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JURAMENTO DE HIPÓCRATES

REGINA SARDOEIRA
A 6 de Dezembro de 2015, quinhentos e sete novos médicos fizeram o Juramento de Hipócrates.
Para quem não sabe, Hipócrates (ou Ἱπποκράτης) é considerado o pai da medicina. 
Nascido numa ilha grega, os dados sobre a sua vida são incertos ou pouco fidedignos. Parece ser verdade, no entanto, que viajou pela Grécia e que esteve no Próximo Oriente.
Nas obras hipocráticas há uma série de descrições clínicas pelas quais se podem diagnosticar doenças, tais como a malária, a papeira, a pneumonia e a tuberculose. Para o sábio grego, muitas epidemias relacionavam-se com factores climáticos, raciais, dietéticos e com o meio onde as pessoas viviam. Muitos dos seus comentários nos Aforismos são ainda hoje válidos. Os seus escritos sobre anatomia contêm descrições claras, tanto sobre instrumentos de dissecação, quanto sobre procedimentos práticos.
E os médicos iniciados juraram, em conjunto, o seguinte:
“Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade. 
Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.
Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.
A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação.
Mesmo após a morte do doente respeitarei os segredos que me tiver confiado.
Manterei por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica.
Os meus Colegas serão meus irmãos.
Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente.
Guardarei respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início, mesmo sob ameaça e não farei uso dos meus conhecimentos Médicos contra as leis da Humanidade.
Faço estas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra.”
Uma grande confiança no ser humano, vinda do eco destas palavras, nasceu em mim. E no entanto, qualquer uma destas promessas, firmadas numa jura solene e pública, testemunhada por várias centenas de pessoas, para além de cada um deles próprios, os médicos, individualmente considerados, e os colegas, ali presentes e em juramento, tal como eles, não será fácil de cumprir.
«Consagrar a vida ao serviço da Humanidade».
Somos Humanidade e deveria ser prática comum de todos nós, consagrarmos a nossa vida a nós mesmos e à nossa condição. E contudo muitas vezes afundamo-nos no egoísmo e no preconceito, retirando ao outro a nossa consideração. Mas os médicos, não somente estes que agora iniciam a sua carreira, mas todos os outros que um dia proclamaram um juramento idêntico, ficam vinculados, pela sua honra, a esta gigantesca tarefa. Não será um pouco excessivo que os médicos devam fazer semelhante juramento, pelo qual se comprometem, em nome de todos, no foro individual e também social, enquanto os outros alijam de si tal responsabilidade?
Creio que os jovens médicos, ontem reunidos na Casa da Música, no Porto, e em clima de festa, sentiram as palavras do Juramento e que, após seis anos de trabalho árduo, desejam firmemente estar à altura. Senti nas posturas que presenciei, no longo desfile pelo palco da sala Guilhermina Suggia, onde, um a um, receberam o documento que lhes permitirá exercer a sua missão, um grande sentido de responsabilidade, um porte sereno, mas decidido. Apesar disso, não pude deixar de pensar: “E depois? Passado este limiar, junto à porta de uma tremenda aventura existencial, presos ao juramento que lhes exige a ” consagração da vida ao serviço da Humanidade”, ter como “primeira preocupação a saúde do doente”, guardar respeito absoluto pela vida humana desde o seu início, mesmo sob ameaça ” (…), imersos num dia a dia trepidante, sujeitos a más condições de trabalho e mesmo à sobrecarga horária, tiranizados por chefes eventualmente já esquecidos do seu próprio juramento ou mentores pouco atentos às necessidades de jovens, deste modo lançados da esmagadora teoria para uma prática desmesurada, não acabarão desesperados, não chegarão a soçobrar? “
A medicina é uma arte, diz o juramento de Hipócrates. Justamente, a cerimónia decorreu numa casa da arte (e a música é, pelo seu carácter etéreo, abstracto, matemático, a essência de todas as artes), foi antecedida por um concerto de piano, cujos protagonistas – para além de Pedro Burmester, o executante – foram, por esta ordem, Bach, Mozart e Beethoven, e na sua intervenção o Bastonário da Ordem dos Médicos, comparou a Medicina à Música, realçando o carácter ético, mas também estético do magistério médico. Esta ênfase posta na plenitude que a arte configura, coroada, no concerto, pelas ondas altissonantes da sonata n° 14, opus 27 ( ou Ao Luar) , de Beethoven, esse gigante ou semideus, a compor, em surdez absoluta, melodias sublimes, revelaria, se tais meandros da iniciação à arte médica fossem do conhecimento de todos, o significado intrínseco do que é, verdadeiramente, ser médico. 
Poder-se-á ousar sê-lo apenas porque a sociedade, pelo menos a nossa, decretou que é um curso “com saída” ou porque uma enorme capacidade de trabalho possibilitou ao candidato as classificações requeridas pelos numerus clausus? Poder-se-á, porventura, supor que ser médico é aceder a um elevado estatuto económico-social, assim, num passe de mágica? 
Ler e ouvir o Juramento de Hipócrates, meditar nas palavras ancestrais do Pai da Medicina e tentar perceber o que faz o mundo brutal em que vivemos e um sistema de saúde decadente e elitista desses jovens sérios e respeitáveis que, desse modo solene, prometeram honrar a sua arte, é entrar a fundo no atoleiro a que o homem conduziu a Humanidade a que pertence. 
Quero acreditar na Humanidade e gostar dos Homens. Quero olhar os jovens e ter esperança num mundo melhor, feito pela vontade dos seus espíritos ainda incólumes, onde os valores, outorgados por nós, sejam o norte da vida de todos. Mas, a seguir, contemplo a realidade, vejo como se pervertem os ideais e como o jovem amadurece e e

ndurece na selva monstruosa onde quotidianamente esbarra e onde precisa de se defender. Não sei porque havemos de viver prevenidos uns contra os outros, individual e colectivamente, porque havemos de nos olhar desconfiados e com a agressividade ou o tédio à flor da pele. Mas é este o leitmotiv da Humanidade e é por essa razão que a cerimónia sublime do Juramento de Hipócrates a que tive o privilégio de assistir, me extasiou, tanto quanto me encheu de sentimentos de profunda apreensão.

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