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AMOR, MEU GRANDE AMOR

“Quando não conseguires vislumbrar a alma de alguém, afasta-te e depois regressa.” 

Boris Pasternak

Amor, amor, amor, o que é o amor?

Não há como responder, porque não há outra palavra para simbolizar o que, feito sentimento humano, estabelece uma ruptura feroz entre o conceito e a expressão.
Chamar-lhe-ia antes egoísmo, ou a necessidade de agarrarmos um outro, chamar-lhe-ia narcisismo, ou o desejo de termos um espelho, no qual nos víssemos sempre a nós mesmos, nos olhos do outro, chamar-lhe ia miséria, porque é carência de um outro, sem o qual nos sentimos meios, chamar-lhe-ia luxúria porque não resiste ao derrame dos fluidos carnais e ao apelo dos impulsos mais básicos, chamar-lhe-ia posse, porque desde que dizemos amar, acorrentamo-nos a outrem e obrigamo-lo a acorrentar-se a nós, chamar-lhe-ia loucura porque acreditamos que com o outro vamos conseguir a união perfeita, a simbiose, o encontro… ah o amor, que não o é, porque não resiste aos encontrões da diferença e da individualidade, ao aguilhão do despeito, à bizarra manifestação do ciúme, ao tédio dos gestos rotineiros, ao sorriso dos outros e à partilha, à distância do pensamento e do corpo… o amor que substituímos com a facilidade de trocar peças de vestuário, o amor que cantamos hoje a um e amanhã a outro, quantas vezes usando a mesma melodia gasta, o amor eterno que se esboroa nuns míseros dias, o amor verdadeiro que espeta, quando pode, a farpa da mentira no corpo do amado, o amor puro empestado de mesquinhos pensamentos recônditos, o amor elevado, enterrado dia a dia numa espécie de lama turva, o amor santificado e logo entregue aos poderes satânicos, amor viúvo, amor traído, amor encurralado, amor esquecido e violado, perdido e escorraçado…
Ah como eu gosto de olhar a face felina do meu animal de estimação e ter a certeza que ele não me ama e que tão-pouco o finge, porque não sabe, nem pode jamais aprender, a arte maldita da astúcia dos homens!
Não amam os felinos? E já discordo de mim mesma porque observo a atitude do pequeno animal que vive comigo e sinto que ela – porque é uma gata – me distingue. Sinto que há uma espécie de egoísmo instintivo pelo qual depende de mim e me procura – e nunca disfarça, quando quer de mim o alimento, e me olha com a intenção gravada nos olhos e nos gestos ou quando se refugia nos seus lugares secretos em fuga da minha presença, mas também não disfarça quando me procura para a aninhar-se e se encosta a mim numa intimidade cheia de afecto.
Por isso, foragida do amor humano, esse, que crava contínuas garras de insolência, perfídia e mentira na pele de quem se entrega, absolutamente, descubro o olhar terno desse pequeno ser e sei que ali, recôndita e decerto nunca desvendada, paira uma alma simples que nenhum contágio humano pode perverter.

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