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AMANHECER NO GERÊS

TERESA ALMEIDA SUBTIL
Ao despertar qualquer varanda é palco de contemplação, um convite à evasão dos sentidos: é o apelo da natureza, é a emoção que nos pendura sobre o verde talhado a várias altitudes, é a neblina matinal que nos toca num arrepio de madrugada. 
Não conseguimos ver o rio porque as árvores se lhe entregam e entrelaçam como se fora um romance de encantamentos. Não conseguimos vê-lo, mas ouvimos o seu palpitar impetuoso, o seu cantarolar entre os seixos que vai arredondando em massagens de corrente e vai fazendo caminho na direção de um destino infinito que lhe pertence. Talvez seja esta noção de movimento perene que nos prende ao momento, sabendo que a vida se vai fazendo de pequenos passos e, se não soubermos aproveitá-los, ficaremos com as mãos cheias de coisa nenhuma.
Pressinto um toque romântico que me eriça a pele ao reescrever a poesia do olhar, agora maduro, mas que – aqui – já foi tão verde como as folhas que teimam em manter a tonalidade primaveril ou como os veados que dominam graciosamente a paisagem e desfrutam de total liberdade. Passaram por mim tantas estações, alguns apeadeiros dissonantes, mas é gratificante redescobrir este bosque imaculado. E ao correr da pena deixo cair algumas gotas de orvalho matinal, este pulsar em que me sinto e confundo, como se fosse um pássaro que se enche de audácia e esvoaça para o sítio onde se sente feliz. 
As palavras são, assim, esse poleiro de assombros e evasões. É verdade que tropeçamos em estados de alma que nos dizem que somos muito mais que nós mesmos, que não cabemos no sítio onde estamos e, por isso, voamos – nas palavras. 
Embrenhados na serra, descobrimos fontes dispersas, pausas revigorantes. Há quem nunca esqueça as sedes da Guiné e vá abraçá-las e desfrutar do seio líquido da terra (a guerra gritará sempre na alma de quem a viveu). 
Atrevo-me a dizer que experimentamos uma subtil intimidade com a natureza no rumorejar que nos acompanha, eco de fios de água a serpentear por ali. Parecem tão puros como os sentimentos. Depois, nos meandros da objetiva, surgem azuis intensos, verdadeira alquimia de vida e de amor. 
Na serra do Gerês há partes selvagens e intocáveis. Ali a natureza é ela mesma em toda a sua biodiversidade. Sabemos que o parque nacional Peneda Gerês é considerado pela UNESCO como Recurso Mundial da Biosfera. 
De facto, é grande a variedade e a riqueza vegetal devido às variações de altitude e às influências oceânica e continental. A cabra, o cavalo e a vaca surgem soltos como companheiros de jornada. 
E, de repente, o Outono abre portas, tão lentamente, como se os deuses sussurrassem baixinho um poema escrito em requebros de beleza, um poema que é terra, que é alma, que é vida. 
No Gerês experimentamos, também, um sentido duro de existir, ao vacilarmos nas curvas onde o fragaredo se mostra na iminência de ruir. As penhas parecem empurradas, em desequilíbrio permanente, como um país a doer. E dizem que os demónios vociferam em cascatas alucinantes. 
Debruço-me nos miradouros e deixo-me enfeitiçar. Olho e ouço cantares altivos de montanha e esculturas cinzeladas de espanto.
Por aqui se respira e se entende a presença e a alma poética de Torga:
“Serra!
Há qualquer coisa que em mim se acalma,
Qualquer coisa profunda e dolorida
Traída, Feita de Terra e alma.
Uma paz de falcão na sua altura
A medir fronteiras!
– Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras.”
Parto com fome de voltar, para saborear a magia do amanhecer no Gerês, este desejo insubmisso de acordar em lençóis de neblina, em beijos humedecidos, nesta sensualidade a derramar-se à flor da pele. Parto com uma agradável sensação de leveza, sentindo em pleno o ser físico e espiritual que somos, em qualquer momento e em qualquer lugar.

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