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O CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE ILÍDIO SARDOEIRA – A ORIGEM DA VIDA

Exposição: Centenário do nascimento de Ilídio Sardoeira
DR
REGINA SARDOEIRA 
“(…) Naquele tempo, nenhuma vida era possível. Não existia tão pouco um único composto químico . A temperatura do nosso futuro planeta devia ultrapassar 6000°.
Os gases e os vapores metálicos de todos os elementos, descobertos e a descobrir, estavam exasperados. (…) À medida que a massa gasosa vai arrefecendo, os elementos dispõem-se por ordem de densidade: ao centro, e constituindo o futuro núcleo da terra, os mais densos; à periferia, e fornecendo a matéria da futura crusta, os menos densos. Os que terão que ser naturalmente gasosos darão a atmosfera primitiva. (…) 
(…) De 4000° a 3000° ter-se-ão operado as primeiras reacções químicas e, possivelmente, do mesmo tipo que as que se conseguem, actualmente, nos laboratórios a essas temperaturas. No período que designaremos como a era química da Terra, o planeta pode-se comparar a uma retorta estranha onde se preparam todas as probabilidades para todas as possibilidades químicas. Simplesmente, já não é a temperatura o único factor que intervém como agente das transformações. (…)
“Entretanto a temperatura continua a baixar. Factor de transformação, nunca mais deixou de influenciar o desencadeamento da maioria dos fenómenos: os campos cobrir-se-ão de plantas ou de folhas mortas, de acordo com as oscilações térmicas; o homem pensará entre os 35° e 41°. (…) “
Ilídio Sardoeira, A Origem da Vida, Biblioteca Cosmos
Eis aqui alguns excertos dessa obra magnífica que, depois de me assustar pelo carácter cientifico da sua linguagem, acabou produzindo em mim um entusiasmo extraordinário. Desde a minha adolescência e até hoje, quando penso nas convulsões gigantescas do nosso planeta – bola incandescente e rodopiante, solta da estrela-mãe, o Sol – em sessões extremas de arrefecimentos, geradores de novas condições e de novos protagonistas, que penso no homem, como resultado desta odisseia, a poder sê-lo, em pleno, (ou seja: a pensar) , entre os 35° e os 41°! 
Sim, Ilídio Sardoeira foi poeta, ensaísta, pedagogo, professor, escreveu centenas de artigos, dezenas de contos infantis, deram-lhe nomes de rua – em Amarante e em Vila Nova de Gaia (município que, igualmente, lhe atribuiu a medalha de ouro da cidade) – há um Centro Escolar de que ele é patrono e que ontem, 7 de Novembro, lhe prestou homenagem, uma placa evocativa resiste, desde 1990, ao furor da modernização que, sem dúvida, está presente nas intenções do proprietário actual da casa onde ele nasceu e viveu, em Canadelo. Mas a obra de Ilídio Sardoeira, esta, pela qual fez ciência, narrando exemplarmente a origem da Terra, da Vida e logo também de nós, os Homens, permanece desconhecida. 
O livro de que transcrevi os excertos acima citados, pertencente à Biblioteca Cosmos, organizada pelo Professor Bento de Jesus Caraça, é uma edição antiga, tem as páginas amarelecidas pelo tempo e, como ostenta o preço estampado na capa, sei que custava 10$00! Nunca se lembraram de o reeditar, fornecendo a outras gerações um estímulo para aprender ciência, escrita de um modo acessível, mas nem por isso com falhas de rigor, recorrendo, sem dúvida a consultores actuais que poderiam eventualmente suprir as lacunas que a evolução poderá ter, entretanto, dissipado. 
Ao mesmo tempo, o livro está repleto de alusões poéticas e literárias, como epígrafes dos capítulos. 
“Todo o mundo é composto de mudanças /Tomando sempre novas qualidades. (Camões)” é a epigrafe do primeiro capítulo, e esta ideia de mudança e adesão a variações qualitativas vai percorrendo a obra e é com ela que termina: 
” O homem, criador de civilizações, é um ser dessa corrente, continuando, noutro plano, a evolução natural das coisas. Forja instrumentos de libertação que, em épocas determinadas, o escravizam. Ele próprio está sujeito a crises, de que as guerras não são mais do que expressões violentas, preparando abruptamente o terreno para a eclosão de novas qualidades, de acordo com o canto camoneano: Todo o mundo é composto de mudanças/ Tomando sempre novas qualidades. ” 
Obra citada, página 204
Esta simbiose entre o cientista de cariz experimentalista, e contudo absolutamente alerta para a incerteza e a probabilidade que presidiram às grandes revoluções cientificas do século XX e entraram em choque com os absolutos vindos da era newtoniana, e o poeta que conhece, porque os sente, todos os eflúvios semânticos da vida, sorvida pelo homem quando pôde pensar entre os 35° e os 41°de temperatura, parece-me ser a peculiaridade máxima deste homem de quem, limitadamente, começamos a comemorar o centenário do nascimento. 

E eu, sobrinha /afilhada que julgo compreendê-lo na integra, ao menos nesta universalidade com que uniu pontas que a civilização insiste em manter desatadas, gostaria de integrar um movimento que lhe fizesse justiça. 

Não se trata, somente, de descerrar uma ou duas lápides e de proferir um ou dois discursos. Não basta percorrer os locais da sua tão descaracterizada aldeia natal e entoar um ou dois poemas que ressoarão, inertes, pela montanha. Poderá ter algum mérito a lembrança, e de modo nenhum me assalta a ideia de que mais valeria nada fazer. Mas é necessário pensar mais e mais longe. 
É necessário perceber que a espécie de professor que ele foi está em vias de extinção, se
é que não se extinguiu ainda; mas, ao mesmo tempo, urge compreender que os tempos de hoje, heteróclitos e superficiais, mecanizados e desprovidos de humanismo, formadores de sujeitos robotizados e tudo o resto que se vai anunciando necessitam de reinventar esse género de docente. É necessário compreender que esta espécie de civilização decadente engendrou verdadeiras corridas à especialização, à orientação do ensino rumo àquilo que garante emprego e dinheiro no futuro. Conheço jovens que seguiram ou querem seguir medicina, por exemplo, não porque sintam em si qualquer vocação humanitária ou estejam ávidos de salvar vidas, mas porque a isso são compelidos pelas famílias e pelas altas classificações que, com mérito ou sem ele, conseguem atingir. Faltar-lhes-á sempre isso a que chamei vocação humanitária, mesmo que passem anos curvados sobre os livros e continuem a obter elevadas classificações. Já os vi em acção, a esses médicos homúnculos, e tive medo de lhes entregar a saúde. 
O que falta, então, é a estirpe de professores como foi Ilídio Sardoeira, de horizontes vastos e englobantes, de saber multifacetado e verdadeiro talento para ensinar, tornando acessível o difícil, sem o tornar simplista, captando o discípulo pela afectividade, sem deixar de ser rigoroso. Porque – redescobri-o hoje ao reler A Origem da Vida – Ilídio Sardoeira também foi filósofo, soube enfrentar o “porquê” e o “como” desde o simples ao complexo, desde a raiz ao fruto, desde o concreto ao abstracto e vice-versa, deixando tudo em aberto, na vastidão insondável do mistério que nenhuma ciência decifrou ou decifrará. 
E, parafraseando Edgar Morin e Gilles Deleuze e muitos outros homens (no sentido amplo da palavra homem) lúcidos e atentos ao descalabro deste nosso tempo, afirmo que o mundo precisa acima de tudo de se tornar mais filosófico e já é tempo de o vulgo saber que a filosofia não é, nunca foi, o palavreado fútil e incompreensível de meia dúzia de lunáticos, mas a actividade esclarecida e esclarecedora que, se aplicada verdadeiramente à prática, terá poder para mudar o mundo. Ora, na obra de Ilídio Sardoeira, como na vida, cintilou essa luz, vinda da Grécia Antiga e dos grandes filósofos, ao mesmo tempo físicos, matemáticos, biólogos, artesãos, em suma, de múltiplos ofícios. E, como ainda cintila, já que a obra permanece, eu, sua sobrinha/afilhada, empenhar-me-ei, neste seu centenário que começará, de facto, no dia 12 de Novembro, para que o espírito renasça, dando frutos.
(Continua)

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