A diferença entre morte e vida é essa». – José Saramago (escritor, prémio nobel da literatura 1998)

ALVARO GIESTA 
O que é a vida? O que é a morte? O que é uma e outra?
É a vida terrena que deixa de existir com a chegada da morte ou é a vida terrena que começa onde a morte acaba? Onde está o instante em que uma acaba e a outra começa? O fim da vida é o começo da morte ou haverá uma fronteira, uma linha divisória, um limite a demarcar o fim de uma e o começo da outra? Ou começará uma outra vida onde a primeira acaba, sendo a morte o limite de uma e outra? Sendo a morte a fronteira onde uma vida acaba e a outra começa…
Quando se afirma que alguém morreu, alguém pode garantir que aquela morte já estaria programada e que o ritual da morte serve apenas como um ritual de passagem para um outro mundo, uma outra vida?
Não sou religioso nem pretendo aqui incutir ideias, as minhas ideias, a ninguém. Pelo contrário, até nem acredito na existência de deus sem provas a demonstrá-lo; como não acredito na sua não-existência, pela ausência das mesmas provas.
Foram estas reflexões em torno da dialéctica Vida-Morte, e o dilema da fronteira entre uma e outra, que me levaram a escrever o livro de poesia “O Retorno ao Princípio”, numa perspectiva poético-filosófica inquietante.
Ponho, em versos, um pensamento tão simples como este:
– quando a vida, através do espírito, da alma, deixa o corpo, já teria dado “um pulo” para o outro lado, ou, por outras palavras,
– quando o espírito chega à fronteira ente a Vida e a Morte, já se esqueceu do que foi a vida terrena, já perdeu toda a essência da vida passada?
Repare-se neste poema

«naufraga-se num sono / eterno // onde se ergue / a transparência da solidão / do espaço / arde / na fulgidez celeste / longínqua chama / a despedir-se / da alma desavinda // inaudível é a força / e estrépita! // emerge / depois, a alma / para fúlgida esfera»

Se esse limite, essa fronteira, essa cortina que separa a vida e a morte ou a vida da morte, pudesse ser definida e se pudesse haver claríssima ciência do que seja a vida e do que seja a morte – cada uma do seu lado do limite, da fronteira que as separa – qual a resposta para estas perguntas:
– o que seria essa cortina, esse limite?
– qual seria a sua essência?
O que é a vida afinal?
É aquele período ou existência do ser humano quando persiste e enquanto persiste a união da alma com o corpo? É o estado que se tem e que se pode afirmar de que se está vivo? É a força do ser, o viver, a duração do ser, o sofrimento do ser até que a morte o conduza a um lugar outro para um destino incerto considerado como imortalidade?
E a morte, o que é?
É o fim da vida ou a linha limite em que a vida acaba para retornar à vida? À outra vida… Não será a morte, antes, um estágio da alma que se desprendeu do corpo, se desligou dele, um repouso da alma para fazer renascer um novo corpo?

Repare-se noutros poemas do livro:

«na espessura umbria / permanecem / por tempo indeterminado / os mortos. // ali se esquecem de envelhecer… // a dor por que passaram antes / existe agora / em esquecimento.// subtil, a inteligência se apura / e deduz / que onde há sombra há luz. // coincidentes / nesse ponto onde se encontram / e se separam / estão em sintonia // para do âmago da sombra / se voltar à transparência / e ser / (de novo) dia.»

«até quando o corpo / permanece /(…) em esquecimento / nos bosques luminosos / e invisíveis / da indizível solidão dos dias / inquietos e sós? // até quando (do) corpo em repouso / absoluto / se decide, em sopro luminoso / a alma / estrépita / em procurar de novo outro corpo? // até quando?»

No meio destas dúvidas todas, neste inquietante dilema, uma coisa é certa! O existir possui dois lados: a Vida e a Morte – as duas metades do mesmo ser, separadas sabe-se lá por que misterioso limite… tão misterioso que, o limite que as separa também as une.
No livro O Retorno ao Princípio, constantemente presente, esta inquietação e esta interrogação:
– qual a fronteira entre a vida e a morte?
– uma e outra estão separadas, para todo o sempre, por esse limite do qual se desconhece a essência, ou esse limite serve, apenas,de margem onde uma e outra se fundem e se desprendem para nova saída?
Então, se assim for, não há limite, não há fronteira entre a vida e a morte.

Estes dois poemas o evidenciam

«dessa sombra assente / em magistral fundo // quando exaurida a força / da luz / se levanta novamente a luz. // nasce / de novo / aí, nesse sítio exacto / da coincidência plena de uma / e outra / no movimento singular do corpo»
e
«anula-se a fronteira / existente / entre a margem da sombra / e da luz. // inaudível / e estrépita força / resulta das entranhas / que aí se fundem / em fúlgida saída. // do corpo se desprende / o âmago / para destino enigmático.»

Para terminar esta simples “resenha” sobre este dilema Vida-Morte, ampliado na nota introdutória que lhe serve de posfácio e deixado, à interpretação do leitor, nos versos inquietantes deste livro, recordo Lobo Antunes que em tempos terá e

scrito: «ninguém sabe o que é a morte, mas também não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida.», e eu, completo: «ninguém sabe se a morte é o fim ou se ela é apenas princípio da vida quando a vida termina nessa fronteira invisível que separa e une uma e outra.»

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