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TRIGO E JOIO MUSICAL

MIGUEL GOMES
– Parece-me que o fim está próximo.
O semblante não preocupado de quem profere afirmação apocalíptica surpreende. – Porque dizes isso?
Continua calado, a soprar a espuma que flutua sobre o café negro na caneca larga de metal e perdido um pouco nos pensamentos que só ele poderá saber ter. Levantou-se, com a caneca presa pelas pontas dos dedos, o vapor sobe pela palma da mão e sai por entre os dedos e, de repente, é como se aquela mão grande se parecesse com uma floresta na bruma, envolta em nevoeiro espesso que se vai dissipando quando meia dúzia de raios solares penetra árvores e raízes adentro. Dá três passos para cada lado e imagino-o como um gigante pêndulo de um relógio afinado, comparação que se esmorece porque aqui, longe da tridimensionalidade, o tempo é um conceito que não existe, pelo menos no sentido lato a que nos habituamos.
Olha para mim e com a cabeça aponta para fora da janela. Levanto-me e aproximo-me, limpo o embaciado vidro e olho. Um formoso berlinde azul, verde e castanho, populado com neblinas brancas e cinzentas, que reluz a cada vez que a face virada para a estrela, parece resplandecer um desequilibrado conjunto de cores. Longas cores e deformadas circunferências daquilo que parece ser uma espécie de campo electromagnético perturbado oscilam ao redor do planeta. Paciente, o planeta, acomoda-se e reage pacientemente ao desequilíbrio que alguns dos seus habitantes lhe causam. 
A cada fração de segundo entram e saem pequenos pontos luminosos daquela esfera minúscula, esquecida, pensam eles, neste braço desta galáxia, uma entre infinitas, deste universo, um entre infinitos. Um ou outro ajuste é necessário, seguindo referenciadas linhas geodésicas, o planeta rebuliça, expele-se, contorce-se, apresenta por vezes um esgar de dor que se reflecte não pela cara, que não a possui, pelo menos a olhos meus que o vejo daqui, de trás da vidraça, mas sim no descolorido e esburacada campo que a circunda. Isto parece preocupá-lo, rodopiando a caneca nos dedos, já sem o calor do vapor na mão, encostando a cabeça à madeira que ladeia a janela e colocando uma mão sobre o meu ombro. Suspira.
Parece-me dividido entre o amor de duas criações, o jardim que plantou e as plantas que nele nasceram. Sem friezas nem emocionalismos, mantém-se impávido no semblante preocupado. Cerra os olhos. Abre-os novamente. Ao fundo, aquele berlinde colorido, rodopiando e girando num escuro firmamento, sacode-se e liberta uns quantos pontos luminosos, aumenta a velocidade, novas sementes nascem no jardim sem certeza (quem a terá) de quanto permanecerão no solo arável.
Na medida que acelera, o campo que o circunda parece homogeneizar-se, mas por pouco tempo. Desconhecedoras da infinitude de jardins, de plantas e sementes que existem noutros e no mesmo solo, estas agridem-se, flagelam-se, contorcionam ramos e espinhos, picando-se a si mesmas e a todas as outras que a ladeiam. Por entre caótico cenário, outras plantas permanecem em silêncio preocupando-se apenas em libertar o máximo de sementes invisíveis, que ascendem ao véu azul e depois caem indiscriminadamente pelo jardim, na terra queimada, negra e agredida, colocando um pouco de balsâmico sentimento no desorganizado arado que se revolve, mas por pouco tempo, pois outras espécies de plantas se preocupam em criminalizar e organizar autênticas pragas sobre tudo o resto, deixando abandonadas plantas e sementes de todas as espécies e todos os habitats, agindo como donas de um jardim que desconhecem, mas mesmo assim tentam controlar, o solo, o vento, a água que de ninguém cai para todos e nebulam o próprio véu azul com imagens aterrorizadoras de um futuro que pertencerá a quem não se deixar confiar à sua protecção.
– Espero pouco mais. Não poderei sacrificar um jardim pelas plantas que não se deixam semear por elas mesmas. – Porquê? Não me respondeu. 
Desencostou a cabeça da madeira, deu-me um ligeiro apertão no ombro que me pareceu um emotivo até já. Continuou a andar pela sala e saiu por uma das portas que dão para infinitos alpendres nesta casa de infinitos andares, acima e abaixo, digo-o embora nunca as tenha visitado pois ouço os passos, acima e abaixo de onde estou. Continuando a rodopiar, aquele pequeno berlinde habitado por pobres, por vezes vorazes, seres desconhecedores da infinidade de outros mundos além do seu próprio interior, sem estenderem ramos e folhas para o astro e astros próximos, olham para o seu caule e admiram-se de si mesmos, folheiam-se e pavoneiam-se sem a preocupação do pólen que transportam e transbordam a cada respiração. Ao lado, caem e rebolam espécies de plantas diferentes, embora partilhando o mesmo solo são vistas como inferiores, servindo para estas atingirem os seus objectivos de ostentação, desaparecendo a cada rotação do berlinde que habitam.
Pacientes, flutuam na invisibilidade orbes de plantas distintas, de formas e espécies jamais imaginadas, na preocupação deste jardim adoentado no limite da transformação musical, de uma oitava para outra, prontos a acolher as plantas que se souberem música e decidirem escalar a pauta da canção que são. Até no silêncio se podem fazer ouvir, na orquestral sinfonia que parece reger este e todos os andares e horizontes para longe de cada janela pode onde espreito e, acredito, outros possam também observar.
O som que emana, agora, parece um aglomerado desorganizado de sons estilhaçados e desinteressados, sem preocupação por harmonias ou desrespeitadores de qualquer maestro que as possa colocar penduradas na serenidade do seu lugar na plantação, seja pauta musical, seja a leira arada pelo mão de um criador.

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