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BIRD Magazine

UMA CARTA A UM SUPOSTO MESTRE DA PALAVRA POÉTICA

ALVARO GIESTA
Meu caro Mestre,
Hoje, e pensando com angústia no “estonteante jogo de espelhos onde Franz Kafka se representava constantemente a si próprio em personagens sempre novas”, pensei em desmultiplicar-me enquanto caía nesta reflexão: «Pensar, não é dizer o já pensado ou esclarecer o esclarecido» (sic).
Li isto em qualquer lado, penso. Ou então acordei de qualquer sono mal dormido com esta máxima sonhada, que me fez pensar e decidir-me por escrever-lhe.
Sei que temos muito a dizer um ao outro. Nestes tempos que correm pouco o temos feito, distanciados que começamos a estar – embora habitemos paredes meias no amontoado de papéis sobre a mesma secretária.
O meu caro Mestre tem-se mantido fiel à velha forma de escrever, com as palavras obedecendo a todas as relações gramaticais. Teima em não separar o significado do significante, e é isto que lhe confere, reconheço, ser, o que escreve, do melhor quilate. Mas… você pensa, tantas vezes, o já pensado; esclarece, tantas mais, o já esclarecido. Há que inovar. Este seu velho e teimoso amigo, teima em dizer que – em dizer-lhe que – «pensar, não é dizer o já pensado» ou “esclarecer, não é afirmar o já esclarecido”. Desculpe-me, mas parece-me que, de alguma maneira, eu evoluí na forma de pensar a poesia e você ficou parado no tempo. Estático. E, forçoso é evoluir, ainda que tenhamos de regressar às origens para, a partir daí, desvendarmos novos sóis.
Entendo – e penso que entendo bem! – que as forças condutoras dum poema, devem ser «impulsões de linguagem»; devem ser palavras escritas no espaço e no tempo, ainda que não obedeçam a certas regras gramaticais, mas, sem serem desconexas e desprovidas de sentido, que «condensem, em si, as múltiplas virtualidades significativas» (sic). Que espicacem o pensamento adormecido, que incomodem e façam pensar, como o moscardo incomodativo acossa as orelhas do asinino em dias de cálido verão.
Dizia eu, acima, que as palavras que constroem o poema, conquanto não obedeçam sempre a todas as regras gramaticais, não devem ser desconexas e desprovidas de sentido! Dizia, e digo, muito bem – são duas coisas diferentes que uma à outra se alertam para a perfeição: o escrever poesia sem obediência a todas as regras gramaticais e o (não) escrever coisas desconexas e desprovidas de sentido, dois opostos que se completam e complementam. Porque, se isto se não verificar, proliferará no texto a falta de coerência.
Dizem-me que não deve haver coerência no texto poético. Como assim? Quem produz o poema não pode ignorar, de todo, o seu interlocutor, porque é este que o vai interpretar, ainda que possam estar subjacentes ao mesmo texto poético várias interpretações. É saudável que assim seja: cada leitor interpretará, por si, o poema feito sem perguntar ao poeta como o fez; e cabe ao poeta dar ao leitor o poema que escreveu e desligar-se dele depois de o ter escrito. O poema, uma vez concluído, deixa de ser pertença do poeta; passa a ser universal – do mundo infinito em interpretações.
Embora seja certo que uma grande parte dos conhecimentos necessários à compreensão do texto poético não vem explícito no mesmo, fica dependente da capacidade de pressuposição e inferência do receptor mas, também, do construtor do texto, que o não deve construir com recurso a uma amálgama de palavras-colagens sobre outra amálgama de colagens de palavras, retirando-lhe toda a falta de sentido e coerência. E falta disso – de coerência – já nós temos em excesso nos escrevinhadores de hoje.
O poema, embora escrito sob o signo da liberdade, furtando-se ao constrangimento das normas para dar toda a liberdade de pensar a quem o interpreta e sobre ele discorre, não deve prescindir da sua coerência interna, para poder transmitir aos outros a experiência vivida pelo poeta, no momento da sua criação poética.
Seja o poeta «o engenheiro da palavra» que a constrói com alguma secura de linguagem e o rigor do esquadro e da fita métrica, negando aquilo a que se chama “inspiração”, seja o poeta sem alma que constrói poemas frios sob o rigor da razão, seja o poeta da busca, da intervenção, da interrogação indagando sem inspiração nem encantamento mas com raciocínio, fazendo da poesia um trabalho intelectual, seja aquilo a que eu chamo o poeta lírico, ou seja, o poeta sentimental que apenas constrói poesia ornada de chavões líricos e metáforas escusadas, cansadas e repetidas oscilando pela falta de rigor e excesso de retórica.
É que, meu caro mestre, vejo que a poesia funciona, e penso, hoje, ao contrário de ontem, que deve assim funcionar, como um pêndulo de relógio sem, contudo, perder a sua coerência interna: um dia oscila para o rigor da filosofia e da razão, para a poesia concretista, crítica e racional aprofundando com maturidade a conquista da arte e da estética – ela será a obra do engenheiro da linguagem geometrizada e exacta que leva o poeta, antes do seu leitor, a reflectir nesse mistério da criação literária; outro dia oscilará para a poesia do coração hesitante entre aquilo que os olhos veem mas também sentem, e o coração que muitas vezes é forçado a dizer que vê o que sente sem, contudo, sentir coisa nenhuma – ela será a obra do engenheiro sem grande aspiração ao reconhecimento que o rigor da criação literária exige.
Creia o leitor e o meu benevolente mestre em ler-me, que é esta a minha forma de pensar; mas, não nego que já fiz versos ruis no antigamente. Também “os fazia” com colagens de palavras inventadas sobre colagens doutras rebuscadas obrigando ao recurso do dicionário, amontoados de colagens sobre colagens que começavam em pedras roliças com a intenção de as transformar em borboletas e papoilas amarelas e raras, versos desprovidos de sentido que rasguei sem mágoa disso sentir hoje.
Dir-me-á, talvez, que a minha massa cinzenta se desenvolveu na razão directa do decair da idade, regredindo, coisa lógica de ser com o passar dos anos; mas, afianço-lhe, que tudo isto é mais fruto dessa evolução encefálica, do que influência dos poetas actuais que quase não leio, e de quem, até, quase nem sei nomes. Isto, sim, é que é falta de conhecer e caminho para que prolifere em mim a ignorância. Mas não tenho paciência para ler “coisas” que não entendo, tão descontextualizadas elas se apresentam ao

meu entendimento…

Bem: hoje fico-me por aqui nesta escassa dúzia e meia de cartas que há alguns anos lhe escrevi, mas deixei na gaveta a amadurecer – curtas cartas para não o maçar na leitura, de que esta é a primeira. Sempre vou preenchendo, da maneira que gosto, os meus dias que estavam correndo tão vazios. Pois o meu amigo sabe que nada me apraz mais do que a escrita, e de que não existe passatempo, mais culto e útil, do que rabiscarmos os nossos pensamentos, que mais não seja para os legarmos aos vindouros.
(Parede, 20/03/2009)
Atentamente, o seu pseudónimo
Alvaro Giesta
PS: mando-lhe “os sonhos dum tempo novo” que escrevi, numa dessas viagens de meia hora, do Cais do Sodré à Parede, ao som do pouca-terra do comboio eléctrico, num fim de março ventoso. Talvez, um dia, integre um livro de poemas…
«doem-me os dedos de silêncio
crispados
na ânsia de ser tempo,
dentro
da hora ainda absorta
inexplicavelmente dos porquês.
incompreensivelmente
nasce trovejante no meu mar interior
de marés intensas,
a esperança
de nascer breve e ser
a lucidez
onde a noite se estilhaça
e ganha o dia a sua infância.
não há manhãs exaustas
no secreto tempo,
apenas sonhos por sonhar
e de, no criar,
ser ânsia».

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