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UMA PARIDADE MAL PARIDA

GABRIEL VILAS BOAS
Há dias vi o filme “As Sufragistas” que recordava o começo da luta das mulheres inglesas pelo direito ao voto. Foi há cem anos e foram precisos dezasseis para que esse direito lhes fosse efetivamente outorgado. Ontem, o jornal O Público fazia manchete com um estudo recente que referia que as mulheres portugueses ainda gastam o dobro do tempo em atividades domésticas que os seus companheiros. Quando li a notícia fiquei surpreendido, pois esperava que a diferença fosse maior. Em 2002 o fosso era realmente maior, mas a aproximação tem sido feita a passo de caracol.
O século XX marca a conquista, em muitos casos dolorosa, de direitos fundamentais das mulheres, em sociedade que eram dominadas pelos homens. 
Colocar na lei a igualdade é fundamental, mas a paridade não se decreta, constrói-se. É uma responsabilidade que cabe tanto ao homem como à mulher e está muito dependente da educação, através do exemplo, que os adolescentes e jovens recebem. 
A lei pode ajudar imenso, ao ser imperativa em determinados casos concretos e, sobretudo, ao fiscalizar as arbitrariedades cometidas ao nível da disparidade salarial entre homens e mulheres. Hoje um salário médio de um homem é superior, em cerca de 130 euros, ao de uma mulher. Mais do que um problema de mentalidade de quem emprega, acho que se trata duma falha de quem regula. 
Homens e mulheres são seres diferentes e, obviamente, têm inclinações naturais para fazer mais umas tarefas que outras. Por isso espanta-me tanto que, num lar, 92% das mulheres tratem da roupa como 82% dos homens se ocupem, em exclusivo, das reparações.
Se a questão da paridade não oferece filosófica discussão, então tem de ter tradução prática. Desgraçadamente, o meio família ainda é um triste palco desta (dis)paridade. Os homens portugueses dedicam oito horas semanais às tarefas domésticas, mas a necessidade impõe que as mulheres tenham de lhes dedicar dezassete. Esta diferença ainda é muito grande. Além da educação dos filhos para a paridade, as mulheres devem “exigir” que os seus companheiros cumpram aquilo que defendem (74% dos homens acha que as tarefas lá de casa devem ser repartidas igualitariamente). É uma luta difícil, porque é também uma luta de poder e de transformação de mentalidades. Saber negociar é uma arte tão ou mais útil como saber seduzir. 
É verdade que os casais mais jovens dividem mais e melhor as tarefas domésticas, mas recusou-me aceitar que tenhamos de esperar décadas para sincronizarmos direitos e deveres. É possível fazer mais e melhor nesta área. Recordo, por exemplo, o extraordinário contributo que as diversas monarquias europeias podem dar, ao permitir que seja a princesa a tornar-se rainha, quando é a mais velha, e não que esse lugar fique reservado para a esposa do jovem príncipe, mesmo que este seja o mais novo dos irmãos. 
Na esfera profissional, penso que o problema não se resolve com quotas, que além do mais até podem ofender a dignidade das mulheres e criar situações muito injustas. Implementar a paridade passa antes pela valorização da meritocracia. Homens e mulheres devem ter uma situação de partida igualitária e serem objeto de uma avaliação justa e imparcial. Depois, se houver mais mulheres a mandar ou mais homens a com salários superiores, não há como invocar mais a injusta paridade que nos atrasa civilizacionalmente. 
A paridade de géneros revela muito acerca dos valores fundamentais de determinada sociedade.

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