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ILÍDIO SARDOEIRA – AINDA O CENTENÁRIO

REGINA SARDOEIRA 
Revisitando a homenagem que Amarante fez a Ilídio Sardoeira, em 1990, nos dias 25, 26 e 27 de Maio, fui buscar recortes de jornais e outros documentos dessa altura. Encontrei este texto, publicado no Jornal de Amarante, no dia 3 de Maio de 1990, o primeiro de uma série, pela qual eu, enquanto parte integrante da equipa da Polis Projecto-Cultural, associação da época que desenvolveu o plano de acção desse fim de semana, me propus dar uma resposta às questões: Quem foi Ilídio Sardoeira? Quem é Ilídio Sardoeira? 
Em ano de centenário, pareceu-me oportuno recuperar este texto genuíno, vindo da minha própria infância.
“Quem foi Ilídio Sardoeira? Quem é Ilídio Sardoeira? Duas perguntas. Uma só resposta? Vejamos. 
O que ele foi esgota-se na linearidade comum da vida, perde-se no buraco insondável da morte. Mas o que dele é a memória nos outros, o testemunho nas acções e nas obras, condu-lo ao presente, encaminha-o para o futuro, projecta-o na imortalidade. 
Viver é durar – e perdurar . E todos participamos desse destino, porque todos deixamos um rasto: somos nós mesmos e a memória do que fomos.
Ilídio Sardoeira existiu num espaço/tempo finito, compreendido entre Canadelo, 12 de Novembro de 1915 e Vila Nova de Gaia, 30 de Novembro de 1987. Nestas duas datas, nestes dois espaços, se inscreve o destino do homem: datas-limite, espaços da raiz e do fruto. Onde entendê-lo melhor, na raiz ou no fruto? Ou ainda nos interstícios que foram o caule e a flor, as ramificações e a seiva de outras aventuras humanas? 
Porque tudo realmente conta, só no todo encontraríamos a versão humana objectiva e integral. Mas ainda que fossemos capazes de seguir, passo a passo, dia a dia, o percurso do homem através das terras, das gentes, nas circunstâncias várias do tempo, também ele vário e conturbado, mesmo assim poderíamos dar, com segurança, o perfil humano coeso e justo? 
A resposta é um rotundo não e nem outra poderia ser. Porque existe o insondável, aquilo que apenas a ele pertenceu no segredo do seu íntimo, aquilo que, de si mesmo, talvez jamais ele o tivesse sabido. 
Estou todavia fascinada pelo espaço /tempo limite, pela raiz e pelo fruto, pelo princípio e pelo fim. Vejo-o melhor entre as escarpas rudes, a terra amarela, a carqueja e a ardósia da aldeia serrana de Canadelo e o nevoeiro indeciso do Douro, os barcos rabelos, os néons do Croft, do Cockburn, do Sandeman e a Ribeira, o casario em cascata do Porto da Sé e o comboio no seu vai-vem entre capitais – vejo-o melhor aqui, porque foi nestes pontos-limite que partilhei com ele a intimidade e o tecto. 
Fui muitas vezes a Canadelo. Não havia luz eléctrica e a estrada, poeirenta, esburacada, entre pinhais e terra amarela, acabava muito antes da aldeia. Para chegarmos a casa, era preciso ir a pé, inevitavelmente seguidos por um grupo de garotos descalços e maltrapilhos que engrossava à medida que chegávamos ao destino – era a “escolta” como costumávamos chamar-lhes. Depois, atravessávamos a rua principal da aldeia – um caminho rude, interceptado, aqui e ali, por espessas camadas de mato como prolongamento das cortes dos animais domésticos, em coabitação pacifica com as gentes. 
A nossa chegada era um acontecimento porque raros eram os visitantes e nós conseguíamos ser ilustres…à nossa passagem abriam-se portas e bocas e o meu pai era saudado pelo diminutivo que nunca lhe retiraram os conterrâneos: “Então como passa sr. Luisinho?” 
Chegávamos à casa, térrea e caiada, com um passeio alto a acompanhar toda a fachada e o típico telhado de ardósia; entrava-se pela cozinha, negra de fumo, chão de terra batida e o grande lar onde as panelas ferviam ao lume doirado e quente. E “ele” lá estava, no meio das mulheres, vestidas de negro, com lenços na cabeça, que acorriam em bando para ajudar nas lides. Sorridente, orientava os preparativos da refeição, dava sugestões, provava os petiscos – e havia sempre umas graça, um dito de malícia inocente na sã convivência com o povo de que ele era filho. 
Cumprimentava-me, oferecendo a face lisa (Olá, rouxinol!) e continuava na azáfama da cozinha, entre a algazarra do mulherio que tinha nesse dia refeição farta garantida. 
Ao canto da lareira, pequena, magra, vestida do negro das viúvas, com o rosto marcado pela idade e pelas mágoas da vida, sempre silenciosa, a mãe do poeta, desse homem, imenso e pequeno como tudo o que é grande, dava poucos sinais de vida. Como se tivesse entrado, definitivamente, num mundo apenas seu, ali ficava, no calor das brasas, um pouco alheia, talvez só. Assim vejo a minha avó, essa mulher do povo, mulher de Canadelo autêntica, desconhecedora das letras, rude até ao fim – e no entanto a mãe sempre querida, sempre homenageada, do homem culto, do sábio, do artista delicado e sensível . 
A casa, mais para dentro, primava pela simplicidade: soalho de tábuas, paredes caiadas, um ou outro quadro na sala principal – o retrato do meu avô que nunca conheci, um desenho representando um rosto feminino, uns cadeirões rústicos…e era tudo. 
Ficávamos pouco tempo dentro de casa. Era verão, estávamos de férias e havia muito que ver lá fora. Ele, quando se libertava do tumulto culinário, acompanhava-nos. Subíamos ao Calvário por uma escarpa rochosa – perto, havia o lavadouro público, onde as mulheres batiam a roupa em alarido; e lá vinha um chamado pelo “Sr. Doutor” que parava e queria saber coisas da vida daquela gente que ele conhecia bem e tratava sempre pelo nome próprio. Numa levada de água cristalina, apanhávamos agriões frescos; nas silvas que bordejavam os caminhos, colhíamos as amoras selvagens e negras. E ele mostrava-nos a paisagem esplendorosa, vestida apenas com o fulgor virgem dos começos, os recantos, as pedras, a vida palpitante e túrgida. 
Encontrávamo-lo ali, naquela terra quente e rude, completo, irmanado consigo mesmo; era o familiar compreensivo que nos ouvia a tagarelice e a impertinência, o professor que nos ensinava os segredos da terra, o poeta que nos levava até aos sítios da sua inspir

ação. 

Não evoco grandes conversas, ele não nos fazia discursos, deixava-nos entregues à infância e à inocência e conduzia -nos, sem que déssemos conta, à descoberta. 
Das brumas da minha própria infância, na memória desses passeios, pela aldeia ainda rude, ainda pura, eu evoco a raiz do poeta, o embrião do homem da ciência: evoco, com a sensibilidade, porque saber como foi, não sei. O que faz de um homem, poeta? Como sai um, de entre muitos, da rudeza das origens, enquanto outros ficam, para sempre, em estado bruto, unidos à pedra, tecidos no húmus? 
Ilídio Sardoeira, em Canadelo, era o irmão da terra o amigo de cada pessoa, que o cumprimentava com a veneração devida ao sábio, com o amor devido ao irmão; e todos sabiam que quem ali passava era grande. De estatura baixa e voz suave, a sua presença marcava pela bonomia – nenhuma pompa, nenhum sinal exterior de fausto ou de vaidade: porque toda a riqueza lhe vinha da terra e de dentro.
INTIMIDADE
Outro me sei e outro me descubro, 
calcurreando o mato e alevantando
voos azuis de gafanhotos cautos
fomes de répteis, cegos, avivando,

Cresce-me o corpo à terra e enraíza, 
como se terra e corpo, ou mãe e filho, 
à gestação primária regressassem. 
Cacho de cepa ou espiga sã de milho

comigo compartilham como irmãos; 
e jorro de água viva, sobre pedras, 
batido pelo sol, sabe-me ao riso

da criança que fui, depois do choro. 
Outro me sei e outro me descubro
por este chão de cardos que nem piso.

Ilídio Sardoeira, Poemas (1952)

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