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ILÍDIO SARDOEIRA – UMA QUESTÃO DE HERANÇA

REGINA SARDOEIRA
Sou sobrinha de Ilídio Sardoeira. E também, afilhada. Sobrinha, porque o meu pai, Luis Sardoeira, era o seu irmão; afilhada, porque ele foi escolhido para me nomear – e chamou-me Regina. 
Duas heranças decorrem, pois, destes simples factos, inscritos na minha génese como pessoa: a primeira, biológica, a segunda, social. 
Antes de perceber a primeira, fui muito sensível à segunda. Saber que o meu padrinho era um ilustre professor e escritor que me atribuíra este nome cheio de simbologia – eu sempre soube que Regina é o mesmo que Rainha – constituiu, na minha infância, um orgulho e um privilégio. Devo-lhe, pois, esta herança onomástica e a obrigação que senti sempre, de mim para mim mesma, de fazer jus ao nome que ele me outorgou. 
Esteve quase sempre longe, quando eu era criança, e trocávamos cartas, amiúde. Essas cartas (costumava pedir-lhe que as escrevesse à máquina, dada a relativa ininteligibilidade da sua caligrafia) ressoam na minha memória. 
No primeiro ano do ciclo preparatório (assim se designava, na altura, o ano que marcava a saída da escola primária e a entrada num universo mais amplo de matérias e professores), no primeiro período, fui menos bem sucedida a Ciências e a Desenho. E ele, mestre da efabulação pedagógica, comparou as minhas aprendizagens às da sua cadela, cujo nome esqueci. E dizia: “Com as suas quatro patas, curtas e desajeitadas, posso aceitar que ela não tenha grande facilidade em desenhar. Mas quanto às ciências, não lhe encontro motivos para não melhorar!” 
Soube, na altura, que não teria desculpas. Afinal, apesar de poeta, o meu padrinho era um homem da ciência: não me era lícito desiludi-lo! 
Creio que as minhas vitórias nos primeiros anos da vida escolar foram também uma espécie de herança, pois, tal como ele, acabei enveredando por áreas múltiplas do saber, ainda que não tivesse consciência disso, durante muito tempo. 
Um dia, veio a apoteose do meu sucesso escolar; e, numa festa de família, em minha honra, ele discursou, declarando: “Estamos aqui, este ano, para festejar o teu triunfo; espero que não tenhamos que voltar cá, para o ano e desfazer a festa!” 
O meu sentido da responsabilidade ficou refém desta mensagem. E, quando fui brindada com alguns desaires escolares, as palavras dele ecoavam no meu cérebro: “oxalá não tenhamos que vir aqui de novo para desfazer a festa”…e porfiava por conseguir estar à altura do elevado padrão do meu nome e de tão ilustre apadrinhamento. 
Visitava-o muitas vezes. Conhecia-lhe a sabedoria enciclopédica (eu dizia que falar com o meu tio era o mesmo que folhear vários livros), gostava de me passear pelos títulos da sua vasta biblioteca e, sempre que permanecia na casa dele por mais que um dia, ficava num quarto repleto de estantes, por sua vez, repletas de livros, entre os quais me sentia reconfortada. E era extremamente agradável acordar numa casa recheada de arte, de beleza, de cultura, onde conheci sempre animais de estimação – o meu tio nunca teve filhos, mas projectava nessas criaturas a sua afectividade… e ensinava o periquito a falar, permitindo-lhe que voasse pela casa e observando que ele não fugia, entrando livremente na gaiola quando queria comer ou beber e levava o boxer, Robi, ao Café Mucaba, partilhando com ele o açúcar – ouvir a música sempre suave, sempre emanando acordes subtis, num apelo franco ao deleite e à criação e saber que o homem da casa se levantava cedo e dava os seus passeios e depois se dedicava ao trabalho intelectual, em estreita partilha com a companheira da vida… Simples, não é? Mas de simplicidade se foi fazendo a vida deste homem modelar e são dele estas sábias palavras:
Não sei coisas difíceis 
Nem as faço nos versos, com palavras. 
Difícil é ser simples
E é vestir as coisas de tal jeito
Que quem as veja, julgue que são nuas. (Ilídio Sardoeira, Poemas, Edições Gaivota, 1952)
A compreensão da outra herança, a biológica, aquela que me diz que partilho com ele o sangue, chegou muito mais tarde e nada, nessa consanguinidade, tem a ver com traços fisionómicos ou estrutura corpórea. Sinto-a, isso sim, no modo como encaro a profissão que acabei por seguir, sem o ter desejado, à partida, no fluido que perpassa de mim para os alunos e me tem tornado referência: ele também foi deixando marcas indeléveis pelas escolas do país e eu soube -o, exactamente, quando, em 1990, fiz parte da equipa que o homenageou. De todos os pontos do país, desde o continente até aos Açores, surgiram antigos alunos a querer dar testemunho do legado do mestre, pessoas pela vida de quem ele havia passado há décadas e contudo sentiam ainda em si o sortilégio das aulas, onde ele pontificava, qual alquimista.
Nunca assisti, de facto, a uma aula do meu tio, Ilídio Sardoeira, mas vislumbrei o sortilégio. Fui muitas vezes visitá-lo, ansiosa por ouvi-lo discorrer, querendo respostas para um tropel de questões e sentindo que elas poderiam vir-me desse homem sábio, afável e discreto. Muitas vezes, movida por um entusiasmo incontrolável, chegava junto dele e, depois do seu cumprimento ligeiro (olá rouxinol!), quando lhe dava conta do que ali me levara, especificamente, percebia que era eu quem mais falava, enquanto ele me escutava, pacientemente, com um meio sorriso benévolo. Quando me ia embora, reflectia: “Estive ali duas horas, fui lá para ouvi-lo e, afinal, falei quase sempre!” 
Sim, ele tinha esse dom raro: sabia ouvir, não abafava o pensamento e a voz dos interlocutores com a altitude do seu conhecimento, sabia sondar e fazer emergir, do fundo da mente, o solilóquio ancestral da sabedoria. E os verdadeiros professores são esses, todos esses que não sucumbem à oratória, à frase feita, ao chavão, e sabem trabalhar a mente fértil do discípulo que, na medida em que foi conduzido a si próprio, jamais esquecerá a lição. 
Percebo hoje que, ao meu modo, sou herdeira dessa vocação que testemunhei em directo, quando ele sabia ouvir e me conduzia com subtileza; percebo que travei, ao longo dos anos, uma batalha árdua com as mentes juvenis dos meus alunos, desbravando-lhes o terreno, quantas vezes rude ou pleno de rebeldia e auto-suficiência , e que, se ganhei batalhas, foi porque me ocultei, para que do outro lado rebentasse a seiva.  
Sou herdeira dele, do meu tio e padrinho Ilídio Sardoeira, não porque das suas palavras saíssem sentenças condutoras dos meus passos, mas porque o sangue nos uniu, deixando em mim a sua marca. 
Lembro-me de ter assistido a um colóquio sobre Teixeira de Pascoaes, em Vila Nova de Gaia, orientado por ele (sim, porque Ilídio Sardoeira foi um grande conhecedor do poeta amarantino que hoje cumpre o 138° aniversário de nascimento, o maior do seu tempo, e viajava pelo país em múltiplas efemérides, conferências e seminários acerca do poeta das Sombras) e de me ter parecido impossível, depois da peça de piano, magistralmente interpretada que abria o programa, haver lugar para qualquer deleite na comunicação do meu tio – por mais erudita que fosse. 
Mas depois ele subiu ao palco. 
Era de baixa estatura, tinha uma voz apagada (sofria de asma), não usava gravata, mas uma muito simples camisola de gola alta. Junto do piano, parecia prestes a sumir-se através do arcaboiço austero do instrumento. Porém, quando começou a desbravar, numa linguagem clara e exacta, os meandros sinuosos do poeta solipsista do solar de Gatão , o fascínio da execução da pianista começou a esbater-se, a esbater-se… até se desvanecer completamente. 
Havia muitos jovens na sala que, tal como eu, ali estavam para sorver a sabedoria do mestre e poder (quem sabe?) aceder à chave que abriria a fechadura e por fim a porta de acesso à compreensão do escritor. Foi esta a imagem que Ilídio Sardoeira utilizou – “Quero dar-vos uma chave para que possais, vós mesmos, entrar na obra do poeta” . 
Mas eis que, sentados nas filas da frente, uns homens, literalmente enfatuados e vestidos de fato, decidiram interromper o orador com fraseados pomposos, querendo (fui-o percebendo) retirar protagonismo ao homem do palco ou saltarem eles próprios para a ribalta. Ilídio Sardoeira, com o seu meio sorriso, entre o afável e o sarcástico, ia entrando no jogo que aqueles senhores urdiam contra ele, pleno da paciência que sempre o caracterizou. Mas os jovens, ali presentes porque aquele era o seu mestre e eles queriam aprender, percebendo o intuito dos velhos enfatuados, talvez sedentos do protagonismo que muito pouco interessava ao orador, não lhes consentiram as sucessivas interrupções, batendo palmas ruidosamente, sempre que um fazia menção de tomar a palavra, impedindo-o, por essa via de completar a intervenção, e reduzindo-os, por fim, ao silêncio, quando declararam: “Queremos ouvir o Dr. Ilídio Sardoeira, por isso estamos aqui, não sabemos nada de Pascoaes e viemos aprender!” 
Sim, também herdei dele esta espécie de destino. Eu, que ali estava, tinha cerca de 25 anos e evoquei, em puro espanto, a minha própria experiência de conferencista incipiente, quando algum tempo antes, aceitei falar de Nietzsche num colóquio e quase fui tragada pela inveja de um colega da faculdade, a querer protagonizar a sessão , a interromper -me constantemente com questões à revelia dos objectivos do programa . Pensei então, naquele momento, em que a assistência jovem arrasava o desplante dos enfatuados, que a simplicidade com que pode fornecer-se a chave para a compreensão de uma matéria, tida como difícil, seja Nietzsche ou Pascoaes, é negada e decerto repelida pelos académicos que querem ser obscuros, achando que isso é ser profundo! 
Evoco uma das obras do meu tio, intitulada A Origem da Vida, que não ousei ler durante muito tempo. Assustavam-me as fórmulas químicas, a linguagem científica que eu, crendo-me vocacionada para as humanidades, me habituara a rejeitar e, afinal, compunham o livro. Um dia, enchi-me de coragem, abri A Origem da Vida, e fui acometida de profundo espanto: a vida, nas suas fantásticas explosões originais, pulsava nas páginas amarelecidas daquele volume com o vigor turbilhonante dos inícios! As fórmulas, afinal, eram pedaços da poesia épica com que o pedagogo mostrava o vigor da evolução! 
Quando o reencontrei, depois da minha epifania, e tentei elogiar-lhe a obra-prima, eis que ele me interrompe o entusiasmo, declarando: “Oh, esse livro está ultrapassado, já há outras teorias…” 
A modéstia, essa lição que, finalmente, sinto que aprendi, extraída, a ferros, da minha arrogância juvenil, quando publiquei o primeiro livro e lhe chamei O Olhar do Leão, ostentando a minha fotografia, a negro, no centro da capa branca e achando que iria salvar o mundo, a modéstia brilhava no meu tio Ilídio Sardoeira no momento em que lhe ofereci o livro, deslumbrada comigo própria e o vi, sem perceber o que via, atirar o volume ao chão, realizando, no gesto, a crítica que eu merecia, de que talvez precisasse, mas que ele preferiu omitir. 
Os livros que escrevemos, eu e ele, não nos levaram aos píncaros da fama, não tiveram a promoção mediática de muitos best sellers medíocres; e eu vejo que também herdei do meu tio, Ilídio Sardoeira, esta tendência para ficar longe da ribalta, não querendo disputar, à cotovelada, nenhuma espécie de protagonismo. 
Não herdei do meu tio, Ilídio Sardoeira, um único bem material, não tenho um só livro da sua biblioteca, um disco da sua colecção de clássicos, uma peça das suas obras de arte, um móvel, uma jóia, um bibelot. 
Curiosamente, não estranho este fenómeno, não fico revoltada e nunca fiquei por saber que um homem sem herdeiros legítimos, de sangue, não tivesse dotado a sua sobrinha /afilhada, Regina Sardoeira, de heranças materiais, após a sua morte. Julgo percebê-lo. Também herdei dele esta capacidade de entender o inabitual. E regozijo-me por saber que ele quis ir mais além da convencional doação, na linha da consanguinidade, e dotar uma biblioteca e um museu do seu espólio, e, ao mesmo tempo, creio que, um dia, que ainda não chegou, neste ano e neste mês do centenário do seu nascimento, o véu será levantado para fazer justiça , por fim, àquele que nunca quis sobrepor-se, em vida, ao tamanho da sua estatura física.

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