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DEVOÇÃO HUMANITÁRIA

O único problema do nosso tempo é saber como se hão-de guindar as massas à vida e à cultura. Mais nada. A ciência tem pés, e anda por si. A arte vai de vento em popa no seu caminho, já glorioso de resto. Mas há uma grande parte da humanidade que nem sequer sabe andar ainda. E não há dúvida que é preciso ensiná-la a saber. Como? É o que resta saber. Os quadros da nossa cultura têm possibilidades que não foram nem de longe esgotadas (…) Mas para isso não basta só uma doutrina. É preciso também uma devoção humanitária.”

Miguel Torga, Diário IV, Coimbra

REGINA SARDOEIRA 
O grande problema da humanidade não passa, segundo a perspectiva de Miguel Torga, pelo desenvolvimento da arte ou da ciência, porque qualquer uma delas tem o seu rumo garantido. O que falta ao homem de agora é o acesso à cultura; mas, para que tal possa desencadear-se, não bastam as doutrinas, sendo necessário aquilo a que Miguel Torga chama “uma devoção humanitária”.
Analisada e sintetizada a perspectiva do autor, neste excerto, é legítimo questionarmo-nos sobre o que entende Miguel Torga por cultura e em que medida é que a cultura resolve as grandes questões de fundo do ser humano.
Será que ele está a referir-se ao conhecimento puro, à especulação abstracta? Será que ele pretende afirmar que a aquisição de saber, o estudo e tudo o mais que é comum associarmos à palavra cultura são suficientes para elevar as massas à vida, ensinando-as a andar?
Sem dúvida que o autor usa o termo cultura numa acepção mais ampla ou seja: segundo a óptica que caracteriza a humanidade como sendo, simultaneamente, produtora e produto da cultura.
De facto, desde que o homem é homem (e mesmo para chegar a sê-lo) que lhe foi necessário transformar o meio, quer cultivando os campos e criando aquilo a que hoje chamamos agricultura, quer construindo habitações, instrumentos, etc. e, progressivamente, alcançando conquistas tecnológicas que foram fazendo dele o que hoje é. Nessa ordem de ideias, o homem produziu uma natureza cultural que o transformou, produzindo-o, enquanto homem.
Ora, realizando toda essa tarefa cultural, patente na transformação contínua do seu habitat, a humanidade desviou-se, cada vez mais da sua génese, a ponto de nem sempre se reconhecer nas suas próprias aquisições e produções culturais, gerando, por essa razão, atentados à sua qualidade de vida, levando tão longe a transformação cultural que acabará por não conseguir sobreviver no seu próprio mundo. Daí que surja a necessidade de educar as massas, mostrando-lhes como usar a tecnologia, como usufruir do enorme avanço de que dispõem, sem lesarem o seu próprio ambiente, lesando-se, por isso, a si próprias.
Todavia, afirma Torga, não basta só uma doutrina, ou seja, não será pelas teorias que essa educação e essa ascensão das massas poderão processar-se, visto que a nossa cultura enveredou por certos caminhos – os da investigação especulativa, os do desenvolvimento económico, os da acumulação de riquezas, entre muitos outros – atingindo patamares espantosos de progresso, mas deixando por explorar os caminhos da pura compreensão do fenómeno humano. E é por essa razão que o autor fala em “devoção humanitária”.
De facto, urge que a humanidade, individual e colectivamente, entenda que a sua sobrevivência, a médio e a longo prazo, depende, essencialmente, da qualidade que conseguir imprimir ao seu estilo de vida e então, a devoção humanitária de que fala Miguel Torga terá que brotar da própria consciência dos seres humanos que, criando bens inestimáveis, condição de melhor nível de vida, nem sempre sabem estabelecer a fronteira entre o que pode e o que deve ser feito.
Escreve Roger Garaudy :

“ Nem tudo o que pode ser feito deve ser feito. Fabricar bombas atómicas, ir à Lua, fazer viver de forma vegetativa homens, cuja degradação biológica é irreversível, manipular amanhã a herança genética, circular à velocidade do som, nada disso constitui em si mesmo um bem absoluto.” (in Palavra de Homem)

Se detivermos a nossa atenção neste excerto entenderemos o que Miguel Torga pretende exprimir quando fala em cultura e em devoção humanitária. Os exemplos que Garaudy refere – construir bombas atómicas, ir à Lua…etc. – são, sem dúvida, produtos da tecnologia e, portanto, aquisições culturais. Porém, podendo ser feitos, deverão sê-lo? Ou seja: constituirão, em si mesmos, produtos culturais inestimáveis?
Necessário se torna, então, levar a cabo um profundo exame em que todos e cada um se compenetrem da qualidade do seu estilo de vida e decidam abolir o que de negativo existe e nos vai empobrecendo, enquanto seres humanos com dignidade e direitos já estabelecidos, e incrementar acções capazes de erguerem outros valores e outros estilos de vida aptos para nos restituírem o nosso verdadeiro mundo.
Na verdade, será à educação, num futuro que ainda não chegou, que deverá competir esta pedagogia dos valores.
Diz Edgar Morin:

“Um dos principais objetivos da educação é ensinar valores. E esses são incorporados pela criança desde muito cedo. É preciso mostrar-lhe como compreender-se a si mesma para que possa compreender os outros e a humanidade em geral. Os jovens têm de conhecer as particularidades do ser humano e o papel dele na era planetária que vivemos. Por isso a educação ainda não está fazendo sua parte. O sistema educacional não incorpora essas discussões e, pior, fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade.”

Pouco importa que o jovem estudante obtenha elevados valores na escala classificativa us

ada para estabelecer hierarquias e incluí-los em classes, as mais diversas; se faltar o elo que tudo articula, revelando o humano na síntese dos saberes, nada se cumprirá, de facto. E a devoção humanitária de que fala Torga e tanto sentido faz no tempo que vivemos não chegará a cumprir-se, cumprindo o humano dentro do humano.

Se, a certos níveis, a humanidade atingiu patamares elevados de evolução, nomeadamentedo ponto de vista artístico e científico, a verdade é que, em termos culturais, ainda não há uma plena consciencialização das massas, em ordem a dignificarem o estatuto que lhes é conferido pela evolução a que conseguiram aceder.
Falta-nos a verdadeira pedagogia, eclética e coesa, capaz de formar homens inteiros e não especialistas eficientes numa área e analfabetos em todas as outras. Falta-nos a tendência humanista do Renascimento que criou o Homo Universalis, feito da mesma massa dos homens de agora, mas disposto a tocar variados instrumentos na sinfonia da vida. Tornamo-nos incapazes de ver a amplitude do todo, fechados que permanecemos nas nossas conchas de auto-suficiência, desdenhando do valor do vizinho, afundando-nos em preconceito e medo, querendo ficar à margem, num castelo de ilusões. E, enquanto assim nos deixarmos submergir neste anátema de viver, nada poderemos transmitir às novas gerações que enviesarão caminhos e nos culparão, um dia, pelos seus fracassos – de que afinal somos inteiramente responsáveis, porque nos temos demitido de, verdadeiramente, educar.

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