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O ESCRITOR E O DESTINATÁRIO

Vamos partir de uma obra erótica, seja romance ou poética, escrita num estilo aceitável sem ofensa à moral pública. E perguntemos ao autor que se propõe escrever a obra o que deve ter em mente:

· Distrair o público, interessá-lo, ganhar dinheiro ou atingir a fama?
· Quanto a interessar o público, seria preferível o “sim” ao invés do “talvez” para o distrair; quanto a ganhar dinheiro com a obra, tal só será conseguido se prender o público a si, interessando-o pela leitura. Quanto ao ficar imortal com a obra, é sempre uma incógnita.

Eis o eterno problema sem resposta a estas inquietantes perguntas!
ALVARO GIESTA 
Quem escreve tem que ter em mente que o mais importante é interessar o leitor. Seja em que tempo for, sem o sujeitar a modas e sem impor ao leitor o seu gosto pessoal; seja hoje, amanhã ou daqui a cem anos. Há por aí muitos que dizem que, quando escrevem, para si próprio o fazem. Nada mais falso. Quem escreve, escreve sempre para o outro, para o destinatário que pretende sujeitar a si sem o subjugar, ainda que temporariamente, sem o diminuir, escravizando-lhe a atenção para que lhe gabe a escrita ou, doutro modo, escrevendo à medida do leitor que pretende lisonjear, recebendo, como moeda de troca, igual galhardete. Se assim for, diminui o leitor comum que o lê e desprestigia-se, a ele, como escritor. Se assim for, apenas ao “seu leitor”, que o bajula, interessa o “produto” que lhe impinge, rejeitando-o o leitor inteligente e criativo.
Quando o leitor comum, e não aquele “seu leitor”, abre o livro que tem nas suas mãos e se dispõe a lê-lo, não é a ele que compete decidir se o vai ler até final. Não. É ao escritor, ao autor que lhe compete levar o leitor até ao termo do livro, através da sua arte de escrita.
Aqui, na acção do autor que talha o objecto da sua arte, é que difere a boa leitura da má. Mas, os leitores também têm algo muito importante a dizer no seu acto de leitura. E é isto que faz com que haja muito mais literatura má do que literatura boa.
Note-se que ao dizer que o autor tem que sujeitar o leitor a si pela maneira como o conduz no enredo da escrita, nada tem a ver com ditadura. O leitor tem sempre o direito de escolha e de oposição. Tem sempre o “poder” de poder dizer se aquele livro lhe serve ou não, lhe agrada ou não, o prende ou não à leitura. E compete-lhe abandoná-lo no primeiro contentor do lixo que encontra ao dobrar da esquina. É o papel ingrato do escritor que não tem como cobrar ao leitor o seu acto de rejeição. O escritor está sempre amarrado de pés e mãos ao leitor. É o escritor que é prisioneiro do leitor que deve ser bom leitor, inteligente e criativo leitor, que deve comprometer-se, com honestidade, com a sua boa leitura para não enganar aquele que escreve mal (muitas vezes que se diz seu amigo do peito) fazendo-o pensar que é um bom escritor, o que não acontece em mais de 50% dos leitores.
São eles, esses maus leitores, muitas vezes com responsabilidades académicas pelo “canudo” que dizem ter defendido em tese universitária e prémios que ostentam dizendo ter recebido, também empurrados pelos negociadores editoriais para uma crítica baralhada que mal sabem fazer embrulhando o que leem do autor em frases curtas “tipo mensagens por telemóvel”, a dar-se a si próprio a sapiência que não têm, que trazem enganados os maus escritores, dizendo-lhes que “são bons” enquanto lhes interessa aos fins que têm em vista. São esses maus leitores que fazem proliferar a má literatura, são esses maus leitores que fazem com que esses maus escritores nunca cheguem a ser os bons escritores merecedores de figurarem nos anais da literatura. E isto porque os críticos literários, aqueles que honestamente, e eu sublinho o termo, honestamente, desempenham o seu papel, é que são os decisores da verdadeira opinião.
Parece evidente que quando eu me comprometo fisicamente com uma leitura de um bom livro, dificilmente me separo dele. E, se o faço, por momentos e por várias vezes durante o processo de leitura, logo o recomeço, porque esse fio condutor, entre criador e leitor, se se perdeu, foi por uma das duas razões: por qualquer situação alheia ao processo de leitura ou para parar em análise e meditação a que o enredo me conduziu, na certeza de que, recomeçando, voltarei a parar mas sempre no tempo de quem me parou. O tempo do autor. O tempo do criador da obra que me prende a si.
Se, contudo, a obra é uma mera especulação sem interesse, é um “produto” que o escritor me pretende impingir, a mim, naquilo que ele me considera eu ser “consumidor”, parcialmente me comprometerei com ela numa análise superficial e breve a deixarei ao abandono no seu espaço menos útil das minhas prateleiras, ou dela farei oferta à biblioteca do bairro que alimenta, apenas, curiosidades de leitores de ocasião.
O escritor, se quer merecer o título de verdadeiro escritor, deve exercer sobre o leitor um sem número de impressões variadas mas, sempre, de resultados positivos. Nunca procurar produzir no leitor emoções negativas nem embaraçosas para que ele não feche o livro a meio do mesmo e o abandone de vez.
O escritor devia prever, na sua arte da escrita, a possibilidade de causar impressões boas ao leitor. E eu digo: na sua arte de escrever. Objectar-me-ão, e sei que há muitos escritores que o farão, que as verdadeiras obras de arte se fazem sem cálculo previsto; que é o instinto criador que prevê sem necessidade da razão prever o que julga ser imprevisível e imponderável; que a verdadeira obra de arte é feita sem dela haver, previamente, consciência formada. Pois, será. Mas eu creio que um bom escritor não é o génio que escreve febrilmente sob a ordem das Musas; tão pouco será aquele que improvisa, de qualquer modo, em qualquer tempo e em qualquer situação ou lugar, a obra que o vai tornar célebre. Até escreverá sob a inspiração das Musas ou dos Deuses, se bem que eu não acredite em tais divindades. Até escreverá febrilmente, produzindo com facilidade e sem retoques o que escreve, mas o cálculo, a arte e o método têm sempre uma palavra a dizer.

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