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PRODUTO FORA DE VALIDADE

«Sabes, eu acho que que fogem de ti para não ver / a imagem da solidão que irão viver / quando forem como tu / um resto de tudo o que existiu»

GABRIEL VILAS BOAS
Morrer de velho foi o sonho que a ciência nos ajudou a concretizar. Os nossos velhos duram, em média, até aos oitenta anos, mas este sonho tem sido um pesadelo para muitos.
Desejámos morrer de velhos, mas esquecemos de traçar o plano correto para que isso acontecesse em condições dignas. A vida não se rejeita, mas há finais tão tristes, decadentes, penosos, que se tornam tão dolorosos até para quem só assiste.
Queríamos morrer velhinhos e para tal estudámos, lutámos, ganhámos dinheiro, inventámos curas, criámos fármacos, mas tudo parece em vão, quando as reformas de dois terços dos nossos idosos não chegam aos quinhentos euros, quando há milhares de velhos que vegetam nos lares completamente abandonados pelas famílias, quando a sociedade faz os avós sentirem-se inúteis, rejeitados, um estorvo.
Os velhos não são um problema económico, mas um problema de valores morais e éticos. Somos uma sociedade evoluída, pseudointeligente, egocêntrica e marcadamente desumana.

Por detrás de qualquer valor económico de um objeto, de um negócio, de uma ideia está quase sempre um valor afetivo. É por causa dele que investimos tempo, dinheiro, conhecimento. Os nossos maiores, como diriam os romanos, são os guardiões desse santo graal e nós estamos a enterrá-los vivos, sem cuidar de tomar em mãos a boa herança que nos querem legar.

Não foi este final que sonharam, não foi para este final que trabalharam, não é este o final que merecem. Envergonho-me de pertencer a uma geração que despreza os seus velhos, que os faz ter que escolher entre o medicamento obrigatório e a comida no prato, que desdenha dos seus ensinamentos, que lamenta as miseráveis reformas que lhes paga como se o dinheiro despendido não tivesse resultado dos descontos do seu trabalho durante décadas. 
Costumo ouvir com frequência que os velhos não são o futuro. Permitam-me discordar, sem não antes verberar essa visão mercantilista do ser humano que tanto desdignifica quem a perfilha. Quer queiramos quer não, a velhice será o grande “negócio” das próximas décadas; nós seremos os próximos velhos; a História costuma acertar contas mais cedo do que imaginamos.
Não adianta andar a sonhar com uma vida longa se não soubermos o que fazer com um quarto dela ou se tornamos os últimos vinte anos de existência numa cruz penosa. Os nossos filhos dar-nos-ão o desafeto que lhes ensinamos. Talvez não seja má ideia pensarmos em chegar a velhos com uma saúde aceitável, vivendo de maneira mais regrada; fazermos uma gestão mais equilibrada das finanças porque a solidariedade intergeracional está a ser posta em quase por nós e não creio que os nossos queridos filhos tenham vontade de contrariar a nossa doutrina; e, já agora, era de todo aconselhável que nos dessemos um bocadinho melhor, pois daqui a vinte anos só nos teremos uns aos outros para aturar as nossas impertinências serôdias e viver largos anos de solidão.
Até podemos vir a ter algum valor económico, mas não teremos qualquer valor afetivo e isso será fatal: seremos um produto fora de validade.

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