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SOBRE UM ELEITO -MÁRIO DE SÁ CARNEIRO- O POETA DA DISPERSÃO

E sinto que a minha morte –
Minha dispersão total –
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
Mário de Sá-Carneiro in Dispersão
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ALVARO GIESTA
Assim escreveu no seu primeiro título de versos – DISPERSÃO – o autor duma obra em que a morte – quer em verso quer em prosa – ia ser o seu único mote de desenvolvimento. Fundamenta-se a poética do modernista MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, reflectindo-a com base no pensamento de dois célebres pensadores acerca da tragédia e da psique: ARISTÓTELES, filósofo, que dividiu a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática e FREUD, o criador da Psicanálise, quando nos diz que a paixão narcisista se arrisca à infelicidade, porquanto, fascinar-se demais com a imagem de si próprio é condenar-se a uma futura auto-repulsa. Assim ocorre com o eu-lírico do poeta da DISPERSÃO.
Mário de Sá-Carneiro manteve, durante a vida, uma dupla luta: “consigo e contra si”. E o fio condutor dessa luta foi sempre, e delirantemente, “a persistência no erro, no engano fatal”: «Eu fui alguém que se enganou / E achou mais belo ter errado…» e, ainda, laconicamente suspira «Ó grande Hotel universal / Dos meus frenéticos enganos, / Com que aquecimento-central, / Escrocs, cocottes, tziganos», em ELEGIA. Se em DISPERSÃO erra: «Se me olho a um espelho, erro / Não me acho no projecto.», em QUASI «De tudo houve um começo… e tudo errou», e em RODOPIO há «Ruínas de melodias, / Vertigens, erros e falhas», também em PIED-de-NEZ a persistência do erro existe: «O Erro sempre a rir-me em destrambelho / Falso mistério, mas que não se abrange…». Mesmo quando se refugia no abrigo de Paris, sempre o erro a bater-lhe à porta e a martelar-lhe a consciência: «Paris: derradeiro escudo, / Silêncio dos enganos», em ABRIGO.
Regressando ao pensador ARISTÓTELES, primeiro, antes de a FREUD se fazer referência, mais adiante, sabemos que o “ERRO” (hamartia) desempenha papel importante na poética da tragédia grega; parece haver incidências da concepção aristotélica da poética da tragédia grega na lírica de Sá-Carneiro. Vejamos a longitude do pensamento trágico-poético e o “como” da inspiração do poeta da DISPERSÃO para lavrar os seus versos.
Para o filósofo, uma boa tragédia teria como objecto da sua mimese (=simulação de…) a acção de homens superiores, os quais, em virtude de algum decisivo erro de julgamento, passariam da fortuna para o infortúnio. É o revés da sorte: a transformação dos sucessos dos protagonistas no seu contrário que deve dar-se pela passagem do desconhecer ao conhecer, acrescentando-se-lhe a catástrofe. Depois desta reviravolta das principais personagens, suscita o terror e a piedade dos espectadores que assistem ao drama com a finalidade de purificar essas emoções – é o efeito catártico, depurativo. Tal a lírica de Sá-Carneiro.
De início, o sujeito-poético vê-se como superior: medita em nada menos do que «coisas geniais», em PARTIDA; é «chama genial que tudo ousa», em ESCAVAÇÃO, em «dor genial» se eteriza, em ÁLCOOL. É megalómano: vê-se como ser superior, mesmo na “poesia da dor” – «O grande sonho – ó dor! – quase vivido…», em ÁLCOOL. É um presumido, um presunçoso, um vaidoso. Veja-se em PARTIDA, a sua excessiva autoconfiança: «A minha alma nostálgica do Além, / Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto. / (…) / Doido de esfinges o horizonte arde, / Mas fico ileso entre clarões e gumes!… / (…) / Alastro, venço, chego e ultrapasso; / (…) / O meu destino é outro – é alto e é raro». Neste excesso de vaidade se irá perder e esse pedestal, por si erigido sem enxergar as suas limitações, irá ruir e o poeta com ele se destruirá.
Pretende, exageradamente, o eu-poético de Sá-Carneiro, “entregar-se ao delírio com facilidade” e felicidade, desde PARTIDA: «É suscitar cores endoidecidas, / Ser garra imperial enclavinhada, / E numa extrema-unção de alma ampliada, / Viajar outros sentidos outras vidas». Em DISPERSÃO é onde mais se assiste ao êxtase, ao arrebatamento do sujeito que vive imerso em sensações alucinadas. Em ÁLCOOL: «Batem asas de auréola aos meus ouvidos, / Grifam-me sons de cor e de perfumes, / Ferem-me os olhos turbilhões de gumes, / Desce-me a alma, sangram-me os sentidos».
É com o recurso a um processo de associações diversas dos sentidos (audição + visão + olfacto), chamado sinestesia – tão próprio do SENSASIONALISMO DO ORPHEU de que Sá-Carneiro é congênere, que o poeta pretende exagerar, exacerbar as suas obsessões: «Nem ópio nem morfina. O que me ardeu, / Foi álcool mais raro e penetrante: / É só de mim que ando delirante- / Manhã tão forte que me anoiteceu.», em ÁLCOOL. Verifica-se aqui, sem margens para dúvidas, de que o Eu-poético tem pleno conhecimento do processo de degradação a que está exposto, a que se expôs com as suas práticas negativas. E delira, quando se “revisita”, como em INDÍCIOS DE OURO se vê: «Oh! Regressar a mim profundamente / E ser o que já fui no meu delírio…».
Foi o engano funesto em pretender-se superior ao mesmo tempo que se é frágil; foi o terrível equívoco de entregar-se em excesso às suas próprias obsessões sem nunca equacionar as suas fragilidades; foi o entusiasmo e o delírio de entregar-se aos seus excessos de vida sem nunca medir consequências; foi o exaltar-se em demasia e o confundir-se com a própria divindade, que o fez cair do pedestal quando reconheceu o erro. Porque, Mário de Sá-Carneiro não deixando de ser poeta, era apenas uma pessoa, embora como tal se não tivesse analisado: vinham-lhe, no sonho alucinado do Eu-poético, «saudades de ter sido Deus». Achou-se, com tal presunção e vaidade, o senhor capaz das grandes coisas, das «coisas geniais» e deste pensamento se encantou e dele se tornou prisioneiro e em ser superior se arvorou em seus versos, mesmo nos da dor: quão enorme era – foi – o seu sonho megalómano(!)… quão sem medida eram – foram – as suas fragilidades que nunca soube/quis equacionar. Duas fraquezas, dum ser que se julgava superior, tão grandes como a sua queda, no abismo que teve por nome: suicídio.
Esta ousadia trouxe-lhe, como consequência, a frustração no Eu-poético e nele, em pessoa, e assim «se dá o movimento de ascensão e queda análogo à tentativa insensata de o herói mítico alcançar o sol.» (MOURÃO-FERREIRA). «Vêm-me saudades de ter si

do Deus…», «(…) fui-me Deus / No grande rastro fulvo que me ardia». Eis aqui o homem que se desejava superior, admitindo depois não se encontrar à altura daquilo que almejava em vida para si e a infelicidade que daí resultou e o fim com a tragédia do suicídio.

Manifestações esquizofrénicas em Sá-Carneiro achou-as o célebre neurologista EGAS MONIZ dois anos antes do seu suicídio, quando em 1914 por este foi consultado numa das suas vindas a Lisboa, sendo então estudante em Paris, ao dizer ao clínico, para referir as manifestações de dor que o atormentavam «Sabe doutor, por vezes sinto um desdobramento da minha pessoa, não apenas psicológico mas físico (…)». Parece haver nestas palavras por si ditas, sem grande necessidade de recorrer em análise profunda aos seus versos, um pensamento delirante no poeta, mais alucinado que delirante que, numa manifesta ausência de identidade, fazia crer na existência de um enorme fosso entre a infância e a maturidade: planava, o Poeta-entre-si, enquanto tal e entre Ele e o Outro numa tentativa de fuga por inadaptação ao mundo em que vivia.
O “Eu-lírico” pairou sempre entre o Eu-ideal e o Outro, entre o tédio e a insatisfação nunca se reconhecendo em lugar algum. O “Eu-lírico” pairou sempre como se fosse uma morte em vida encontrando lugar na sua exaltação. Há em Mário de Sá-Carneiro uma histeria masculina instável e incapaz de alcançar o inalcançável «Além». Paira – não voa, muito menos se fixa – entre o Eu-ideal, Ele e o Outro na tentativa de encontrar o azul, o brilho, o infinito, o sol… «Quase / Um pouco mais de sol – eu era brasa / Um pouco mais de azul – eu era além / Para atingir faltou-me um golpe de asa…», em QUÁSI. A que «golpe de asa» se refere o autor de DISPERSÃO? À proeza? À coragem? Para «atingir» o quê? Nesta altura de manifesta depressão, a sua poesia é a tradução das tentativas frustradas nessa busca do absoluto, da estética perfeita que já tentara na narrativa novelística. Não conseguindo pousar na realidade por incapacidade absoluta de reconhecer as suas fragilidades, “não conseguindo, (por isso mesmo e devido a isso), ser nem atingir”, pairou no intermédio ficando-se pela idealidade vazia e negativa, muito aquém do triunfo e da chama do «Além» onde se queria e do Absoluto habitante e dono desse “Além”, o tal «Deus» que queria ser.
A sua poesia revela desdobramento do Eu e dispersão de personalidade: «Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes / Que um outro, só metade quer passar» em ÂNGULO e «Quero reunir-me, e todo me dissipo-/ Luto, estrebucho … Em vão! / Silvo p’ra além», em ÁLCOOL. Revela ainda recusa do real e fuga à realidade: « Não sinto o espaço que encerro / Nem as linhas que projecto: / Se me olho a um espelho, erro- / Não me acho no que projecto» em DISPERSÃO e «Afronta-me um desejo de fugir / Ao mistério que é meu e me seduz» em PARTIDA, ou «Onde existo que não existo em mim?» em ESCAVAÇÃO e «Irrealidade em mim ondeia / … -Ao meu redor eu sou Rei exilado» em DISTANTE MELODIA. Revela também um pensamento delirante e alucinado: «Imagens, formas, sons luzes / Que volteiam dentro de mim» em RODOPIO e «Sou estrela ébria que perdeu os céus / Sereia louca que deixou o mar / Sou templo prestes a ruir sem deus, / Estátua falsa ainda erguida ao ar» em ESTÁTUA FALSA. Depois toma consciência da sua incoerência e dos seus delírios «E eu que sou o rei de toda essa incoerência / Eu próprio, turbilhão, anseio por fixá-la», em A QUEDA e «Oh! regressar a mim profundamente / E ser o que já fui no meu delírio…» em ESCALA, antes de cair na depressão que o leva ao fim de si mesmo: «E cinzas, cinzas só, em vez de fogo… / – onde existo que não existo em mim?» em ESCAVAÇÃO ou «Nada me expira já, nada me vive- / Nem a tristeza nem as horas belas» de ALÉM TÉDIO e «Um pouco mais de Sol – e fora brasa / Um pouco mais de azul – e fora além / Para atingir, faltou-me um golpe de asa / Se ao menos eu permanecesse aquém…» de QUASI.
No poeta existiu esta dupla tendência: amar-se a si mesmo (o culto do eu) e odiar-se e desprezar-se ao mesmo tempo (auto aniquilamento). Sabemos que toda a paixão narcisista se arrisca à infelicidade. É da psicanálise e bem explícito no conhecido dualismo da concepção freudiana. Aqui se regressa ao nosso citado criador da psicanálise que nos diz que, fascinar-se demais com a imagem de si próprio é condenar-se a uma futura auto-repulsa.
A nossa pendular existência, segundo FREUD, explica-se pelas «pulsões sexuais», com base no princípio do prazer, comandadas pela libido e pelas «pulsões do eu» ou «pulsões de autoconservação», indutoras das diversas atitudes de autodefesa do indivíduo. E, nas «pulsões do eu (ou) de autoconservação», em oposição às «pulsões da vida» existem as «pulsões da morte», designada pelo sombrio vocábulo de «Thanatos». Para Freud, as «pulsões da morte (ou) de destruição» são as pulsões por excelência, pois elas buscam a eliminação total das nossas tensões. Assim, a tendência do aparelho psíquico é a de reduzir ao máximo as excitações do organismo (embora seja impossível tal redução por completo) e, daí, o impulso ao “Retorno ao Princípio”, a um modo não-orgânico da existência – a «dispersão total» de que fala Mário de Sá-Carneiro.
Mas outro pormenor decisivo de Thanatos é a «compulsão à repetição» que, num mecanismo mental movido por forças que se localizam «para além do princípio do prazer» se liga à pulsão da morte. Logo, repete-se o que é doloroso num trauma porque se busca, em vão, anulá-lo. Torna-se num fracasso a tentativa de lidar com o que é doloroso, o que nos conduzirá à morte através da autodestruição. Assim Sá-Carneiro se pôs termo a si mesmo. Narcisismo, Thanatos erotizado e compulsão à repetição, são formas íntimas do Eu-poético do autor de DISPERSÃO.
O indivíduo narcisista pode passar do amor-a-si-próprio ao seu-autodesprezo – é o segundo estágio – até se deixar atrair pela ideia de morrer, vendo na sua própria morte as cores sedutoras da libido que voltara, do início, para a sua própria pessoa – é o último estágio.
No trágico da obra de Mário de Sá-Carneiro, desde DISPERSÃO, o Eu-poético sabe que o seu destino não é dos melhores mas não consegue escapar-lhe, autodestruindo-se, com o seu próprio punho, um sem número de vezes, até que o assina com o seu próprio suicídio.
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Artigo, aqui completo, que serviu de nota de abertura, em versão reduzida, à Antologia “Sob Epígrafe – um tributo a Mário de Sá-Carneiro, editada pela Temas Originais, Coimbra, em 1.ª edição, 2014.

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