Home>BIRD Magazine>SOBRE A POÉTICA DA GUERRA
BIRD Magazine

SOBRE A POÉTICA DA GUERRA

«(…) Um grito de silêncio morre / impotente / no fundo da garganta (…) / o silêncio abate-se sobre nós (…) /o que fica depois disso? / as marcas da dor, o sangue / vertido / e o silêncio do vazio» – in “há o silêncio em volta”, de Alvaro Giesta, Edições Vieira da Silva, 2012

[este texto, sobre poética de guerra, retrata, apenas e só, o sentimento do seu autor aquando envolvido, por questões de dever à Pátria, na Guerra Colonial, anos 70 a 74]

ALVARO GIESTA 
Lavrado em livro sobre a guerra de guerrilha, dos anos 60 a 70, são estes versos colhidos no livro sobre poesia de guerra “há o silêncio em volta”, que me parecem apropriados, como mote, para explicar a razão da dor e do silêncio após a morte, no corpus do tema escolhido, embora fora do contexto, porque diferente, do que é hoje esta maldita guerra traiçoeira e terrorista, norteada por uma (falsa) fé que se julga ser a única justa à face da terra.
Antes de entrar no tema, deixem que vos diga que a melhor homenagem que podemos fazer aos que morrem barbaramente assassinados por mãos terroristas, é o silêncio em oração, ainda que muda, e a negação ao medo. Deixar-se possuir por essa dor e respeito pelos que são assassinados, é dever; mas, também é obrigação negar o medo aos que matam indiscriminadamente, porque negá-lo, é não ter medo de viver. E a função do poeta, num tempo de guerra, é esta: viver as nossas inquietações, a nossa procura, o nosso tempo de ausência, a nossa revolta, o nosso desassossego, quantas vezes a nossa descrença no mundo, mas, também, a nossa tentativa de resposta.
Quando se anda numa guerra, como aquela em que eu andei, mais traiçoeira do que as guerras clássicas, sendo ela guerra de guerrilha, onde nunca se sabe de onde vem a bala traiçoeira, nem onde está a mina que pisamos, onde está o arame de tropeçar com que vamos accionar a armadilha ou a emboscada mortífera que à saída do trilho para a clareira à nossa frente, com o capim a rasar-nos à altura dos ombros, nos varre sem dó nem piedade, a morte é o convívio que parece impossível e quantas vezes nos servimos do sentir poético – seja até na recordação do último aerograma que enviámos à namorada, ou da última carta recebida dela, ou da mãe que lá longe por nós reza – para ultrapassarmos a barreira do medo, da dor, do luto que ficou por aqueles que tombaram.
É nessas alturas que a poesia da ausência, que a poesia da falta, a poesia da raiva e do medo, nos nasce na alma e gravamo-la na mente, que as mãos estão ocupadas em segurar com firmeza a espingarda, e os olhos em constante observação da linha do horizonte, sempre pronta a desvendar-nos o reflexo incandescente que sai do tapa-chamas das armas do inimigo ou a tentar desvendar a surpresa no interior da mata fechada e traiçoeira, que se estende a meia dúzia de passos do trilho onde progredimos.
É nestas alturas, e voltando à força dos primeiros versos “Um grito de silêncio morre / impotente / no fundo da garganta // O silêncio abate-se sobre nós”, que o silêncio estilhaçado, ou antes, os silêncios vários, fazem (ou fizeram) cortina no tardar em dizer o que mais tarde se conta. É este jogo da palavra-silêncio na narrativa crítica que imprime à poesia de guerra – neste caso concreto, à ex-guerra colonial – permanentes movimentos que importam não esquecer e divulgar. E haja quem os divulgue…
É por isso que, a este tempo de falta, a este tempo de ausência, a este tempo da dor, só consigamos dar corpo ao silêncio até aí existente, ao fim de algumas décadas, porque até aí faltou a coragem de o dizer, de o deixar expresso por palavras escritas para a posteridade, amordaçadas pelo receio, pelo medo do julgamento que nos possam fazer. É o mundo das mentalidades tantas vezes em julgamentos injustos, porque não passaram por lá, porque não enfrentaram a morte, porque não enfrentaram a dor de ter de matar para não morrer. É a injustiça dos homens a julgar os outros homens, a julgar aqueles que tiveram a coragem para escrever da guerra em que andaram envolvidos e de que saíram, tantas vezes, mutilados no corpo, e outras, tão graves ou mais do que aquelas, mutilados no cérebro e esmagados na alma.
As imagens da guerra e da morte ficarão tristemente indestrutíveis, como assombrações perenes, gravadas no cérebro do ex-combatente e no peito ferido, onde penduraram a cruz de guerra pelos feitos em combate, muitas vezes cobardes, mas descritos como valentes. Peito que sangrará de dor até ao juízo final.

«Rastros de sangue vermelho / nos braços decepados / do capim… // O matraquear da kalashnicov / trouxe o susto / e o medo misturado na raiva / e na dor // Os heróis em mortalha repousam / os ossos desfeitos / no silêncio da capela / sobranceira à morte / e ao medo // Ouve-se o rastejar traiçoeiro / do inimigo / e quase em cima de nós / o bafo quente da morte // Tortura-nos a noite… // O som das rajadas / vindas sabe-se lá de onde / esfrangalha-nos os nervos, / e a mina traiçoeira / destrói / o desgraçado que a pisou» – in “há o silêncio em volta”

São estados de alma difíceis de escrever no verso; são ambiências duras de roer, revoltas interiores que provocam depressões, trazem raiva e traumas para toda a vida, pela perda impossível de remediar; são isso tudo numa amálgama de sentimentos difíceis de descrever e de esquecer. São isso tudo, que nunca são um sentimento único, que provocam torrentes de versos difíceis de entender.
Em guerra, a morte é o mote neste convívio que parece impossível. E, não fosse o sentir poético do combatente, que não tem que ser, necessariamente, poeta, não fossem até, muitas vezes apenas ténues lembranças de amor e de sonho, que nunca o abandonam, ou dificilmente o abandonam, talvez até as únicas que o mantiveram sóbrio e mentalmente saudável, nesta terrível travessia que lhe foi imposta, teria o combatente ensandecido, desertado ou, até mesmo, muito simplesmente apontado à cabeça a sua arma de combate. Esse tempo de ausência, esse tempo de raiva e desespero nesta guerra absurda, esse tempo do vazio e da interrogação ao mesmo tempo, e da desilusão, também, de inquietação e desassossego numa mistura de medo e até de respeito pelo inimigo que está à nossa frente, ainda que oculto, sabe-se lá onde, esse tempo quase nunca é de ódio porque, se ódio houver, é contra aqueles que nos põem na mão a arma e nos empurram para a frente de combate sem sabermos bem para onde vamos e porque vamos, ainda que nos tenham incutido na mente o sentimento de pátria. Qu

antas vezes o arrependimento, sem saber como nem quando desistir…

«Desperto… / minhas mãos frias / crispam os dedos inertes / no gatilho da espingarda // Debaixo da mira / numa linha que dificilmente erro, / o alvo / Um corpo negro, / meio nu… // Apenas o cobrem os restos daquilo que foi / um camuflado zambiano / Veste no rosto, / encimado por um chapéu também camuflado, / uma raiva sombria / Para ele nós somos o invasor, / o inimigo a abater que importa liquidar / ainda que connosco tenha aprendido / rimas de civilização // Nós somos o invasor que (ele) quer / expulsar / destruir / aniquilar // E ele, para mim, o inimigo de ontem / será o amigo de amanhã / a quem eu quero abraçar» – in “há o silêncio em volta”

Essa inquietação surda, esse desassossego e descrença, essa falta do motor da busca como resposta à nossa inquietude, essa falta de apoio de um porto de abrigo que seja o lenitivo para os nossos momentos aflitivos em combate, que seja o local onde, no fim de cada combate, nos pudéssemos recolher e meditar, ainda que se transforme, às vezes, numa quase tentativa de resposta, molda-se-nos numa simbiose de revolta e vazio. Num nada existencial nas nossas vidas e para as nossas vidas… num indizível lamento de quase falta de fé. Essa raiva e dor que sentimos quando vivenciamos a guerra numa mistura de sentimentos de difícil compreensão, esta raiva silenciosa amordaçada na garganta, compartilhamo-la também, e quantas vezes em primeira instância, com quem já cá não está entre nós; porque sabemos que daí não haverá a crítica mordaz e injusta; porque esse alguém também lá andou anos a fio na guerra, não fazendo, contudo, a guerra; ou, então, fica no segredo das gavetas, anos a fio, até que se perca o medo do tal julgamento injusto e saia para a rua no formato de livro. Essa angústia, esse medo de dizer pelo tal julgamento, muitas vezes injusto, que nos possam fazer essas mentalidades tacanhas, cobardes e conservadoras, que possam fazer, neste caso, a um ex-combatente da guerra colonial, que é sempre um ex-combatente sem nome, mas com rosto, deixam ficar essas memórias no papel escondidas bem no fundo duma gaveta, que não no esquecimento.

«Este silêncio inquieta-me. Há horas que aqui estamos, deitados, com a arma a nosso lado, à espera que o grupo de guerrilheiros, anunciado ontem à noite numa Top Secret, como infiltrado a partir da Zâmbia, aqui passe. Lá ao fundo, corre o Kwango. Rio rico em diamantes, que já vem das terras altas do Alto Chicapa. E penso em ti, pai. Naquele teu conselho. Mais aviso do que conselho:- «não te deixes matar; ficas proibido de morrer!». «Sim, pai.» – Prometi-te que não me ia deixar matar e vou cumprir o prometido.

Doloroso é este silêncio aterrador. É manhã cedo. Ou, melhor dizendo, é o dia ainda longe, à espera de sair da noite. Estas noites africanas são quentes na época das chuvas, e frias na altura do cacimbo. Hoje está uma noite quente. Abafada. Não sopra lufada de ar. No céu da madrugada, ainda os restos de sangue do incendiado vermelho que encerrou a noite. Sinto os pelos, pelo corpo, arrepiados, eriçados. É o medo e uma premonição maldita a inquietar-me.

Fomos lançados de madrugada, mais pela noite dentro do que, propriamente, pela madrugada. Agora esta espera desesperante. Tal como o comandante do grupo de combate planeou, mal fomos largados, instalámos uns metros para dentro da mata como se por automatismo. Tudo sincronizado. À retaguarda fiquei eu instalado, pai, com a minha secção de proteção à retaguarda. O cabo Dias, lembras-te? Aquele de quem te falei tanta vez quando eu dava instrução no RI 21, o tal filho do teu amigo do colonato da Cela… sempre tão eficiente e tão operacional! O perfil, exacto, que deve ter um combatente. Ele é que devia comandar o pelotão e não este alferes(zito) emproado, recém saído do seminário. É um medricas… e a guerra não se compadece de medricas, sabes bem disso! O “meu cabo Dias”, esse, sim, sempre tão operacional…. nem era necessário precisar-lhe onde instalar o morteiro.

«Furriel fico aqui… por detrás desta máscara é o ideal.» Dizia-me, ele, por sinais, batendo no ombro a designar-me pelo posto e levando a mão ao rosto, mascarando-o, para depois levantar o polegar em riste, a que eu correspondia com o mesmo gesto.

Era assim, pai, o filho do teu amigo. Um herói. Mas os heróis também morrem e dalguns, nem sequer fala a história. Apenas, na lembrança dos amigos, a sua imagem. E do valor, se algum lhe reconheceram, somente fala a cruz de guerra entregue ao pai ou ao filho que o pai não conheceu. Esse teu amigo, pai, esse pai do meu maior amigo que tive na guerra e a quem numa ocasião fiquei a dever a vida, recordará hoje, o filho, nesse pedaço de ferro em forma de cruz, sem valor e já sem préstimo, que lhe deram em imponente parada militar,. Era assim, meu pai, foi assim o filho do teu amigo. Um herói.

Começa a doer-me o corpo da posição tão incómoda imposta pelas regras de segurança. Doe-me o corpo, mas fervilha-me o cérebro. Nasce-me, aos poucos, uma poesia. Prometo dizer-ta, meu pai, quando nos encontrarmos. Após esta guerra acabar. Mesmo que um de nós já cá não esteja, ou se ambos já cá não estivermos, fica prometido, aqui, sem a necessidade de testemunho notarial, que hei de ter um herdeiro que a há-de dar à luz. E nós, ambos, onde quer que estejamos, vamos ter conhecimento dela. Disso podes ter a certeza. Prometo-te. E o prometido é devido e cumpre-se. Este cumprir-se-á! Estejamos onde estivermos…

Está a amanhecer. Este silêncio dá cabo de mim. Tento lembrar-me das coisas que me contavas no início desta guerra. Nos meus onze anos, ouvia-te, quando regressavas a casa no final de cada campanha de seis meses de ausência nas matas, do norte e do leste de Angola ao serviço do instituto de cartografia, a chamada Missão Geográfica de Angola. Longe de nós; da mãe e dos meus dois irmãos. Estavas um perito em mapas, dizias por brincadeira. Tu, que andavas esse tempo todo agarrado ao volante de uma Hanomag ou de um Unimog, o chamado “burro do mato”, a conduzir um engenheiro geográfico. Contavas-me o que agora eu observo nesta maldita e traiçoeira guerra.

«Havia árvores caídas / pontes abatidas / e mortos na picada // Havia corpos inchados do calor, / esventrados… / órgãos retirados e braços decepados // Havia o cheiro a morte e a traição // Ali apenas as moscas varejeiras / tinham vida / e apressadas teimavam em tomar conta /de cada cadáver // Sob os corpos armadilhados, / a mina antipessoal / paciente / à espera de fazer mais mortos // Havia a raiva e a dor / e a sementeira de corpos pelo chão» – in “todas as folhas têm chão”

Corpos decepados, esventrados (…). Puta de pátria que teus filhos desprezaste um dia…» – – in “todas as folhas têm chão”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.